50 anos após maio 68

Este mês completam-se os 50 anos de maio 1968, sobretudo em França onde a insurreição estudantil começou e foi mais longe, mas também noutros países onde repercutiu com intensidade. Não sei se comemoro ou apenas lembro e penso naquilo, até porque estava em Paris durante os acontecimentos. Era o meu período de base em Dakar, tornando-se Paris prolongamento e interligação constante. A insurreição de maio 68 suscitou em nós um processo de debate sobre as ideias expostas e a relação estreita que tinham com o então terceiro mundo. Por exemplo, quando falávamos da nossa luta pela independência eramos ouvidos com interesse e solidariedade, elemento até hoje capital para nós e definidor de atitudes, caráteres e naturezas – tanto coletivas como individuais. Até revistas de alto impacto, como a Actuel”, criada naquele ano e em seguida expoente da nova cultura que se espalhou pelo mundo (Civilização do Universal, segundo Senghor) publicou na integra uma simples carta que lhe mandamos sobre a situação angolana de então.

Nesse ano e nos seguintes, alguns de nós aglutinamos as lutas individuais e abrimos um espaço de ação para marginalizados, elemento sobre o qual três sobreviventes dum desses grupos escreverão um dia, até para acompanhar a proposta de Lopo do Nascimento, no sentido da verdadeira História. Havia em nós visão abrangente sobre o então império português, incluindo todas as parcelas submetidas à ditadura de Salazar, o qual pouco depois caiu duma cadeira e, sem ter consciência disso, passou o poder ao Marcelo Caetano.

Nessa visão abrangente estabelecemos quatro “pilares da sabedoria” (que o Lawrence da Arábia me desculpe usar parcialmente o titulo do livro dele): nada submissão a dogmatismos ideológicos nem a autoritarismos partidários e nem lhes pedir autorização para agir; combater o recurso á intriga e à calunia como formas de expressão; não perder tempo com símbolos aleatórios e ir direto ao fundo do problema; colocar os direitos humanos como base e objetivo da nossa luta. Nesse quadro passamos a dedicar especial atenção aos soldados angolanos em prestação de serviço militar obrigatório, porque eram de todas as origens e os sabíamos descontentes. Aliás, alguns de nós eramos refratários ou desertores, ficando assim na área condutora ao 25 de abril, data

que não tenho duvidas em comemorar todos os anos, nem que esteja sozinho. Hoje, a nível pessoal, é daí que vem este sentimento de me sentir em casa em qualquer país de língua nacional ou oficial portuguesa.

E hoje também ficam muitas coisas dessa época. Com não sou historiador, a História é mais interessante quando vejo ligações imediatas de primeiro grau à atualidade (em Economia é normal estar sempre preocupado com a conjuntura).

Assim, os direitos humanos continuam regra de valor não negociável; a dignidade humana não é produto mercantil. A solidariedade define o tipo de comportamento das pessoas e, a política, a economia, a cultura ou até as simples amizades, só inspiram confiança se ela existir. Enfim, a calúnia é arma de quem está em apodrecimento ou perdeu a razão caindo no ridículo. Ás vezes não é só falta de confiança e ridículo pois há pessoas dedicadas à bipolaridade como regra nas relações humanos. Um tipo é teu amigo na segunda-feira e apoia os teus inimigos na terça ou gente que te elogia e até te convida para parceria na quarta, insulta-te baixamente na sexta.

Coletivamente, a “bipolaridade” aparece na vida política em quase todo o mundo e nem esperam o dia seguinte. Ao mesmo tempo que fazem grandes promessas praticam o contrário. Podemos sem hesitar dizer que o mundo é governado dessa forma e ninguém se admire que mais sociedades venham a fragmentar-se e implodir. A ligação entre comportamentos individuais e tipos de governo está bastante demonstrada: é o apoio, as manigâncias ou o silêncio dos primeiros que ajuda os segundos. O indispensável agora é encontrar a resposta adequada.

Há 50 anos faziam-se considerações e perguntas semelhantes, então não sei se já tenho motivos para comemorar o maio 68.

Nota – escrevi “bipolaridade” entre aspas por respeitar muito as pessoas que sofrem de bipolaridade em termos psíquicos e a quem lhes proporciona tratamento.

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