Afinal é possível fazer NOTÍCIA?

O positivo
O “Termómetro da Imprensa” (TI) registou aspectos curiosos na imprensa angolana na semana 14-19 de Fevereiro de 2018. Para não me chamarem de “pessimista-mor”, embora já esteja habituado a conviver com “rótulos”, desde os tempos remotos na minha passagem prematura no jornalismo angolano, começo com os aspectos positivos. E começo com um olhar ao Jornal de Angola, edição de 16 de Fevereiro. Na secção “Regiões”, e a mim soa a pejorativo – e não deve ser à toa que as designadas “Regiões” estão no “fundo” do jornal (pág. 23) –, o  jornalista Elautério Silipuleni, de Ondjiva, Cunene, escreve uma matéria que me despertou atenção pelo “valor noticioso”.

Faz uma notícia com respeito à regra da pirâmide invertida e de grande interesse público, numa altura em que já se aprovou o Orçamento Geral do Estado (OGE) 2018, com o parente “Educação” mais visto como “enteado” do que filho, para não variar.

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O jornalista escreve – os dois primeiros parágrafos para ilustrar o grande valor noticioso da sua peça – o seguinte: “Um total de 30.599 crianças em idade escolar vão ficar este ano lectivo fora do sistema de ensino na província do Cunene, devido à insuficiência de salas de aula e de professores. A directora provincial da Educação, Ciência e Tecnologia no Cunene, Soraya de Jesus Kalongela, disse ao Jornal de Angola que a província tem um défice de 1.500 professores e de salas de aula.” Isto é que é notícia: mostrar a “contradição” do Executivo. E atenção que os dados são divulgados pela directora provincial da Educação, Ciência e Tecnologia no Cunene.

Portanto, é alguém que nunca vai querer pôr o Executivo em maus lençóis. E o valor noticioso está justamente aí. Quase 31 mil crianças, no Cunene, não vão estudar neste ano, apesar de discursos optimistas do Executivo. Não merece uma reflexão profunda de todos nós? Que futuro se desenha para essas crianças? Bom trabalho do colega Elautério Silipuleni. Merece os parabéns do Termómetro. Aconselho a continuar na mesma senda. E busque também, de outras fontes, de estudos fora da “sombra” do Executivo, números de crianças fora do Ensino no Cunene. E compare-os! Talvez os números revelados pela responsável ainda pequem por defeito. Daria uma boa notícia de Interesse Público!

O negativo
Não percebo a razão objectiva de o Jornal de Angola não fazer manchete (na capa) com uma notícia desta, e tão bem elaborada, até porque é sabido pelos mais atentos que o JA faz muito poucas notícias. Faz mais propagandas para o Executivo do que notícias de facto. Por que não explorou a sua própria matéria para despertar a sociedade e o Executivo, uma missão do jornalista comprometido com a verdade? E é até uma entrevista exclusiva ao Jornal de Angola, pelo que parece. Quase 31 mil crianças fora da escola, neste ano, não é notícia de capa num jornal público sério? Não é manchete? Não constitui matéria de destaque? Aparece na página 23 numa secção com nome pejorativo “Regiões”, onde mais parece “informações breves sem relevância” para cobrir as páginas em branco do jornal? O que vem da “Região” (Cunene) não pode ser manchete? Aconselho a reverem os critérios de escolha das manchetes, com base no que determina as ciências que concorrem para o bom exercício de comunicação social, o que estabelece a Constituição e Lei de Imprensa (Interesse Público), e exorto a “abandonarem” inclinações alheias ao jornalismo, com vista ao aumento de credibilidade do nosso jornal público, pago por todos os angolanos – o povo do Cunene faz parte dos contribuintes do jornal!

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Mais positivo
Outro aspecto positivo foi a escolha da manchete (na capa) do jornal “Economia e Finanças” (um título das Edições Novembro): “Andámos num país do tapa-buraco”, edição n.º 494, de 16 de Fevereiro de 2018, fazendo alusão a uma entrevista feita com o engenheiro civil António Venâncio. Considero uma boa iniciativa do jornalista Xavier António e bom sentido de oportunidade dos gestores do referido jornal. Manchete positiva que mostra à partida o outro lado dos discursos do Executivo, em relação à construção de estradas, e por ser um assunto actual (estradas com pouca durabilidade) e constituir uma boa iniciativa de um serviço público (Interesse Público, consagrado nos artigos 9.º, 10.º e 11.º da Lei de Imprensa – Lei n.º 1/17 de 23 de Janeiro).

Falar do problema da construção e manutenção das estradas, com opinião de um especialista angolano, engenheiro civil, formado na área do tema em análise, num jornal público, é extremamente positivo. O jornal está de parabéns. É algo que não se via, por exemplo, no tempo de José Ribeiro à frente das Edições Novembro. Há aqui uma evolução desse jornal público que merece os meus aplausos.

Mais negativo
No entanto – e agora vem o lado negativo –, a entrevista peca por defeito na sua exploração jornalística. Por um lado, o jornal faz questão de a matar prematuramente. Os títulos não reflectem o espírito da análise do entrevistado, por outro.

Ao folhar o jornal – tendo como ponto de partida o título de chamada –, verifica-se na página 2: opinião do editorial. E uma opinião relacionada com as estradas (o mesmo tema de capa)! O assassinato da manchete começa logo no editorial do próprio jornal. O leitor, à priori, já toma conhecimento da visão pessoal dos responsáveis editoriais sobre um tema que os mesmos escolheram, supostamente, para a capa. Será positivo que o leitor saiba a opinião dos responsáveis do jornal sobre um tema de capa, tendo em conta que se deve mostrar isenção, imparcialidade e objectividade na elaboração das notícias e informações?!

Na pág. 3: palestra sobre “Branqueamento de capitais”. Não vi valor noticioso que justificasse estar nas primeiras páginas. Na pág. 4: “Incremento no investimento salva degradação das estradas”, uma matéria assinada pelo jornalista Adérito Veloso, que mostra declarações do director do Instituto de Estradas de Angola, António Resende,  apontando que as verbas para as estradas neste ano, segundo a dotação orçamental, estão situadas em 151,3 mil milhões de kwanzas para o Ministério da Contrução e Obras Públicas, dos quais mais de 142 mil milhões serão cabimentados para os investimentos. Um responsável a quem se podia questionar as razões objectivas do mau estado e pouca durabilidade das estradas já mostra a sua versão de “salvação” para matar a entrevista de capa do Xavier António? O jornal “salva” a sua pele, antes de o leitor ler o desenvolvimento da entrevista de capa, o que não deixa de ser um “bom” motivo para já não ter de ler nada!

Na pág. 5: “Fundo Rodoviário precisa
de kz 50 mil milhões por ano”.  Outra matéria que ajuda a “assassinar” a entrevista de capa. Na pág. 6: “Ravinas e estado das vias podem isolar região Leste”. É uma notícia que tem mais valor noticioso que todas que a antecederam, tendo em conta a regra da pirâmide invertida. Na pág. 7: “Cunene recupera rede viária para facilitar escoamento da produção agro-pecuária”. Depois de sair de uma verdadeira notícia vem agora elogiar o Executivo?! E ainda não estamos na página da entrevista que faz capa! Na pág. 8: “Governo da Huíla vai acelerar montagem de pontes metálicas”. Não é notícia. É propaganda para o Governo da Huíla. Na pág. 9: “Principais eixos viários do Bié estão degradados”. É notícia. Por que não se destacou na capa? Finalmente, chega a página que dá manchete ao jornal: pág. 10: “Faltou a cultura de manutenção das estradas”. Será que o leitor ainda continua a ler o jornal ou já o usou para limpar vidros?!

Até o leitor chegar à página 10 que abre o jornal “Andámos num país do tapa-buraco” – um título muito sugestivo, com o senão de o verbo, no passado, não representar o espírito crítico do entrevistador, o TI (Termómetro da Imprensa) defende que o verbo devia estar no presente “andamos” –, é “obrigado” a consumir matérias que matam, ab initio, o seu interesse em ler a entrevista de destaque com o engenheiro António Venâncio. O referido jornal ofusca a manchete escolhida por si próprio – não sei se de forma inconsciente ou intencional para baralhar a opinião pública sobre o problema das estradas (?!) – quando, antes de mostrar alegados erros na construção e manutenção das estradas, apontados pelo especialista, prioriza a morte do que deu manchete. Se o leitor já leu que o “Incremento no investimento SALVA degradação das estradas” (pág. 4), por que vai ler mais a página 10 (6 páginas depois) que diz que “And(á)mos num país de tapa-buraco”, se as estradas já estão “SALVAS”?!

Na verdade, não é passado, como o verbo demonstra. É presente e até futuro! Porquê? O jornalista Xavier António pergunta: “Mas, coloca-se sempre a questão de que os nacionais são menos qualificados?”. O entrevistado responde: “Não é verdade. O problema é que nós não somos tidos nem achados nem na entrega de obras nem na fiscalização, sendo que até obras fáceis foram entregues a empresas estrangeiras, por isso é que nós não desenvolvemos um sector nacional de construção civil e engenharia há 42 anos. É triste não termos até hoje (atenção ao hoje!) uma empresa angolana que faz estradas, viadutos ou pedonais. Tudo vamos continuar (chamada de atenção do entrevistado para o “futuro”) a depender do estrangeiro. Se não tivermos uma mentalidade moderna em termos de mobilidade rodoviária, vamos continuar a viver de tapa-buracos enquanto a população cresce (…) Nunca existiu uma política realista e corajosa das estradas em Angola no pós-independência. O que existe são políticas de remendos/tapa-buracos. Tem de haver (está a indicar algo para o futuro) uma nova política rodoviária nacional para os desígnios que o país tem como meta. Estamos a seguir a malha colonial e é uma vergonha.”

Eu pergunto: por que razão o “andámos” (no passado)? E por que na página da aguardada  entrevista aparece outro título com o verbo no passado “FALTOU a cultura de manutenção das estradas”? Já não falta? Já não andamos a tapar buracos? O problema das estradas está resolvido? Se já não falta, se é passado, se é uma página virada, não é notícia. Se não é novidade, não tem interesse jornalístico. Logo, nunca podia ser manchete – pelo menos num jornal sério. Foi uma manchete bem escolhida, mas pecou nos aspectos técnicos que o TI observou aqui.

O “Termómetro da Imprensa” elogia o que estiver bem e critica o que estiver mal. Estaremos juntos na próxima terça-feira para medir mais temperaturas da imprensa angolana! Até lá!

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