Uma Jamaica lusitana com costela africana

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O bairro do Vale dos Chícharos, freguesia de Amora, concelho de Seixal, surgiu nos anos 80 do século passado com a progressiva ocupação por muitas famílias oriundas sobretudos dos PALOP, de prédios por concluir na sequência da falência da empresa construtora .

Em 1993, continuaram a chegar mais famílias que foram ocupando, o até então Vale dos Chícharos. Hoje estima-se que residam no agora chamado ” Bairro da Jamaica” cerca de 250 famílias num total de 1.300 pessoas. Estas pessoas vivem em edifícios inacabados, sem condições mínimas de habitabilidade e de segurança, sem saneamento básico, sem solução para ver resolvida a questão do realojamento .

Algumas desinteligências entre o proprietário dos terrenos onde se encontram os edifícios inacabados, a câmara de Seixal e a Secretaria de Estado da Habitação vão contribuindo para adiar a solução para o problema da Jamaica.

O nome oficial do bairro é Vale dos Chícharos mas reza a história que um cidadão angolano, natural de Catete, residia no bairro, era muito popular por aquelas paragens e gostava de pinchar as paredes com a inscrição : Jamaica de Catete. Sendo uma figura muito popular e acarinhada pelos demais moradores, não demorou para que o bairro passasse a ser chamado do Jamaica . Soube que depois de algum tempo o “do” deu lugar ao “da” e hoje é o Bairro da Jamaica .

Ouve-se música de Bob Marley, Peter Tosh e de Jimmy Cliff. Fala-se com da proeza e dos recordes de Usain Bolt. Ouvem – se ” canções de redenção ” mas para recordar a alma e as gentes da sua África que há muito não visitada. Um África cujo passado lhes traz à memória do seu lar, do seu bairro, da sua aldeia ou kimbo. Um presente que para uma realidade que apesar de dura vai sendo suavizada com a promessa de um futuro que tarda em chegar .A Jamaica é para eles, um castelo a ser protegido, a ser defendido , é o seu ultimo reduto .

É uma espécie de fronteira entre aquilo que eles são e o que as circunstâncias da vida os obrigaram a ter. Aquelas casas tortuosas, labirínticas, sem nexo arquitectónico, pouco óbvias e também pouco acolhedoras, são lugares onde nos podemos perder numa aliciante viagem de culturas, de cheiros, saberes e sabores .

Mas também um lugares onde nos podemos encontrar nas memórias, nos detalhes, nos vislumbres ou como que no reflexo de um espelho. Estar na Jamaica é estar na sua terra mas em terra alheia. É como se aquele espaço, aqueles prédios, os diferentes estilos musicais que se vão ouvindo, os cheiros dos pitéus dos vários restaurantes improvisados ou até mesmo das cozinhas dos apartamentos despertam um inabalável desejo de voltar.

É nesta Jamaica lusitana com costela africana, que vou conversando com o Carlitos Janota “Messumbo “, natural de São -Tomé e Príncipe, que ainda se recorda da Quinta Rosa, do Hotel Panorama. Lugares em que actuou na década de 80, enquanto integrante do agrupamento África Negra do célebre vocalista e ” show-man” , João Séria.O Café City do jovem Tróia, também ele de São -Tomé e Principe, é o palco desta interessante conversa. Ainda no ambiente de São -Tomé e Principe, e já vou estando à conversa com três mulheres de Mé -Zochi. Vamos falando da sua terra que bem conheço, contado histórias éditas e também inéditas . O reencontro com o Manuel Tavares e os restantes integrantes Jovens do Hungo é outro dos bons momentos .

A Jamaica é tudo isso e mais alguma coisa . É a memória de uma casa, o desejo de uma casa ou a saudade dela . É uma património histórico e sentimental . É uma património aos mesmo tempo material e imaterial. Jamaica é um lugar de barulhos indecifráveis e de silêncios reveladores, é uma mistura de cores como a Jamaica de Usain Bolt e de Bob Marley. É um espectáculo de vida onde aprendemos a respeitar e valorizar, o distante, o diferente, o divergente. Cada visita nossa é como que iluminar as zonas escuras, dar voz à omissões, questionar aquilo que é proibido questionar, é estar num debate onde não se admitem verdades absolutas.

É nesta Jamaica onde se desmontam as carapaças de ideias pré-concebidas, de preconceito social, de superioridade racial e intelectual, de género ou religião. Sem apologias ou defesa de ideologias. Simples na sua essência mas complexa na sua dimensão e abrangência.Uma Jamaica suave e frenética.Suave como as canções melódicas de Bob Marley e frenética como a velocidade de Usain Bolt. Mas que é uma Jamaica lusitana com costela africana.

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