A Diplomacia do Panda

A igualdade não é ou está numa farda, num uniforme ou num fato de um executivo, mas no equilíbrio de condições de vida e de oportunidades. Bem ao jeito da fórmula estipulada por Arquimedes acompanhada do grito Eureka: na igualdade entre a impulsão sofrida por um corpo e o peso do volume do líquido deslocado. É a igualdade que gera as liberdades, que gera a coesão social e também as dinâmicas que sustentam o crescimento económico.
“Todos são iguais perante a lei”, igualdade no acesso ao sistema de justiça, igualdade de oportunidades de negócio, igualdade no acesso ao ensino e saúde, igualdade no tratamento da liberdade religiosa, igualdade na avaliação da opção política de cada cidadão entre outras. Não é possível desenvolver uma sociedade onde impera a desigualdade, onde há sempre uns “mais iguais” do que outros e que procuram dominar outros. A verdade é que os conceitos dominantes têm prazos de validade insondáveis, quer porque os grupos dominantes têm interesse em mantê-los para disfarçar ou legitimar melhor a sua dominação.
A afirmação da coerência começa a ser entre nós um importante desafio para políticos, governantes e gestores públicos, bem como uma exigência da própria sociedade. A coerência no exercício de cargos públicos ou políticos entre nós é ( ou era) visto como algo estranho à condição humana, mesmo sendo a coerência das mais aclamadas e esperadas virtudes em política ou na vida pública. Ela ultrapassa toda e qualquer arrogância ou postura de superioridade moral, é importante que haja coerência entre aquilo que se defende em público e o que se faz em privado. O escrutínio dos detentores de cargos públicos é imprescindível em democracia e ninguém está imune a ele. Os políticos, o detentores de cargos públicos são alvo da atenção e do interesse do público. Há razões e também especificidades desta atenção. No caso das figuras públicas ligavas às artes, espectáculo, moda, desporto, comunicação social, o escrutínio público é “consentido”, por vezes até incentivado e estimulado pelas próprias em busca de notoriedade e protagonismo. No caso de quem está ligado à vida política ou cargos públicos raramente o faz.
Hoje em Angola, a esfera pública destes políticos, governantes e detentores de cargos públicos cresceu e foi absorvida pelo chamado palco virtual com as novas tecnologias de comunicação e redes sociais a escrutinarem as pessoas. As tais TIC’s vão criando nas pessoas tiques e truques de Sherlock Holmes, Hércules Poirot ou Miss Marple. Todos têm direita à opinião formada, tudo e todos se julga, tudo e todos se condena. A condenação ou juízos destes “juizes virtuais” que muitas vez nem rosto têm (fazem-no com textos anónimos ou através de figuras anónimas criadas para o efeito), é devastadora, brutal e sem sentido de justiça. Há um novo espírito inquisitivo por parte deste público que tudo vê, tudo partilha, tudo comenta e questiona, que tudo julga e condena. Que transforma o princípio da presunção de inocência em principio da “presunção de culpa”, ou seja : todos são culpados até prova em contrário. Há um certo desmontar de fronteiras entre a vida social pública inerente às funções que desempenham as pessoas ligadas à política ou em cargos de gestão pública, e a vida privada a que, como cidadãos têm direito.
Um estudo da agência Zenith realizado em 63 países prevê que o número de horas passadas a ver televisão seja ultrapassado pelas horas da Internet já em 2019. Sabe-se que em 2011 as últimas correspondiam apenas a 5% do consumo da media global. Na verdade a Internet ganha terreno em cada ano que passa a todas as outras plataformas de comunicação. Neste momento, a televisão ainda ganha com 173 minutos diários à Internet, que atinge os 160 minutos diários. Estudos prevêem que em 2020 terá já atingido consumos da ordem dos 180 minutos diários contra 168 minutos diários da televisão . Hoje muita da chamada pressão social começa de forma virtual nas redes sociais. A imprensa tradicional e dominante ( mainstream) acaba muitas vezes por ser condicionada a uma agenda que as redes sociais vão marcando diariamente. O caso do antigo Comandante-Geral da Polícia Nacional, Alfredo Mingas “Panda”, é um exemplo de algo que se formou público e viral pelas filmagens, longas conversas e acesos debates nestas mesmas redes sociais, passando depois para o plano da chamada “grande imprensa”. Acabou sendo criada uma verdadeira “novela” mediática capaz de tirar audiências até mesmo as telenovelas brasileiras ou mexicanas. Uma “novela” com vários interesses e versões, com informação e contra-informações, com opiniões divergentes e convergentes, se Panda estava acompanhado, se estava a conduzir sob efeitos de álcool, se estava em excesso de velocidade, tudo isso num cenário que teve a morte trágica de dois jovens. Uma “novela” mediática que teve um final (ou se quiserem uma pausa) com dois factos quase em simultâneo. Dois factos ou momentos que acabam por revelar a coerência de Panda tanto como cidadão e como servidor público. Dois factos que revelam a sua elevação, respeito e dignidade enquanto homem e líder de uma importante corporação como a Polícia Nacional. O pedido de afastamento do cargo de Comandante -Geral da Polícia Nacional que o faz por coerência e por respeito a uma instituição que sempre serviu e honrou mas que não podia ser “arrastada” em termos de prestígio, honra, imagem e bom nome em todos este processo. E depois de exonerado (a seu pedido), há o pedido de desculpas que faz aos cidadãos por “eventuais erros ou falhas que tenha cometido fora ou no exercício das suas funções” . São dois momentos que acabam naquilo a que chamo a Diplomacia do Panda. Alfredo Mingas “Panda” soube ser coerente, humilde e até usar diplomacia não só ao longo de todo este processo mas até na hora da saída. Soube sair de cabeça erguida, soube sair como pessoa respeitada e respeitadora.
O fascínio pelos Pandas é universal e a China tem sabido usar com mestria e simpatia em termos diplomáticos. A prática recua até à dinastia Tang, quando a imperatriz Wu Zetian mandou um casal ao imperador do Japão, no século VII. Mas nos tempos modernos Mao Tsé-tung perpetuou a tradição. Entre 1958 e 1982, Pequim ofereceu 23 pandas a nove países. Os mais famosos foram certamente Ling-Ling e Hsing-Hsing, os ursinhos oferecidos aos Estados Unidos após a visita à China de Richard Nixon em 1972. Na verdade, quase todos os pandas em jardins zoológicos pelo mundo são “emprestados”, mantendo-se propriedade da China. Taiwan, em 2008, também recebeu dois, num momento de aproximação entre a China e a ilha que vê como província rebelde. Na Itália há um modelo da Fiat que tem o nome de este nome, o Fiat Panda. Em Angola não temos jardins zoológicos e embora sejamos um dos maiores parceiros da China em África ainda não houve ofertas de pandas. Mas temos em Angola dois kuduristas que usam panda como nome artístico : Panda da Lei e também Rei Panda “O Papoite”, além de que há um canal infantil português com o nome de Panda e muito assistido pelas crianças. Tudo isso para passar uma ideia de como o nome deste animal preto e branco acaba por ter um forte papel até no campo da diplomacia.
Não sei quais terão sido as razões para Eduardo Mingas passasse  a usar o cognome de Panda, mas a verdade é que guardo na memória aquele simpático, humilde e respeitoso diplomata angolano que nas vestes de embaixador Extraordinário e Plenipotenciário de Angola em São Tomé e Principe , em Agosto de 2014, recebeu-me em audiência, com toda a gentileza, respeito e simpatia. Que numa altura em que lá estive na promoção e divulgação do meu primeiro livro de entrevistas, o então Embaixador Panda destacou o seu adido cultural, Tonito Fortunato para prestar-me “todo o apoio, cooperação e colaboração” . Ao longo dos dez dias que lá estive e do contacto com ele, há uma qualidade sua que ficou marcada em mim : a coerência.
A coerência entre aquilo que se faz e aquilo que se defende é um valor único. Fico feliz passados em ver que depois de quatro anos, Panda ainda mantém valores que fizeram com que tivesse da minha parte este respeito e admiração. Mantém a coerência nas palavras, actos e atitudes. É um verdadeiro diplomata. E com este dois “pedidos” conseguiu deixar aqui uma Diplomacia do Panda. Não necessariamente a que os chineses fazem com os seus pandas, mas a diplomacia do nosso Panda. Certamente, agora afastado dos holofotes da imprensa e da pressão social, Panda terá mais tempo para si e para os seus. Terá tempo para a escrita, pois em 2014 me tinha dito que haviam ali umas notas soltas para “arrumar” em livro. Ou então que volte para a diplomacia, pois bem que faz falta à nossa diplomacia uma certa ….Diplomacia do Panda.
Um abraço e boa vivências, amigo Panda.
Obs.: A devassa da vida privada pode também ela, afinal, ter um efeito perverso para a própria democracia : o de afastar pessoas sérias e válidas da vida pública, para proteger a sua privacidade e os seus.

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