Angela Merkel e João Lourenço em “recados imaginários”

Nos últimos dias, o mundo virtual ou das redes sociais decidiu juntar João Lourenço e Angela Merkel. Circula de forma viral uma foto em que o Presidente da República de Angola surge ao lado da chanceler alemã Angela Merkel durante a visita oficial que efectuou a Alemanha no fim de Agosto de 2018. Surge também uma frase que é associada a Angela Merkel, como se a chanceler alemã tivesse na altura enviado este “recado” ao chefe de Estado angolano: “Um Presidente ou líder não pode justificar os erros do presente, com a gestão do seu antecessor, pois, quando se candidatou ao cargo, sabia da situação e foi para corrigir os erros e as políticas. Quando age em sentido contrário, jogando sempre o passado ou é incompetente ou é medíocre.”

A frase foi inventada e nunca foi dita por Angela Merkel. A ideia foi associar o nome da chanceler alemã para conferir “autoridade e credibilidade” à publicação. Na realidade não passa de uma manobra ardilosa para atacar e descredibilizar certas figuras da vida política. Já aconteceu na América do Sul, onde o ex-Presidente do Equador partilhou um texto no Twitter para atacar o seu sucessor, o Presidente Lenín Moreno, também já aconteceu entre sucessores e antecessores presidenciais no México. Em Angola começou com a partilha do texto acompanhado de uma imagem de Angela Merkel, mas nos últimos dias a estratégia “evoluiu” com a imagem de Angela Merkel acompanhada de João Lourenço. Além de o timing de circulação e partilha deste texto nas redes sociais “angolanas” ou de angolanos ter coincidido com o balanço dos dois anos de governação do Presidente João Lourenço, assinalados no passado dia 26 de Setembro.

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A publicação verdadeira e original é de André Giraldo, um cidadão colombiano que actualmente vive na Alemanha (uma interessante coincidência) e que no dia 27 de Junho escreveu na sua conta do Twitter: “Qualquer político deveria conhecer os problemas que tem o seu país quando pretende ocupar um cargo (…). Para resolver esses problemas deveria contar com um plano de trabalho e não estar a governar com um espelho retrovisor, culpando a pessoa que lhe antecedeu no cargo.”

O próprio André Giraldo, no seu blogue intitulado Calma, Quietud y Tribulación, fez questão de reclamar a autoria da frase e lamentou que esta esteja a ser associada a Angela Merkel, pessoa que assume admirar. Na própria Colômbia, o site Colômbia Check também alertou para a manipulação existente. Na Alemanha o texto atribuído a Angela Merkel parece não ter criado grande alarido até porque os alemães já estão “instruídos e alertados” para o fenómeno das fake news. Durante a última campanha eleitoral na Alemanha, sete das 10 notícias mais virais sobre Angela Merkel eram falsas.

Erros, rumores, boatos e manipulações sempre existiram, a diferença é que o guardião, gatekeeper, o jornalista que separava a verdade da mentira e decidia o que devia ser publicado, agora perdeu poder. O jornalista que separava a verdade da mentira tem vindo a perder poder e influência, hoje já não tem o monopólio da informação/comunicação. Vivemos numa sociedade com muita informação e, ao mesmo tempo, muito desinformada. Não há maneira de controlar, pois o acesso a tanta informação, em especial para quem não estava  habituado, torna-se mais difícil distinguir o real do falso.

A manipulação social e política nas redes sociais é tema de grande preocupação dos governos mundiais. Já há mesmo quem aposte na auto-regulação ou mesmo um órgão de supervisão de algoritmos ou censura de certos conteúdos. A União Europeia tem estado a trabalhar na elaboração de uma estratégia europeia contra as Fake News, que a UE classifica como “desinformação intencional difundida através de plataformas online, meios de comunicação audiovisual ou imprensa tradicional”, tendo criado um grupo de peritos de alto nível para apoiar no combate à desinformação online. João Lourenço na abertura da Bienal de Luanda, quando alertou os jovens para os perigos das redes sociais, não o fez por ter medo de uma tecnologia que ele mesmo utiliza para comunicar e entende ser de grande utilidade nos dias de hoje. Foi, sim, para também alertar os jovens, dos maiores utilizadores das novas tecnologias, para os perigos das fake news tal como têm feito outros homólogos seus e até toda a poderosa União Europeia. Dias depois surgia a publicação que o junta à chanceler alemã. Pois, com as novas tecnologias a manipulação de informação é mais rápida e massificada.

Vivemos hoje numa sociedade com muita informação e, ao mesmo tempo muito desinformada. Os cidadãos hoje ficam mal informados e são facilmente manipulados. É um combate difícil e de todos. Está a tornar-se cada vez mais difícil distinguir o falso do verdadeiro. E com tudo isso perde o jornalismo, perde a democracia e os cidadãos. É preciso defender, estimular e promover o bom jornalismo. As fake news tornaram-se armas de arremesso. Não são apenas falsas, mas são inventadas para serem verossímeis, para confundirem e manipularem os mais distraídos ou menos atentos. Há momentos em que perceber o que é acessório e o que é essencial faz toda a diferença e livramos-nos de fazer parte de um bem orquestrado jogo de manipulação social e política, com alvos bem definidos.

Temos todos culpa, quando partilhamos informação falsa porque não quisemos perder tempo a verificá-la, a cruzar informações e confrontar factos. Porque gostamos do que lemos lá . Porque dizem mal de alguém que não gostamos ou desprezamos. Porque confirmam as nossas ideias ou visões sobre o país e o mundo, os nossos preconceitos contra pessoas ou os nossos desejos sobre a realidade. É uma reacção muito comum e humana, as pessoas estão dispostas a acreditar em coisas que lhes dão razão, mas é muito perigosa. Os nossos amigos, os nossos irmãos, os nossos filhos, os nossos colegas, serão hoje, sem o saberem, alvos de informação propositadamente falsa, inventada com o objectivo de enganar, gerar indignação geral e, nalguns casos gerar dividendos políticos. Estas páginas e perfis falsos não são e nunca foram imprensa, são mecanismos de fachada para exercer uma das actividades mais perigosas dos dias de hoje : desinformar, dividir e criar ódio. Combater a desinformação é uma obrigação de todos . Somos nós, através das nossas partilhas que difundimos estas informações pelo mundo virtual e real.

Este “recado imaginário” de Angela Merkel a João Lourenço é mais uma mentira conveniente, cuja verdade se impõe para evitar “males maiores” para bem da democracia, da amizade e da cooperação entre os povos e os países. Como se dizia no outro tempo: “Vigilância, vigilância, vigilância.”

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