A feira do desespero

Fenómenos novos colocam desafios novos. Há hoje uma nova forma de presença nas redes sociais. Há uma emergência de fenómenos de populismo e outros de mobilização de massas. A questão dos 500 mil empregos, promessa eleitoral que João Lourenço herdou do antecessor José Eduardo dos Santos, que está no seu programa de governação e que tem sido uma das suas bandeiras. É que a fronteira entre a metáfora e a realidade é ténue. A realidade hoje não é muito animadora, a crise ecónomica, os cortes orçamentais, o fecho e a falência das empresas, os despedimentos, o desemprego galopante (já anda em torno dos 28%) não ajudam muito e vão tornando cada vez mais utópica e falaciosa a promessa de 500 mil empregos até 2022. 

Porque se nega a realidade e os factos? A negação funciona como uma espécie de mecanismo de defesa contra factos demasiados dolorosos de aceitar e suportar e acabamos sendo uma sociedade  de negação. Negamos os factos e as realidades pelas dificuldades que temos em os assumir. Discutir factos, programas e opiniões ainda parece ser uma afronta.

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A Feira do Emprego, organizada de forma tão espontânea, acabou por ser uma forma atabalhoada e muito mal estruturada de dar resposta a uma manifestação que jovens organizaram em Luanda para exigir mais empregos. Foi a tentativa de mostrar que há alternativas e só provou que a emenda foi pior que o soneto. Foi a tal confusão que se viu nos vídeos e fotos partilhados nas redes sociais. Desorganização total, longas filas, corridas, atropelos e desmaios, até com CVs espalhados pelo chão. O indivíduo não conta, só as estruturas interessam, onde o triunfo de alguns se faz à custa do sacrifício e da ignorância de outros.

A notícia da exoneração da secretária de Estado da Juventude anunciada nesta terça-feira, dia 10, pela Casa Civil do Presidente da República e “amplamente divulgado” pela comunicação social, quando afinal em Diário da República de 23 de Agosto já havia sido publicado a sua exoneração e nomeação do seu substituto. Qual é a necessidade de, quase 20 dias depois, estar a anunciar a sua exoneração? Só pode ser a de passar a ideia de que, perante a trapalhada que foi a feira do emprego, era preciso mostrar que “medidas enérgicas” foram tomadas por quem de direito. E até na comunicação social existem divergências em torno da data de exoneração da governante, num debate que já ganhou palco nas redes sociais. A feira do emprego foi na realidade uma feira do desespero, pois veio revelar o desespero que grassa em quem por todos os meios possíveis e imaginários procura organizar recrutamentos massivos e também o desespero de uma população que procura um emprego que lhe dê dignidade, que lhe traga o pão de cada dia.

Esta coisa dos 500 mil empregos é uma ferida maltratada que João Lourenço herda da governação de José Eduardo dos Santos e que agora vai carregar até 2022, mesmo sabendo que está condenado a não atingir os objectivos. Estamos na mesma, mas em versão agravada, pois as feridas maltratadas, já se sabe, evoluem para gangrenas. Entretanto as ideias, sejam elas avulsas, populistas e concertadas, visando os 500 mil empregos para todos até ano 2022 continuam. Ainda hoje li sobre uma feira de emprego que será organizada na Marginal de Luanda em finais de Setembro. E por aí vão surgindo ideias e iniciativas. Como disse George Bernard Shaw: “As ideias são como as pulgas; saltam de uns para outros, mas não picam todos.”

1 comments

Este problema é profundo e talvez o que mais dificilmente será resolvido na sociedade angolana.

A criação de emprego não é feita por decreto. Ela acontece quando a economia cresce e para isso é necessário haver investimento.

Investir em Angola é fácil. Constituir uma empresa faz-se sem problemas e os diversos organismos funcionam bem. Eu abri uma em pouco tempo e sem qualquer ajuda.

O problema começa quando necessitamos de divisas para importar equipamentos e matéria prima. Aí começam as dificuldades e se necessitamos de crédito então o melhor é esquecer.

Depois vem o tema em apreço. A falta de quadros verdadeiramente qualificados. A qualidade dos jovens licenciados e mestrados e baixa. Há um profundo desajustamento entre os cursos ministrados e as reais necessidades do país.

Angola precisa de dar o salto em frente. Necessita de técnicos e pessoas formadas na área das ciências exactas. Há poucos engenheiros e muitos gestores de marketing e recursos humanos já para não falar de gestão de empresas e gestão comercial. Temos muitos gestores sem nada para gerir.

Para isso é fundamental traçar uma linha de desenvolvimento, chamar investidores e universidades e em conjunto começar a preparar a nova Angola, com mais emprego, melhores condições sociais e isso só se consegue com trabalhadores qualificados e empenhados nas suas funções.

Sem isto os nossos jovens vão continuar a procurar empregos que infelizmente não existem.

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