A componente chinesa

Decorreu em Pequim mais um Forum de Cooperação África-China, evento semelhante a todos os outros organizados por grandes potências interessadas no continente africano. Semelhante até no uso da palavra “cooperação”, cujo significado foi destruído pela prática europeia consecutiva às independências, ao esconderem sob essa designação desde negócios empresariais a operações militares. A China dessa fase criticava o conceito mas hoje utiliza-o. Acrescenta mesmo a expressão “ajuda”, também muito criticada pois virou algo idêntico àquele tipo de cooperação, além de ter perfil paternalista.

Seja como for, o Presidente chinês anunciou ou pacote de 60 bi de USD em “ajuda e investimento” da China com relação a África. Há alguns anos a China subiu à posição de maior parceiro comercial do conjunto do continente, em média e na maioria dos países tomados separadamente. Segundo a agência oficial Xinhua há dez mil empresas chinesas operando no continente africano, acrescentando que um terço está na área da indústria transformadora. Como as percentagens são, muitas vezes, apresentadas em função do interesse da cada parte, vamos sublinhar que, do ponto de vista africano, dois terços estão na prestação de serviços, comércio e, sobretudo, extração.

Esta diferença “ótica” não é secundária. África precisa de investimentos na indústria e nas novas tecnologias, para criar empregos e reduzir o abismo que a separa do resto do mundo em volume de PIB e desempenho de IDH. A China aparece assim dentro das mesmas opções setoriais das grandes e médias ex potências coloniais.

Vários dirigentes africanos pediram durante este Forum investimento direto chinês na produção, destacando-se a produção de bens de consumo, dado o grande déficit da maior parte dos países subsaarianos nestes bens, responsável por elevado volume de importações e consequente redução de moeda convertível. Tudo isto acompanhado por insuficientes taxas de poupança. Enquanto prevalecer este quadro, simplesmente não haverá desenvolvimento.

Angola serve de bom estudo de caso sobre a política económica africana da China. Segundo a Angop, no ano passado o volume de trocas ultrapassou os 22 bi de USD, sendo as exportações angolanas cerca de dez vezes mais, em valor monetário, que as exportações chineses para o mercado angolano. A razão é, como se sabe, o petróleo. As vendas chinesas compreendem basicamente produtos de consumo imediato e de baixo preço. No entanto, a Balança Comercial não dá o total da estrutura de relacionamento, visto esta incorporar um alto volume de serviços ( manutenção e construção civil incluídos) executados por empresas chinesas que absorvem grande parte dos empréstimos bancários de Pequim, destinados a obras de infraestrutura no país.

Portanto, com a compra de petróleo a China obtêm um produto essencial à redução de uma das suas vulnerabilidades (a energética), coloca bens manufaturados e as suas empresas conquistam importantes contratos. No domínio da mão de obra, a Xinhua assegura que 85% da mesma, ligada a empreendimentos chinesas, é africana. Seria interessante saber os níveis de especialização e reponsabilidade desta mão de obra. Por observação visual parece ser largamente subalterna. Aquela agência sublinha que agora a politica africana da China vai priorizar a formação de recursos humanos locais.

No Forum, declarações oficiais situavam a orientação geral da China com base nos planos da ONU, UA e no grande plano chinês “um cinturão uma rota”, lançado com inspiração na histórica rota da seda e visando hoje conectar a China aos mercados asiáticos, europeus e africanos. Um plano de onde decorre um grande interesse pelas infraestruturas, seja de vias ou de energia.

A força da China nos mercados africanos assenta no seu grande poder de compra, na venda de bens baratos, portanto, ao alcance do poder médio e até pobre dos nossos mercados e, enfim, do seu excedente de capital e consequente capacidade de crédito. Nos anos 70, alguns países árabes apareceram com este último atrativo.

Com economias quase monoprodutoras, fortes déficits de capital, desequilíbrio nas contas publicas e baixa poupança, África tem de aproveitar a política geral chinesa e seus meios. Vários desafios africanos estão situados no curto prazo e com urgência. Não é culpa da China e já não é culpa das ex potências coloniais. Os presentes graus de inserção africana no sistema económico e financeiro mundial são agravados pela fragilidade em que o continente caiu e, em muitos casos, continua a cair.

Qualquer que seja a avaliação que se faça dos parceiros, não há alternativa a estas parcerias (ou outro nome que se lhes dê). Mesmo os regimes africanos voltados para mudar o rumo, têm de recorrer a estes relacionamentos e tirar o melhor partido de todos. Neste quadro está desenhado o relacionamento com a China e, se esta avança mais rápido em África que as outras grandes potências, é problema entre eles. Assim será enquanto o continente estiver absorvido pela sobrevivência dia a dia.

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