Álvaro Sobrinho: “Os accionistas do Banco Económico são uma fraude. Não são accionistas de verdade”

Sopravam ventos de mudança em Angola quando, em Novembro, Álvaro Sobrinho acedeu a falar sobre o fim do Banco Espírito Santo Angola (BESA) no contexto de uma investigação da VISÃO. Frisou que o fazia porque “finalmente” podia falar “sem censura e retaliações”.

A conversa de cinco horas, ocorrida em Janeiro, trouxe tantas revelações que acabou por merecer um espaço próprio. Aos 56 anos, o matemático, que tem sido responsabilizado pela falência do BESA, revolta-se e fala sem medos sobre as pressões, as ameaças e os créditos no banco dos homens do antigo Presidente José Eduardo dos Santos.

Há meses que tento falar consigo. Porque resolveu falar agora?

Finalmente tenho liberdade. Antes não era permitido aos angolanos terem uma expressão mais livre. Não que fossem imediatamente presos, mas se fossem empresários era-lhes impossível prosseguirem a sua actividade. O regime anterior exercia o seu poder de forma autocrática e selectiva. Um conhecido meu citava uma frase engraçada: “Aos inimigos nada; aos amigos, tudo. Aos desconhecidos, aplique-se a lei “. Ali quando se era inimigo era-se nada.

Quando começaram os seus problemas no BESA ?

Em Junho de 2012, Ricardo Salgado chamou-me a Lisboa e disse-me que os accionistas angolanos tinham pedido a minha saída do banco.

“Creio que o BES e os accionistas angolanos tinham agendas próprias, mas também uma agenda comum”

Como explica essa atitude?

Creio que o BES e os accionistas angolanos tinham agendas próprias, mas também uma agenda comum. Eram parceiros no BESA e na área não financeira. Accionistas angolanos ligados ao poder participavam nas empresas do Grupo Espírito Santo (GES). No Luó [ mina de diamantes], o Estado participava com o GES. Na venda da Escom à Sonangol há uma relação entre um grupo privado e um estatal. Começou em 2010 e não correu bem : a Sonangol fez o downpayment e depois não cumpriu. Eram 770 milhões de dólares que trariam muita liquidez ao GES.

Porque refere essa relação Sonangol, BESA, Estado?

Porque se confundiam muito as fronteiras. Em Maio de 2012, acontece a operação Monte Branco. Em Junho, comunicam-me que tenho de sair do BESA. Com o envolvimento de pessoas ligadas ao BES neste processo pergunto-me se não são coincidências a mais. Por outro lado, os processos em Portugal contra angolanos começam em 2011. Não sei se tudo isso não teve influência na minha saída.

Depois foi alvo de ataques violentos?

Acredito que se avizinhava o desmoronar do GES e que importava arranjar culpado. Em Maio de 2012, um mês antes de comunicarem a minha saída da gestão do BESA, comprei 2,5%, a participação de Hélder Bataglia. Se o banco estava falido, conhecendo-o eu como o conhecia, iria investir 64 milhões de dólares? Não faz sentido nenhum.

O que aconteceu depois da sua conversa com Salgado, em 2012 ?

Salgado disse-se muito surpreendido com o pedido dos accionistas angolanos para me afastar da liderança do BESA. Mas como o GES tinha grandes interesses em Angola, não queria afrontar as autoridades angolanas. Encontrou-se um meio-termo. Passei a chairman, cargo que ocupei até Junho de 2013.

“Os créditos dados em Angola não influenciaram a falência do BES em Portugal. O BES não faliu por causa do BESA “

Nunca lhe pediram contas pelos créditos do BESA antes da assembleia- geral de 2013 ?

A história da carteira de crédito do BESA é uma estupidez. Mandar todos os meses o balancete do BESA e a lista dos 20 maiores devedores , que representavam cerca de 80% da carteira de crédito, para o accionista BES, e ouvi-lo dizer que desconhecia a totalidade dos créditos é, no mínimo, bizarro.

Que dados eram enviados exactamente ?

Tudo o que era obrigatório. O BCE esteve no BESA, salvo o erro em 2011, a fazer uma auditoria. A relevância do banco era enorme, e a informação requerida pelos auditores, pelo accionista e pelo regulador do maior accionista era muito exigente. Dizer que o BES não recebia informação necessária para avaliar a situação real do BESA é uma falsidade.

O Banco Nacional de Angola (BNA) não proibia a divulgação dos beneficiários dos créditos?

Não. Faz-se muita confusão com isso. O BNA excluía a divulgação dos nomes dos depositantes, por causa do sigilo bancário. Outra coisa são os clientes do activo, que foram sempre declarados na lista dos 20 maiores devedores. Os créditos dados em Angola não influenciaram a falência do BES em Portugal. O BES não faliu por causa do BESA. O BESA não vendeu papel comercial nos seus balcões. A questão do BESA coloca-se posteriormente, por causa da exposição creditícia que o BES tinha no BESA. O que aconteceu ao BESA não foi uma falência, foi um conjunto de imposições do BNA que alegou imparidades de crédito monstruosas e transferiu o crédito do BES ao BESA, para cobrir essas imparidades. Vamos ser realistas : isto só aconteceu depois da falência do BES, porque até então estava tudo bem. O governador do BNA disse no Parlamento angolano, em 2014, que o risco da carteira de crédito do BESA era igual ao do sistema bancário angolano. Ou omitiu algo no Parlamento, e é gravíssimo, ou isso era verdade e não deixa de ser grave, porque a intervenção no BESA ocorreu poucos meses depois .

“É normal um ministro de Estado e um chefe da Casa Militar do Presidente da República, o assessor mais importante do Presidente, e um ex-primeiro-ministro aparecerem como accionistas de um banco privado? Não, não é”

Quando é convocado para a assembleia de 2013, sabia ao que ia ?

Não, nunca tinha havido uma reunião daquelas. Até esse dia não houve uma em que os accionistas estivessem presentes fisicamente. De repente, aparecem todos. É normal um ministro de Estado e um chefe da Casa Militar do Presidente da República, o assessor mais importante do Presidente, e um ex-primeiro-ministro aparecerem como accionistas de um banco privado? Não, não é. Mas o Dr. Ricardo Salgado foi ao Parlamento falar da concertação que existia com os sócios angolanos. Não eram sócios quaisquer. Eram pessoas do Estado, chefes do Serviço de Inteligência de Angola! Acha que eu podia falar ? Contrapor ? Fazer qualquer coisa que não calar-me?

Já ouvi histórias sobre essa reunião, até que lhe apontaram uma arma.

Isso é falso. Mas, se havia problemas na carteira de crédito, porque só me questionaram três meses após sair do banco? Puseram lá um político a presidente, Paulo Kassoma, que foi primeiro-ministro de Angola, e o Dr. Ricardo [Salgado] disse que ele era brilhante. Há partes que não conseguimos perceber quando se atinge o Princípio de Peter. Quando se diz uma coisa destas, tem de se saber que ele é um PEP [Pessoa Politicamente Exposta]. Nessa reunião estava o ministro de Estado e chefe da Casa Militar, general Kopelipa. Estavam os homens que mandavam no país, e Ricardo Salgado diz que estavam lá os accionistas angolanos. Em Portugal é assim? Isto é uma aberração .

Fale-me dessa assembleia-geral .

Foi uma assembleia intimidatória para validar um acto ilegal, construído e manietado. Forjaram uma acta, puseram o que lhes interessava e omitiram o que não lhes interessava. Interessava-lhes culpar determinada pessoa, fuzilá-la. Tudo o que dizia respeito aos accionistas, aos empréstimos gigantescos que tinham no banco, não saiu em acta.

Entre os devedores do BESA estavam esses accionistas ou empresas desses accionistas?

Eram os maiores [devedores].

Dino, Kopelipa, Manuel Vicente?

E não só. O GES, que era o maior devedor. E as pessoas que mencionou, excepto o engenheiro Manuel Vicente que não estava na reunião e nunca apareceu como accionista. Havia outros ligados ao regime, que eram grandes devedores, e nunca foram tocados. São as mesmas pessoas que pediram para eu sair do banco. Há uma maneira de pedir crédito em Angola : ou põe -se a filha ou põe-se a irmã…

Não os confrontou com esses créditos?

Desmascarei o Salgado com todo o crédito do GES. E desmascarei os accionistas angolanos com todo o crédito deles. Mas isso não apareceu na acta. Acha que podia divulgar isto? Em Portugal tinha o Salgado, que mandava nos primeiros-ministros, em Angola tinha os angolanos, e a minha família estava lá .

Não se manifestou contra a acta ?

Disse que não concordava. De que servia? Eles eram a maioria. Quando se fala de crédito fala-se do Álvaro Sobrinho, mas as pessoas esquecem-se de que Ricardo Salgado assinava pelo BES e ao lado tinha a ESFG e assinava também. Emprestava milhões aqui e recebia ali. E isso não é conflito de interesses?

Sempre se disse que esses créditos do BESA eram para o financiar a si .

Seis mil milhões? Sempre se disse isso com base numa acta forjada. Toda a parte que tive passou sempre pelo BES. Tinha 3,5% ou 4% da ESFG. E tinha mais 17 milhões de euros aplicados na ESFG aqui no BES em Portugal. Ricardo Salgado não pode dizer que não sabia. Sabia , e até pediu para comprar mais. Toda a gente sabia que tinha o Sol e o Jornal i, e tive uma percentagem da Cofina e 6% da Impresa. São empresas cotadas, tive de ter autorização da CMVM. Nunca escondi o meu património.

O BESA acabou, formou-se o Banco Económico. Alguns dos accionistas de um estão no outro.

Pois estão . Disseram que o banco estava falido e hoje são eles próprios os accionistas.

O BES está nos tribunais angolanos a lutar pela ilegalidade da reunião que transformou o BESA em Banco Económico.

O BES põe esta acção queixando-se de não ter participado na operação. E o Novo Banco, por outro lado, é accionista do Banco Económico? Não consigo entender. Temos um banco português que em processo de resolução que vai para tribunal dizer que foi roubado, e outro que aceita entrar numa estrutura accionista fraudulenta.

O BES tinha 55%, o Novo Banco ficou apenas com 9% do capital.

Muito menos do que o BES, e não se preocupou com a perda do controlo accionista do banco.

“Não percebo que o mesmo Estado aceite que o BESA faliu e, ao mesmo tempo, tenha uma participação no Banco Económico, permitindo um golpe como este. O BESA não era devedor do Estado angolano, era credor. Não é compreensível como o Governo português aceita isto”

São entidades jurídicas diferentes.

Mas o Novo Banco existe para defender os clientes. Depois da decisão de se separar o BES em dois, de se arrumar no banco mau a estrutura accionista do BESA e de o banco bom ficar com 9% do ex-BESA, não percebo que o mesmo Estado aceite que o BESA faliu e, ao mesmo tempo, tenha uma participação no Banco Económico, permitindo um golpe como este . O BESA não era devedor do Estado angolano, era credor. Não é compreensível como o Governo português aceita isso.

Terá o Governo português percebido o que aconteceu?

Não sei. O Banco de Portugal percebeu que havia algo estranho naquela garantia. O Estado angolano dá uma garantia por uma dívida gigantesca, e o Banco de Portugal quer saber quem são os beneficiários dos créditos mal dados e que garantias existem . De acordo com informações de que disponho, o BNA não respondeu. Só disse que há imparidades de valor xis. Como é óbvio, o Banco de Portugal queria a lista discriminada. Agora pergunto: havia imparidades, ou o que houve foi um assalto? Isto foi feito com alguma mestria pelo regime de Angola [à data], o Governo daqui não prestou grande atenção.

Se o BESA não estava falido, porquê uma garantia soberana de 5,7 mil milhões de dólares?

Nenhum banco no mundo tem uma carteira de 85% de crédito malparado. Não é possível pensar-se que o BESA e Álvaro Sobrinho conseguiam ludibriar o BES, o Banco de Portugal, o BNA, os accionistas angolanos e o BCE. Depois de eu sair do BESA, Rui Guerra [o CEO seguinte] deu mais de mil milhões de dólares de crédito. Se o banco estava falido, onde foi buscar esse dinheiro? A garantia soberana foi para salvar o BES, não o BESA. Então o BES tinha uma imparidade de 2,3 mil milhões de euros, e o BESA aparece com mais do dobro dessa imparidade? Isto não lembra ao diabo. Se dividir o valor da garantia por dois vai chegar ao montante que permitia salvar o BES. Só que o Banco de Portugal disse : isso não conta para os rácios de solvabilidade. Deixo à imaginação perceber o quão era importante para o GES esta garantia soberana.

Foi uma decisão correcta por parte do Banco de Portugal?

Não discuto isso, não sei. O que aconteceu foi que o BCE interveio. Tomou uma decisão, e o Banco de Portugal teve de agir, ou o BCE cortava a liquidez. Houve mais algum teste igual na Europa?

O que aconteceu em Outubro de 2014, quando se resolveu o BESA?

Acredito que interesses extremamente importantes se moveram para que um grupo de pessoas tomasse de assalto o maior banco de Angola, que tinha os maiores activos mobiliários e imobiliários. Uma parte muito significativa dos prédios de Luanda foi financiada pelo BESA e, pelo que sei, esses edifícios dados como garantias não constavam nas contas [do Banco Económico ]. Depois, os 650 milhões de dólares que o BNA exigiu como aumento de capital foram realizados ou não foram? E se foram realizados pelos accionistas Lektron e Geni, foi ou não feito o compliance da proveniência destes fundos?

“Os accionistas do Banco Económico são uma fraude. Não são accionistas de verdade, tomaram a maioria do capital sem meter um tostão”

Quem são hoje os donos desses prédios?

Não sei e não respondo. Não quero ir além dos factos. Sei que não estavam no balanço e que aquela assembleia-geral é ilegal. Os accionistas do Banco Económico são uma fraude; não são accionistas de verdade, tomaram a maioria do capital sem meter um tostão. A Sonangol, por exemplo, fez uma operação swap : comprou a sede do BESA e disse que aquele era o capital. Mas não meteu lá dinheiro e ficou com a sede do banco, que valia muito mais. E não há nada na lei que permita dizer : como os velhos accionistas não foram ao aumento de capital, então já não fazem parte da estrutura accionista. O BES tinha 55% do capital e, no fim, devia continuar a ter os 55 por cento. Chama-se isto impunidade. Eles faziam-no de forma impune, com a conivência do regulador, o BNA. O que pergunto é como tanta gente é conivente.

É por isso que diz que o fim do BESA foi uma decisão política?

É uma decisão política deixar que o Banco Económico continue e não pague a dívida. E haver uma resolução do BNA em que as imparidades do BESA são exactamente iguais à soma dos seus fundos próprios e à dívida que tem para com o BES. Qual é o breakdown da dívida? Que empresas estavam falidas ? Ninguém sabe até hoje, em Portugal ou em Angola. Saí em 2013, estamos em 2019 e o banco continua. Se estava falido é um case study.

Esteve nesta assembleia-geral de 2014 ?

Tinha uma percentagem do banco e fui convocado, mas mandaram o meu representante sair. “Não foi ao aumento de capital? Então se faz favor vá lá para fora”. O BNA estava presente, através do seu administrador, que convocou a assembleia.

“O general Dino não percebe nada de contabilidade. O governador do BNA é contabilista e viu ali um momento de ouro: há problemas no BES em Portugal, nós temos uma dívida para saldar, vamos fazer aqui uma manigância para não pagar essa dívida”

Isto foi feito com a conivência do Banco Nacional de Angola ?

Sem o BNA aquela assembleia não podia ser realizada ou, pelos, menos, validada sem seguir os trâmites previstos na lei. O general Dino não percebe nada de contabilidade. O governador do BNA é contabilista e viu ali um momento de ouro : há problemas no BES em Portugal, nós temos uma dívida para saldar , vamos fazer aqui uma manigância para não pagar essa dívida. O regime angolano da altura foi muito inteligente, mais inteligente do que Ricardo Salgado e o Estado português.

Mais do que um acto administrativo ilegal, o que aconteceu é um crime?

Perguntem aos juristas todos do mundo se aquela assembleia é válida e todos vão dizer que não é. Então isto tem de ser revogado e os responsáveis têm de ser punidos de acordo com a lei. É das tais coisas: cumpre-se a lei para uns; ao inimigos nada, aos amigos tudo.

Fala como se fosse uma vítima disto tudo?

Vítima, eu ? O que disse são factos. Ao contrário do que muitos pensavam, o meu silêncio não era por causa de Ricardo Salgado. Era por causa do sistema que se vivia em Angola e das pessoas envolvidas. A minha entrevista à TPA [Televisão Pública de Angola] foi considerada ousada, porque algumas destas pessoas ainda são muito poderosas e estão à frente de instituições públicas, directamente ligadas a este processo, e pode haver retaliações. Eles limitam-se a dizer que havia lá crédito… Mas um ponto muito interessante, que agora posso dizer, é este : e eles, não tinham lá crédito?

Você, ou familiares seus, não receberam empréstimos do BESA?

Dados enquanto presidente do BESA? Não , isso é completamente falso. Houve um familiar meu que teve crédito dado pelo Banco Económico. Primeiro tinha ficado com mil milhões, depois já eram 700 milhões…Quem disse que o banco tinha problemas e estava falido foram os donos . Os mesmos que agora são donos outra vez ! Nem gosto de falar muito, porque revolta-me. Isto foi um assalto. Fiquei sem uma parte do banco. O BES ficou à deriva. Roubaram 3 mil milhões aos portugueses.

“Quando os regimes caem, é evidente que tudo se destapa”

Quem beneficiou?

O Estado angolano, mas principalmente estes accionistas, porque entraram sem capital nenhum e beneficiaram de créditos que Ricardo Salgado lhes atribuiu num determinado período. Houve ali um golpe para ficar com o banco. Sabe porquê? O Estado controlava o BPC, banco público. Quem era o dono do BFA ? Isabel [dos Santos], que controlava o BPI. Quem era o dono do BIC ? Isabel dos Santos. O dono do BAI ? Sonangol, o Estado. O dono do Millennium Atlântico? Manuel Vicente, Dino e Kopelipa. Eles controlavam todos os bancos. O único grande que eles não controlavam era o BESA. Eu era o rebelde, não deixava, e como não deixava …O BES queria ir para Moçambique, esteve em Marrocos, na Líbia , até para o Irão foi. Meteu-se na PT, na EDP, nas Telecom, na Telecel. No Brasil foi uma desgraça; no Uruguai, uma desgraça: em Angola, foi um cemitério. Gastaram-se biliões … As ligações do GES foram sempre com membros do poder do Estado. Salgado nunca quis entrar com o middle management no mercado, eram sempre políticos de topo, e meteu-se em coisas que não devia . Quando os regimes caem, é evidente que tudo se destapa.

“Quem me ameaçou foi o Paulo Kassoma: disse que ia fazer queixa ao Presidente e propor a minha prisão”

Foi vítima de ameaças?

Fui vítima de actos persecutórios, não só em Angola mas também fora de Angola.

Quem o ameaçou ?

A pessoa com quem tinha todos os contactos relacionados com os accionistas angolanos era o general Dino. Quem ameaçou foi o Paulo Kassoma: disse que ia fazer queixa ao Presidente e propor a minha prisão.

É nesta altura que resolve sair do país ?

Não , quando me fazem ameaças eu fico. Isto foi em Novembro de 2013; eu saio em Abril -Maio de 2014.

Tinha seguranças ?

Ainda hoje. A minha família tem uma empresa de segurança, essa empresa trata da minha segurança.

O que espera do Presidente João Lourenço?

O novo Presidente deu a oportunidade de as pessoas serem livres para falar . Isto é uma grande conquista para os angolanos. O combate à corrupção não é fácil . Houve um período gigantesco em que as pessoas interiorizaram modelos esquemáticos de vida, em que o Estado sempre foi preponderante. Simultaneamente, não podemos esquecer que estas pessoas fazem parte de um passado recente e que têm um poder muito grande para travar todos os processos que possam atingi-las.

Como estão os seus processos relacionados com o BESA ?

Em Portugal, a questão são as origens dos meus rendimentos, porque se criou este mito de que a falência do BES teve que ver com o BESA. Defendi-me sempre sem acusar ninguém. Assumo as minhas responsabilidades no BESA. Era um banco que estava alavancado ? Era . Tinha problemas de liquidez? Sim. Não é justo, e é de uma grande hipocrisia intelectual, o Dr. Ricardo Salgado não assumir também as suas responsabilidades. Um general não abandona as suas tropas. Nunca o acusei . Ele até me podia ter mandado fazer aquilo, como fez várias vezes, mas o responsável sou eu , porque podia ter dito mais vezes não. Como várias vezes fiz . No outro dia, o Amílcar [Morais Pires] assinou uma declaração infeliz ao dizer que fez o que fez para tapar os buracos do Álvaro Sobrinho. Não fui eu que montei as operações no BES para vender papel comercial a pessoas que nem sabem o que é um depósito a prazo, nunca fui criminoso a ponto de pôr velhinhos a comprar papel comercial e a ficarem sem nada. Durmo bem com isso.

“As pessoas são muito cobardes, e o Dr. Ricardo Salgado é um cobarde também”

A culpa do que aconteceu nos BES é de Morais Pires ?

Para mim, o grande causador da derrocada do banco foi ele, porque foi inventando produtos aqui na sala de mercados do BES e vendendo a particulares e a instituições, usando a rede do grupo. Mas na Comissão de Inquérito ninguém tinha culpa nenhuma . O Joaquim Goes não tinha culpa nenhuma, mas era o homem do risco. O Ricciardi também tinha o risco, mas disse que não tinha nada que ver com aquilo . Se não tinha, e não queria saber, pedia a demissão. As pessoas são muito cobardes, e o Dr. Ricardo Salgado é um cobarde também. Havia mais três administradores -executivos no BESA, um deles era Hélder Bataglia, que nunca foi tocado e tinha um grande conflito de interesses: era presidente da Escom, que tinha uma exposição brutal ao BESA.

Isso nunca o fez dizer não a créditos ?

Várias vezes. Sobretudo na parte final, quando tomo o controlo de muita coisa. As Torres da Escom, por exemplo, a partir de certa altura tomou-se conta daquilo .

A Escom tinha ou não um vasto património?

Estava totalmente alavancada em crédito do BESA. Mas todos os partners do GES eram sempre altíssimos PEP. Não venham com as cantigas da carochinha dizer que eram grandes parceiros. A maioria dos grupos financeiros não tem generais na sua estrutura accionista.

“O BESA foi um banco controlado por pessoas que tinham interesse em ficar com o banco. Ricardo Salgado nunca se apercebeu disso. Foi o grande erro estratégico dele. Sofreu uma rasteira”

Pareceu-me que há pouco estava a fazer uma admissão de culpa.

O nosso erro é não assumir os erros. O BESA foi um banco controlado por pessoas que tinham interesse em ficar com o banco. Ricardo Salgado nunca se apercebeu disso. Foi o grande erro estratégico dele. Sofreu uma rasteira. Agora ele já diz que, se calhar, os generais também são culpados. Há uma característica que o liga aos outros: todos vivam no caminho da impunidade.

Qual foi a última vez que falou com Ricardo Salgado?

Na assembleia-geral do BESA de Outubro de 2013. Depois disso nunca mais . E nem tenciono .

Quem é quem :

Ricardo Salgado : Recuperou o império dos Espírito Santo, perdido nos idos da Revolução, e liderou o BES até Julho de 2014. Com o cerco do Banco de Portugal, o antigo banqueiro tentou, em Angola, onde ainda dominava o BESA, uma derradeira bóia de salvação: uma garantia soberana de 5,7 mil milhões de dólares. Não resultou . Hoje suspeita de que os sócios angolanos terão beneficiado do fim do BESA, mas responsabiliza Carlos Costa pelo resultado.

Álvaro Sobrinho: Foi o CEO do BESA desde a fundação, por escolha de Ricardo Salgado e sugestão de Hélder Bataglia. Salgado dizia que tinha um “lápis afiado” e, em Angola, os rivais que desconfiam da origem da sua fortuna chamam-lhe “o matemático”. Foi afastado da presidência do BESA, em 2012, por pressão dos sócios angolanos, que o acusaram de desviar dinheiro do banco e conceder créditos sem rigor. Agora, com José Eduardo dos Santos fora de cena, decidiu contra-atacar.

Leopoldino Fragoso do Nascimento “Dino” : O tenente-general Dino foi o “maestro” da assembleia-geral que decretou a morte do BESA e a criação do Banco Económico, a 29 de Outubro de 2014, apesar de representar um accionista minoritário, a Geni. É tido como o testa de ferro de parte da riqueza do ex-Presidente, para quem trabalhou como chefe das telecomunicações e como consultor da Casa de Segurança. Foi exonerado de funções por João Lourenço.

Hélder Vieira Dias “Kopelipa” : Era o número 2 de Angola, no consulado do Presidente José Eduardo dos Santos. O eterno ministro de Estado e chefe da Casa Militar dominava o aparelho militar e de inteligência de Angola. É um dos três homens do ex-Presidente , ao lado de Manuel Vicente e do general Dino. Ao lado deles foi sócio -fundador da Portmill, que era accionista do BESA. Esteve na assembleia-geral do BESA de 2013 e também na de 2014.

José Eduardo dos Santos: Foi Presidente de Angola durante 38 anos consecutivos. Ali, nada se fazia sem o beneplácito presidencial, e o BESA não foi excepção. Através de Hélder Bataglia, permitiu a abertura da filial do BES em Luanda. E quando o BES estava em apuros, em 2014, foi José Eduardo dos Santos quem abriu a porta à concessão de uma garantia soberana para garantir empréstimos do BESA . Mas isso não impediu a resolução do BES.

Manuel Domingos Vicente : Foi o protagonista de um “irritante” nas relações entre Portugal e Angola, devido ao processo em que foi acusado de corromper um procurador português, para que aquele arquivasse inquéritos contra figuras do regime angolano. É engenheiro, foi vice-presidente de Angola, esteve 11 anos à frente da Sonangol e é conhecido como o “cérebro dos negócios”. Aparece inicialmente associado à Portmill e suspeita-se de que é agora um dos aliados estratégicos de João Lourenço.

Carlos Costa : O governador do Banco de Portugal foi, em tempos, director da área internacional do BCP, o banco rival do BES. Na cadeira do supervisor, Carlos Costa foi cercando o BES e recorreu à táctica da “persuasão moral” para afastar Salgado, em vez de lhe retirar idoneidade. A 3 de Agosto de 2014, anunciou o fim do BES e colocou as acções do BES no BESA bad bank. Um dia depois, a garantia soberana de Angola emitida por José Eduardo dos Santos foi revogada.

Fonte : Revista Visão. Entrevista conduzida por Silvia Caneco .

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