A guerra entre o clã Santos e João Lourenco

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O agudo conflito entre o clã “dos Santos” e o Executivo angolano tomou os palcos da comunicação social e veio mostrar quanto é grave e profundo.

Isabel dos Santos (IS) tem-se desdobrado em sucessivas entrevistas a órgãos de comunicação social internacionais e intensificou essa actividade nos primeiros dias de Janeiro do novo ano para contestar as decisões do tribunal de Luanda que ordenou o arresto dos seus bens em Angola.

Ao Jornal de Negócios, afirmou que a decisão da justiça angolana visava a sua família e tinha motivação política; segundo ela, esta acção procura “mascarar o fracasso” da política económica de João Lourenço.

Noutra entrevista, à Reuters, Isabel dos Santos disse que o Executivo angolano faz dela “bode expiatório” e realiza uma “caça às bruxas” para diminuir a influência do seu pai.

Mais recentemente foi entrevistada pela RTP, a televisão oficial portuguesa. Uma entrevista que provocou ondas de choque. Isabel dos Santos negou várias acusações do tribunal de Luanda que justificam o arresto dos seus bens e procurou não responder directamente às questões do entrevistador, antes fez longos históricos e contextualizações que desviavam a atenção do telespectador sobre as questões postas. Apresentou a sua versão, aliás elaborada, de como se construiu como empresária de relevo, «olvidando» relatar quanto usufruiu das «facilidades» acordadas pelo seu pai, como presidente da República. Por outro lado, pintou uma gloriosa imagem de José Eduardo dos Santos (JES).

De salientar o cerrado ataque que fez a Manuel Vicente (MV), o delfim nomeado há anos pelo seu pai e que foi cúmplice de JES em negócios de Estado e negócios privados (é a reacção ao facto de MV se ter passado para o lado de João Lourenço).

Mais uma vez Isabel dos Santos se apresentou como vítima de um processo político, afirmando: Não podemos utilizar a corrupção, ou a luta contra a corrupção, ou a suposta luta contra a corrupção, de forma selectiva para poder neutralizar o que nós achamos que podem ser futuros candidatos políticos. (…) O que se está a fazer hoje em Angola são processos políticos. São processos selectivos, que têm a ver a ver com a luta de poder no MPLA”.

Quando o jornalista lhe perguntou se estava disponível para concorrer à presidência de Angola, respondeu: “Farei tudo o que terei de fazer para defender e prestar os serviços à minha terra, ao meu país.”

Atenção a esta posição de Isabel dos Santos! Na minha opinião, a anunciada disponibilidade de se candidatar à presidência de Angola não é fortuita, ela é bem intencional. Insere-se numa vasta operação multiforme de contra-ataque a João Lourenço, visando sobretudo encorajar e mobilizar os adeptos de JES no seio do MPLA e do País, ao mesmo tempo criando destabilização nas hostes do “maioritário”, da governação e da sociedade civil. Tanto mais que a situação económica e social em Angola é muito precária, geradora de muitos e variados descontentamentos.

Neste contra-ataque, inserem-se as recentes iniciativas de José Eduardo dos Santos. Uma foi a sua mensagem de Ano Novo aos cidadãos angolanos. A outra é noticiada num site, o Club-k.net, onde se afirma que o antigo Presidente fez chegar uma carta aberta aos responsáveis de órgãos de soberania, nomeadamente a Assembleia Nacional e Tribunais na qual se defende de acusações que lhe seriam ultimamente imputadas. O general Leopoldino Fragoso do Nascimento, que regressou de Barcelona a Luanda, teria sido o portador dessa carta.

Segundo o Club-K: “JES aborda tema sobre a comercialização de petróleos pela Sonangol nos últimos 10 anos, na qual imputa responsabilidades ao seu antigo colaborador Manuel Domingos Vicente, que durante 13 anos fora o PCA da petrolífera estatal. JES faz também uma incursão sobre a indústria diamantífera que tem sido apresentada pelas autoridades como tendo estado num cenário até então refém dos interesses empresariais da sua família com realce a sua primogénita Isabel José dos Santos”.

Por outro lado, causou enorme impacto na opinião pública a divulgação do dossier “Luanda-leaks” pela estação portuguesa de televisão, SIC, neste passado domingo, apenas quatro dias depois da entrevista a IS feita pela RTP. A longa e circunstanciada peça televisiva da SIC descreve as nebulosas ligações entre empresas de Isabel dos Santos e como receberam vultuosos financiamentos do erário público angolano, directa ou indirectamente.

Os factos que citei e outros sinais levam a concluir que estamos perante uma guerra aberta e sem quartel entre João Lourenço e o clã “dos Santos” e seus apaniguados. É um profundo conflito que se desenvolve em vários terrenos e em vários planos. O seu desfecho será muito ponderoso no futuro do país.

Este grave conflito político e o seu desenrolar não podem deixar indiferentes os angolanos, em geral, e particularmente os de maior consciência cívica e política. Implica escolhas que podem ter papel decisivo na evolução do País. O momento é de reflexão para agir com discernimento e eficácia cívica e política.

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