A nova raça (mestiça)

kalola Store

Desde os seus primórdios seculos, o mundo anotou a existência de mais de uma raça, na altura, falava-se apenas em duas, a raça branca e a negra, sendo que, os brancos eram todos aqueles provenientes dos solos europeus e o grupo dos negros acomodava negros genuínos, índios, árabes, asiáticos e claro…os mestiços. No entanto, os séculos se fariam consumidos, com isto, emergiriam mudanças, os brancos continuariam a ser os mesmos, mas o grupo negro sofreria alterações. Desta forma, os índios, árabes e asiáticos deixariam de fazer parte daquele grupo para inaugurar seus próprios grupos raciais; amarelos, vermelhos, árabes, passariam a ser suas designações. Os mestiços, permaneceram no grupo ou categoria negra, e lá estão até hoje.  

Foi em setembro, me encontrava em Berna, a acolhedora capital da confederação Suíça, quando tomei nota da existência de um movimento mestiço americano, denominado “The New Colored People (TNCP)”, que na língua de Camões chamar-se-ia “As Novas Pessoas de Cor”. Este grupo afirma que, devido o aumento dramático no número de pessoas nascidas de relações inter-raciais, terá chegado a altura de os mestiços recusarem ser arrumados em categorias ou grupos raciais preexistentes. Uma vez que, as pessoas, chamam eles , de raça mestiça não são pretas, a pele não é suficientemente escura, os cabelos não são suficientemente sujos (termo usado pelo TNCP). Isto posto, mestiços não devem “contar” como negros. O Movimento afirma ainda que, os mestiços foram introduzidos no grupo ou categoria negra para os tornar invisíveis e mais fácil de dominar. Por isso, o TNCP, tem estado agressivamente a desenvolver lobbies para que a categoria multirracial seja adicionada às classificações raciais oficiais. 

Imbuído da importância de que se reveste o assunto, resolvi aprofundar-me nele e descobri que, tal assunto não é assim tão recente em solos Yankees. Tive acesso ao documentário, supostamente, patrocinado pelo TNCP, intitulo “Light Girls” “Meninas Mestiças”. O Light Girls ilustra as diferenças entre mestiços e negros genuínos, ele começa por fazer uma incursão histórica, onde demostra, os privilégios reservados aos mestiços na era colonial. Privilégios estes que, segundo os interlocutores, terão provocado uma clivagem, uma divisão no seio da comunidade negra que, infelizmente, foi se alastrando com o passar do tempo. Nem mesmo o fim da escravatura apagou o mal. Os interlocutores, todos mestiços (homens e mulheres), narram momentos em que foram descriminados por pessoas negras de pele escura, tudo para justificar que, negros e mestiços pertencem a distintas raças.  

Para um julgamento prudente, recorremos a definição da pessoa mestiça. O dicionário da língua portuguesa, define o mestiço como a pessoa que descende de pais de raças ou etnias diferentes. Esta definição está condenada por sua insuficiência. Pois que, experts como Erik Erikson e Charles Horton Cooley, afirmam que, mestiço não é apenas o descende de “pais” de raças e etnias diferentes, mas também, todos aqueles que acarretam no sangue diferentes misturas, desta forma, mesmo aquele cujo o ponto de mistura foi tecido pelos “avós” é considerado mestiço.  

Definidos os termos, encetemos… 

Se confortamos nossa opinião nas definições acima apresentadas, fácil e prematuramente concluiríamos que, os mestiços não são negros, afinal, não podemos chamar a cria (mistura) de um bulldog e um pastor-alemão, nem bulldog, muito menos pastor-alemão. Em termos veterinários esta cria é chamada SDR (Sem Raça Definida). Por isso, compreendemos que, para algumas, poucas, pessoas nascidas de relações inter-raciais ou famílias mistas, pode lhes ser relativamente difícil identificarem-se com o grupo racial em que são automaticamente introduzidas, sobre tudo, se estas pessoas, apegarem-se a’ características físicas que as distinguem dos outros.  

No entanto, penso que, ser negro vai além da aparência, a negritude ultrapassa os traços ou características físicas, ela não tem nada que ver com o tom de pele ou textura do cabelo. Porque, se entendemos que a “identidade” é um produto do nosso meio ambiente, o que inclui não apenas as pessoas com as quais interagimos, mas também, as roupas que usamos, a comida que comemos e a música que escutamos, nos descobriremos mais iguais que diferentes. Afinal, “somos todos parecidos” quando se trata de comer aquela comida da alma, de abanar o esqueleto a batida do Rap, ou relaxar o espírito através das notas saxófonicas de um expressivo Jazz. 

“Talvez a verdadeira escuridão, então, não resida na cor da pele, na cor dos olhos ou na textura do cabelo, mas no amor ao espírito e à cultura dos nossos antepassados.” 

Biografia
Márcio Roberto, nasceu em Luanda, aos 8 de maio de 1990. É licenciado em Relações Internacionais (Política-cultural). Autor do livro infantojuvenil “Inventores Negros”, reside em Londres, onde também encontra-se a concluir a sua segunda Licenciatura em Gestão de Negócios. É um confesso apaixonado por literatura e saxofones.

Deixe o seu comentário

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Fica a saber como são processados os dados dos comentários.