Angola e RDC – Antibiótico Diplomático

O novo Presidente da República Democrática do Congo (RDC), Felix Tshiseki desfruta de uma relação especial com o Presidente queniano Uhuru Kenyatta, que foi o único Chefe de Estado que se fez presente na sua posse no mês passado em Kinshasa. Nairobi, a capital queniana, também foi palco do anúncio da coligação entre Tshisekedi e seu actual chefe de gabinete, Vital Kamerhe.

A Comunidade de Desenvolvimento da África Austral (SADC), chefiada pelo Presidente Edgar Lungu da Zâmbia, que durante o período pós-eleitoral na RDC, pediu separadamente uma recontagem, pouco antes da resolução da União Africana (UA). Enquanto o Presidente Uhuru se destacava nos bastidores  com “lobbying” para que a região aceitasse a eleição de Tshisekedi como presidente da RDC.

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Num cenário normal, a primeira visita oficial do recém-eleito presidente Congolês seria ao Quénia, pelo facto de ter sido o único País que se fez representar pelo seu chefe de Estado na investidura do Presidente congolês, quando a maioria dos governos foram representados por vice-presidentes, primeiros-ministros e outros funcionários de baixo escalão. No entanto o Quénia foi o segundo país visitado pelo novo homem forte da RDC.

 Acredita-se, religiosamente, a nível da relações internacionais que as primeiras viagens (senão a primeira) de novos presidentes dão uma forte indicação sobre as linhas gerais da política externa do líder, sendo que estas viagens devem por norma ser observadas e com muita atenção.  

O que vai além da visita a Angola

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Certamente que a agenda de Felix Tshiseki foi traçada olhando para dois ângulos: Segurança e Estratégia. Quanto as questões de segurança prendem-se a soberania e a protecção contra ameaças, o que torna imperativo a consolidação da aliança com angola.

Ainda abordando segurança o governo da República Democrática do Congo pediu recentemente à sua missão de paz da ONU ajuda para responder a questão dos rebeldes Ruandeses que organizam operações contra o Ruanda dentro do território congolês, claro que estas ofensivas dos rebeldes podem sempre mudar de direcção.  

Mas as preocupações sobre as questões de segurança não param por ali… A violência na região de Kasai é um elemento adicional aos infortúnios da República Democrática do Congo. A região central da RDC de Kasai foi palco de violência em setembro de 2017, uma revolta que eclodiu quando as forças do governo mataram um chefe tribal e líder da milícia, Kamwina Nsapu, que se rebelou contra o ex-presidente Joseph Kabila, levando a uma crise humanitária que se tem estendido em território angolano.

Sendo assim torna-se evidente que Félix não pode ter a luxuria de dispensar João Lourenço o Presidente de Angola como aliado, por outro lado não seria prudente da parte de Angola abster-se dos assuntos críticos da vizinha RDC com quem partilha uma vasta extensão territorial fronteiriça e em forma de condenação será sempre afectada por qualquer situação de instabilidade no gigante Congo.  

Referindo-me a estratégia tornou-se evidentes que Félix esta a fazer uso racional e adequado do único recurso disponível para sua afirmação como Presidente da RDC, isto é a diplomacia. Neste exercício o primeiro passo esta centrado em consolidar a aliança com Angola o que poderá gerar um efeito dominó na melhoria das relações com os outros actores da região, devido a posição privilegiada que Angola dispõe principalmente com a África do Sul, podemos adicionar a equação o facto da RDC e a África do Sul não estarem a gozar de boas relações.

Há dada altura houve uma divergência sobre a indicação do antigo Presidente sul-africano, Thabo Mbeki, como enviado especial da África do Sul para a RDC e a Região dos Grandes Lagos, e já haviam algumas trocas de mimos entre os dois países. Por outro lado o então proposto candidato Felix Tshiseki causou um certo dissabor aos irmãos das terras de Mandela quando inesperadamente não se fez presente na reunião organizada na Africa do Sul para de forma “Grego Romana” conspirar ao lado dos parceiros da oposição a aliança para a queda de Kabila.

Diz um ditado africano que “Aquele que não cultiva seu campo, morrerá de fome”. O homem forte da RDC veio a Angola e pressuponho que entre as demais matérias trouxe na bagagem sementes para o cultivo de um aliado para a missão espinhosa de convencer alguns vizinhos cépticos de que possui antibióticos suficientes para diluir os anticorpos causados pelo seu antecessor. A nível da SADC há que concertar em primeiro plano, as relações com a África do Sul e este pressuposto pode ser suavizado por Angola.  

O Presidente angolano logo após tomada de posse, optou também por uma “cruzada diplomática”, focada na dita ” diplomacia económica, sendo que a nível da região, também tem tentado fazer uso do antibiótico diplomático para diluir os anticorpos que recebeu como herança da antiga administração. Vale recordar que a primeira visita oficial do estadista angolano foi a Africa do Sul, sendo também que a dada altura a troca de olhares entre os dois países não denotava boa saúde, mas tudo indica agora que os antibióticos aplicados tem surtido efeito.  

Neste triângulo de relacionamento há um factor animador que foi rubricado em Agosto de 2013, o Memorando de Entendimento Tripartido para o Diálogo e Cooperação. O Mecanismo Tripartido é um órgão de diálogo e cooperação entre os três países (Angola, África do Sul e RDC). Este instrumento deve ser reanimado para o reforço da cooperação no domínio de segurança e claro nunca desmarcando o factor economia que é um catalisador para o reforço relações. 

Félix tem grandes desafios a nível da RDC onde pela primeira vez teremos um certo balanço de poder fruto do escrutínio que acabou por ditar uma coabitação entre um presidente eleito por um partido da oposição e um parlamento do antigo partido no poder.

O presidente terá de assumir soluções de compromisso com a coligação do partido de Jospeh Kabila na Assembleia Nacional, visto que a coligação obteve maioria nas eleições legislativas da República Democrática do Congo, sendo assim podemos concluir que os antibióticos injectados para dar saúde as alianças externas poderão ajudar a mitigar os desafios internos. Haja Saúde e Estabilidade!

Consultor e Docente de Relações Internacionais e Ciências da Comunicação

*As opiniões aqui expressas constituem responsabilidade do autor.