Larama, Laramistas e a análise realista

“1. Por volta das 18 horas e 30 minutos do dia 14 de fevereiro do corrente ano, foi internado no Estabelecimento Penitenciário Masculino de Viana, na condição de condenado, o cidadão Luís Larama de Gama Andrade, após apresentação de Mandado de Condução à cadeia, emitido pelo Tribunal Municipal de Viana.
2. Referenciar que o cidadão em causa foi condenado a uma pena de 5 meses de prisão efectiva, resultante da conversão da multa em prisão. Por ter cometido o crime de danos com culpa grave”.
São extratos de um comunicado de imprensa dos Serviços Penitenciários do Ministério do Interior divulgado no passado dia 16, pelo seu Gabinete de Comunicação Institucional e Imprensa. poderia ter sido mais um simples comunicado não fosse a identidade do sujeito em causa: Luis Larama de Gama Andrade. Sim, o tal Larama que venceu a primeira edição do Big Brother Angola. Surpreendente, pois poucos são aqueles que ousavam imaginar que, Luís Larama, o jovem que quase foi elevado à categoria de Herói Nacional ou “símbolo da juventude angolana” em Julho de 2014, estaria hoje, passados quase quatro anos preso pelo crime de “danos com culpa grave”.
Num dia de África, precisamente no dia 25 de maio de 2014, Angola e os angolanos assistiam a emissão da primeira edição do Big Brother Angola que durou até ao dia 27 de julho do mesmo ano. Larama foi o grande vencedor de um prémio no valor de 100 mil dólares. Foi recebido em Luanda como um verdadeiro herói,  tendo direito a banhos de multidão na recepção no aeroporto internacional 4 de fevereiro. Houve também uma passeata por várias artérias da cidade com direito a escolta policial e uma cobertura mediática. O país parou naquele dia para ver chegar Larama. O homem e as suas façanhas eram os principais temas de conversa nos lares, escritórios, bares, barbearias e salões de beleza no nosso país. Larama conseguiu mesmo ter uma forte base de apoio que começou nas redes sociais e que adoptou o sugestivo nome de: Laramistas.
Os Laramistas eram os admiradores, apoiantes e seguidores do Larama no Big Brother Angola. Tinham a “espinhosa” missão de divulgar e fazer reports diários da actividade do seu “líder”. Estavam vigilantes a todo e qualquer comentário, análise ou critica desfavorável ao Larama. Era preciso defender e exaltar aqueles que para eles era uma espécie de “aescolha da nova geração.”Encontros e grupos virtuais, almoços de apoio, camisolas, partilha de fotos, divulgação de expressões mais frequentes do homem. E até um corrente de pensamento criaram: o Laramismo.
No fundo, o Laramismo que era suportado pelos Laramistas, era um paradoxo: era uma caixa vazia mas cheia de “ismos”, que perante este “Sismo” de nome Larama e o fanatismo, populismo, exibicionismo, diversionismo, alarmismo, acreditou e fez acreditar que estávamos perante um modelo a seguir, um modelo a ser exaltado ou mesmo idolatrado. Tudo isso com uma “ajudinha” da DSTV/ Multichoice, que dando conta da histeria popular e do fenómeno criado nada mais vez só que alia entrar a coisa. Estávamos nas guerras de audiência e captação de patrocínios. Luís Larama tinha de um lado, os seus Laramistas m que do dia para a noite o tornaram num ídolo e emblemática figura nacional. Por outro lado, a DSTV que via nele um bom “produto” para fazer subir audiências e aumentar receitas.
Dentro da casa, Larama não representou. Foi autêntico, foi ele mesmo, não vestindo capas e nem assumindo máscaras. O público percebeu, votou e Larama ganhou. Mas o mundo que deixou antes daquele 25 de maio de 2014 era diferente. Fechado quase 70 dias numa casa, na África do Sul, Larama não se tinha dado conta do fenómeno que se desenrolava na sua terra natal. E uma vez cá fora tinha de deixar de ser ele próprio. Tinha de deixar de ser autêntico, tinha de obedecer certas regras inerentes ao novo status de “figura pública”  e de “Alegria do Povo”. Já não podia dizer o que queria, como queria, onde queria e com quem queria. Agora tinha de obedecer uma agenda imposta pela organização que passava por presenças em vários eventos sociais. Os 100 mil dólares não seriam entregues assim de mão beijada. Cá fora, o jogo era outro e implicava a perda de privacidade, conflitos exteriores. Era preciso lidar com um sucesso estratosférico criado em menos de 70 dias e que iria abalar toda uma vida. Estava a acontecer com Larama aquilo que o português Zé Maria havia vivido 14 anos antes. Recordemos a história.
Rapaz humilde e pacato, de Barrancos. Zé Maria saiu de casa  com uma casaco de veludo, calções e lacinho encarnado, e ganhou na noite do dia 31 de dezembro, levou para casa, à época, 20 mil contos (100 mil euros) e um automóvel. Desde aquele dia, a vida de Zé deu muitas voltas. Saiu vencedor, montou negócios que falharam, não fez poupanças e chegou a estar internado numa clínica psiquiátrica, em estado depressivo, depois de ameaçado suicidar-se, saindo à rua com dois gatos ao colo, apenas uma toalha á cintura. Voltou à sua terra, fugindo da pressão e dos olhares de Lisboa. Encontrou paz e acolhimento em Barrancos, sua terra natal e com ajuda do pai, construiu uma pequena casa. Não quer nada com exposições mediática.
No dia que se fazia o anúncio em Angola da prisão de Luís Larama, aqui em Portugal era notícia, o facto de Zé Maria, todos os dia atravessar a fronteira para Espanha para trabalhar numa fábrica de peças de joalharia. Percorre cerca de 100 quilómetros diários entre ir e vir do trabalho.
Zé Maria no auge da popularidade chegou a ser comparado em termos de imagem a Herman José.
Tanto em Zé Maria como em Luís Larama, o salto do anonimato para a fama e desta de volta para o anonimato foi de uma enorme violência. Programas como o Big Brother fazem de gente normal famosos instantâneos e, como tantas vezes acontece, a benção revela-se maldição. Com Luís Larama foi ver um verdadeiro farrapo humano. Tornaram-se públicos e evidentes os problemas com o álcool. Foi divulgado um vídeo numa actividade na Centralidade do Kilamba, onde o ídolo das multidões, completamente embriagado, era vaiado e expulso pelo público. O mesmo público que anos antes o havia recebido de braços abertos e como um herói nacional. O mesmo público olhava para ele com desprezo e o adjectivava. A sua passagem pelo reality show “A Quinta”, da TVI, também não ajudou. A imagem de um homem arruaceiro, conflituoso, preguiçoso e amante do álcool não agradou o público português que se encarregou de votar em massa para a sua saída da casa. De regresso ao país, as notícias eram sempre negativas e as imagens eram sempre de um homem vencido pelo álcool, desprezo e sem perspectivas de vida.
Se no caso de Zé Maria, o seu povo soube compreender, respeitar o momento e até fazer parte da soluçava. Mas, para Luís Larama, a postura do seu povo só contribuiu mais ainda para o afundamento. Sem o apoio dos Laramistas, Larama ficou “sem banda”, sem apoio psicológico e moral, a “Alegria do Povo” veio revelar uma das maiores tristezas nacionais. Os Laramistas comentaram um verdadeiro crime de lesa pátria ao tentarem transformar Larama num herói nacional, num país onde não há heróis vivos e, e os que são declarados heróis nacionais passam pelo crivo partidário e são declarados por decretos. Não pode nunca ser por vontade e ousadia popular. A voz do povo nem sempre é a voz de Deus. Hoje preso e com tempo para reflectir mais e beber menos, Larama percebe que aquilo que sempre cantou aconteceu finalmente: ” Quando a Justiça chegar, ninguém vai se meter. Ninguém vai se meter…” Tinha razão Larama. A Justiça chegou até ele e ninguém quer “se meter”. Nem mesmo os Laramistas. Já agora: Onde andam os Laramistas?

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