Ajustar contas, não!

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Nas vidas de famílias, comunidades, povos, países há momentos de tensão interna que podem resultar em graves situações se não forem geridos com extremo cuidado. Na actual Angola há vários polos de tensão e um deles é resultante da mudança ocorrida na presidência do país.

Cruzam-se diversos factores: receios de gente que julga os seus interesses e privilégios ameaçados agora; ambição de gente pronta a substituir a que rodeava a corte presidencial anterior; esperança de bastantes cidadãos em novas políticas e novas possibilidades; cepticismo de muitos cidadãos quanto ao novo discurso e postura presidencial; voluntarismo político nas facções do partido do poder e na elite dominante que pode ocasionar acções de ajuste de contas. Tudo isto num quadro de permanência de graves problemas sociais no país e de descontentamentos vários atingindo sobretudo as camadas jovens da população.

Quer queiramos, quer não, os actos decisivos para a modificação do poder e governação que tem vigorado em Angola serão realizados por reduzido sector da população, a elite do país. Na minha opinião, esta elite é constituída por vários círculos concêntricos: um primeiro círculo, com gente de fortíssimo poder político e económico, tutelado pelo anterior presidente da república; um segundo círculo, sob tutela do MPLA, partido do poder, e formado por gente de grande poder político, económico e cultural; um terceiro círculo formado pelas diferentes forças da oposição; um outro círculo constituído por entidades diversas desde empresários a profissões liberais, igrejas, associações e ONGs.

Os diversos sectores desta elite possuem meios, instrumentos e capacidades diferentes. Neste momento de transição tudo vão jogar na conquista de espaços de afirmação e de poderes. E já o estão fazendo. Porém, em virtude da cultura de exclusão e hegemonia de que sempre estiveram e estão imbuídos os círculos em torno do poder, a tentação é grande para dirimirem de maneira perigosa querelas antigas ou exacerbações actuais.

Por isso, eu afirmo que é tempo de não se procurar ajustar contas; mesmo se sempre repudiámos a ditadura instaurada com a independência; mesmo se sempre lutámos contra a repressão e pugnámos pelas liberdades de ideias e dos cidadãos e, por isso, sofremos a repressão; mesmo se rejeitámos o que se chama «acumulação primitiva de capital», um selvático processo de saque do estado pela minoria usufruindo o poder, processo começado logo com a Independência. (Sobre esta mistificação da necessária acumulação primitiva do capital para a formação duma burguesia nacional, escreverei em próximas crónicas). Por agora, o apelo: não ao ajuste de contas.

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