A deificação do Poder

Os chefes tornarem-se deuses perante os seus súbditos foi um fenómeno constante na História da Humanidade, em todos os continentes, e só passou a ser menos frequente nos tempos modernos, após o triunfo dos ideais da revolução francesa em finais do século XVIII.

Em pleno século XX, países e povos sofreram as terríveis consequências de, em certo momento, terem divinizado os líderes, obedecendo-lhes cegamente, tornando-se cúmplices dos mais hediondos crimes que eles concebiam e ordenavam. Foi assim na Alemanha de Hitler e no Japão de Hirohito que desencadearam a segunda guerra mundial (1939-1945). Ou em países onde, apesar de se terem realizado profundas revoluções sociais, o poder se tornou autocrático e, em breve, os seus líderes foram deificados: na União Soviética de Estaline e na China de Mao.

Mas, para lá destes exemplos maiores, houve e inúmeros outros casos em todos os continentes, num contraste absoluto com a hodierna difusão mundial das ideias de liberdade dos povos e dos cidadãos e a garantia dos direitos humanos sustentada por instituições internacionais de que todos os países fazem parte, como a ONU, Organização das Nações Unidas.

O que leva os indivíduos ou as massas populacionais a glorificarem até ao endeusamento o chefe ou o poder nele personificado, a tornarem-se subservientes, a submeterem-se cegamente e permitirem o arbitrário e a violência que ele instaura?

Esta é uma questão que inquieta muitos espíritos e tem havido investigadores a procurarem respostas. Através da psicologia social procura-se conhecer os mecanismos que levam a certos comportamentos colectivos. Há obras sobre a manipulação que as elites praticam sobre as populações (entre elas “A Violação das Massas pela Propaganda Política“, de Serguei Tchakhotine, e os vários e incontornáveis livros de denúncia de Noam Chomsky). Este conhecimento, se fosse divulgado, poderia servir para os indivíduos e populações melhor se defenderem das manipulações dos poderes, tanto mais que os manipuladores são lestos a estudar e aplicar zelosamente os vários métodos de alienação e manipulação. Veja-se o que se passa com a comunicação social tendenciosa, em geral, a publicidade orientada para fins inconfessados, a propaganda política dirigida ao subliminar onde reside a insegurança e o medo, o lançamento de falsas notícias despudoradamente reproduzidas por órgãos de informação.

A realidade mostra que, nos tempos actuais, continuam a proliferar e a ter êxito indivíduos que sabem aproveitar certos momentos sociais ou políticos para manipularem as populações e fazê-las crer nas suas ideias e práticas religiosas, políticas ou outras. As consequências são as populações submetidas aos interesses desses indivíduos ou grupos de indivíduos, gerando a superstição, a ignorância, o medo, a violência, as carências materiais de toda a ordem, a cega submissão, a falta de liberdade.

Quanto ao poder político, especificamente, recordemos que ele é global, exerce-se sobre todos os indivíduos e território de um país. Por isso, há que estar muito atento. Os cidadãos mais esclarecidos tudo devem fazer para contrariar as veleidades de certos indivíduos explorarem a ignorância das populações ou usarem manipulações que os levem ao poder e, no exercício deste, construírem mecanismos de poder pessoal, a depressa degenerarem em deificação da sua pessoa como chefe do país.

Dessacralizar a função de líder e concebê-la como a de servidor do país é uma necessidade dos povos e uma tarefa a realizar, tanto mais que estamos no século XXI, onde, para defender os interesses dos cidadãos, há princípios universais de liberdade estabelecidos; instrumentos políticos, jurídicos e institucionais de funcionamento democrático dos estados; instituições internacionais de garantia de direitos e liberdades. 

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