Adolfo Maria desmistifica data de fundação do MPLA 

O histórico nacionalista angolano Adolfo Maria defende que “o tempo dos mitos e das efabulações históricas já passou”, pelo que entende que é preciso começar a lidar com a verdade tal como ela é , começando por desconstruir a versão oficial sobre a fundação do partido dos camaradas, cuja data oficial foi até aqui conhecida como tendo sido a 10 de Dezembro de 1956.

Reagindo a um artigo publicado por António Venâncio nas redes sociais, intitulado “Rangel, o berço da revolução”, que avança o bairro do Rangel como tendo sido o palco para a criação do MPLA em março de 1960. Adolfo Maria , a residir em Portugal desde 1979, depois de ser expulso de Angola, após três anos a viver na clandestinidade em Luanda foragido da DISA, a então polícia política do regime , refuta a afirmação alegando que “o MPLA não existia nos primeiros meses de 1960″.

De acordo com o nacionalista, que no exílio em Argel e Brazzaville dirigiu a rádio ” Angola Combatente ” e o Departamento de Informação e Propaganda do MPLA, nenhum dos presos de 1959 pertencia ao MPLA, mas sim a diferentes grupos políticos que se tinham formado em Luanda e com diversos nomes.

O regresso de Agostinho Neto a Angola, oriundo de Portugal, em Dezembro daquele ano ( 1959), coincidirá com o desmantelamento de vários grupos de nacionalistas, vítimas da repressão da polícia política portuguesa, a PIDE, conforme testemunho de Adolfo Maria.

“Pouco tempo depois da sua chegada, Agostinho Neto estabelece contactos com vários nacionalistas que tinham escapado da repressão da PIDE e todos eles formam o MINA (Movimento para a Independência Nacional de Angola)” afirma o nacionalista na mesma publicação.

É a criação do MINA, segundo Adolfo Maria, que precipitaria o envio de um mensageiro ao exterior para contactar o grupo que estava em Conacri, composto por Mário Pinto de Andrade, Viriato da Cruz, Lúcio Lara, Eduardo Macedo dos Santos Hugo de Menezes e Matias Miguéis , tidos como fundadores do MPLA, logo a seguir à conferência de Tunes, realizada em Janeiro de 1960.

Manuel Pedro Pacavira, outro histórico nacionalista do MPLA, falecido em setembro de 2016, vai ser o mensageiro, que entra no Congo em contacto com Matias Miguéis e depois Lúcio Lara. Será Pacavira a passar as instruções para que, a partir de então, toda a actividade política em Angola devesse ser feita em nome do MPLA. No entanto, a polícia política colonial decreta a prisão de elementos do MINA, entre eles Agostinho Neto, Joaquim Pinto de Andrade, Kinjinje, Silas, Adriano Sebastião e o próprio Pacavira.

“As prisões ocorreram em Junho de 1960. A PIDE deporta Neto e Joaquim Pinto de Andrade (Cabo Verde e S. Tomé) e envia para campo de concentração em Angola os restantes. Portanto, os nomes que António Venâncio cita no seu texto ‘Rangel – o berço da revolução’ estão certos, mas a reunião no Rangel, de que ele fala, deve ser uma reunião do MINA e não do MPLA, pois este tinha sido acabado de se criar no exterior e passou a ter sede na Guiné – Conacri “, argumenta Adolfo Maria.

O papel de Viriato da Cruz

Ainda de acordo com Adolfo Maria, Viriato da Cruz, que tinha criado em 1955, o Partido Comunista Angolano, e que deixou o país em direcção à Europa em 1957, acompanhado por outros nacionalistas africanos, viria a defender que ” a luta em Angola não devia ser uma luta de classes, como o seu partido comunista propusera, mas uma aliança que reunisse o máximo de sectores da população para o combate contra o colonialismo português”.

“Viriato escreveu isso num papel que terminava com a evocação da necessidade de todos os angolanos se reunirem num amplo movimento popular de libertação para derrotar o colonialismo. Mais tarde, na feroz luta de legitimidades e legitimações entre a UPA e o MPLA, os dirigentes destes inventaram que o Movimento tinha sido criado em 1956 (recordo que Viriato saiu de Angola em finais de 1957) e socorreram- se deste escrito de Viriato para fundamentar a sua argumentação” , afirma Adolfo Maria.

Três factos probatórios

O nacionalista enumera três factos que, em resumo, demonstram , a seu ver, que o MPLA só nasceu em 1960, nomeadamente: “nas prisões de nacionalistas que a PIDE efectuou em 1959, não havia nenhum grupo com esse nome ( nem com o de UPA, diga-se) ; na conferência de Tunes, na Tunísia, promovida pela FLN argelina e Frantz Fanon, realizada em Janeiro de 1960, Holden Roberto não se apresentou como dirigente da UPA nem Viriato da Cruz, Hugo de Menezes , Lúcio Lara e Amílcar Cabral (que ia na mesma delegação) se apresentaram em nome do MPLA”.

Estes nacionalistas , acrescenta Adolfo Maria, apresentar-se-iam na referida conferência na Tunísia em nome do MAC ( Movimento Anticolonialista) , movimento anterior formado em Lisboa.

” Angola precisa de estudo, debate sereno, espírito crítico para se conhecer bem o passado e se poder pensar caminhos do futuro. O tempo dos mitos e das efabulacões históricas já passou. É tempo de se saber lidar com a verdade” , remata o histórico nacionalista, autor de várias obras de reflexão sobre factos da história recente do país e próximo de Agostinho Neto, até romper com a direcção do Presidente e participar na Revolta Activa com Gentil Viana , o que veio a custar- lhe o auto- exílio, devido à perseguição da DISA, e consequente expulsão três anos depois de Angola.

Fonte : Novo Jornal