A democracia em movimento 

Partir é muitas vezes o melhor caminho caminho para atingir a plenitude. Partir é seguir em frente, deixar para trás hábitos e pessoas que muitas vezes não acrescentam valor e qualidade às nossas vidas. Partir para uma viagem em que levamos sonhos, desafios e objectivos na nossa bagagem. A vida é um verdadeiro processo de mudanças. É uma união de várias etapas com fase e desafios permanentes. É como aquela viagem diária do Metro.

Considero o Metro como o meio de transporte mais democrático do mundo. Nele há níveis ou classes. Todos viajam ao lado uns dos outros. É democrático porque o médico, o professor universitário, o dirigente político, o advogado, a empregada de limpeza, o trabalhador da construção civil ,o médico, o estudante, o artista, o desempregado estão todos ao mesmo nível e passagem todos a condição única de passageiros. Todos juntos e misturados. Todos numa viagem com destinos e propósitos diferentes. Uma viagem livre, mas nem sempre leve e solta. Com alguns apertos e solavancos mas sempre democrática. Uma viagem no Metro é a verdadeira democracia em movimento.

É uma viagem no presente que nos coloca muitas vezes entre um passado falsificado é um futuro cego em que não nos vemos . Estamos presentes perante um presente que não nos deixa estar presentes . Parece um paradoxo, pois estamos todos ali no Metro mas não estamos, porque o nosso pensamento, sentimentos e ideias não estão lá . É como olhar a história da nossas vidas por uma janela que não nos pertence e onde cada paragem revela um destino diferente.

É uma viagem mundana, sem títulos e privilégios . Uma viagem em que deambulamos pela extensa paisagem de olhares e de rostos, porque neste caso, viajar implica sempre uma dupla deslocação. Uma viagem entre a fé e a descrença, entre a obediência e a rebeldia, entre o ser e o não ser , entre ser Revú e Bajú. Uma viagem reveladora e esclarecedora. Uma viagem em que no olhar da juventude, descobrimos um facto interessante: Muita da violência do nosso presente resulta desta exclusão de um tempo que é nosso e de que somos excluídos .

Uma viagem em que andamos em busca de um futuro porque nos faz falta um passado. Viajamos em busca de uma identidade ilusória que pode estar no futuro. Uma errância cigana, como um refugiado condenado a ser náufrago numa praia qualquer no Velho Continente. O passado que não nos pertence serve apenas para justificar privilégios e legitimar ordens sociais vigentes. Como adoramos símbolos e realidades simbólicas, fomos herdando esses símbolos da permanência ao passado. O presente vai adiando aquilo que o passado dizia que o futuro nos reservava : a criação do homem novo .

Seguimos viagem nesta democracia em movimento que tem lugar bem no subsolo, para fugirmos de um submundo que nos rodeia . Uma democracia em movimento que nos faz olhar , seleccionar as paisagens e paragens . Uma viagem que acontece num presente que já não nos pertence, vindos de  um passado que nunca foi nosso, rumo a um futuro que envelheceu antes de nascer.

Uma viagem de seres plurais e imprevisíveis. Uma viagem em democracia, num movimento sem controle. Uma viagem que nos coloca numa verdadeira crise existencial, pois já não somos aquilo que fomos . E não sei se um dia seremos aquilo que hoje queremos.

Enquanto isso, o Metro em que estou segue a sua marcha. Sem títulos e classes. E agora aqui no Metro, descobro que a faxineira é a namorada do advogado , que o ajudante de cozinha é noivo da economista e que o famoso actor de novelas foi aluno do professor universitário. É uma verdadeira democracia de afectos e sentimentos. É a … Democracia em movimento.

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