Angola nas asas aeroespaciais da esperança

Em Maio de 2017, num texto que publiquei no meu blogue pessoal, Pululu (https://pululu.blogspot.com), sob o título «Angola e o espaço exterior: mais olhos que barriga ou campanha eleitoral?» – posteriormente, transcrito no Folha 8 e no portal em língua portuguesa do jornal Pravda – e por causa de um artigo que dava conta que desejávamos enviar para o espaço, até 2015, vários satélites no âmbito de “sete projetos previstos ao abrigo do Programa Espacial Angolano e que envolve a formação de quadros, a transferência de conhecimentos nesta área e o lançamento da Agência Espacial Angolana” eu questionava como podíamos estar tão certos deste desejo se ainda nem o AngoSat-1 tínhamos conseguido que fosse para o espaço.

Como nos recordamos o AngoSat-1 não só saiu com assinalável atraso da fábrica russa, como acabou por ser – pelo menos para nós – o maior fiasco em ternos tecnológicos espaciais. Ainda hoje perdura a dúvida se foi o objecto que explodiu sobre território peruano ou, como alguém há dias afirmava, está no espaço, mas sem contactos com o centro russo de controlo de Korolev, por razões técnicas – parece que não abriu a suas libélulas asas para acolher os raios solares que o alimentaria.

Na altura, questionava como iríamos pagar esta originalidade aeroespacial de vários satélites, não sabendo eu, e nós, ainda, que logo após o fiasco do AngoSat-1 – segundo julgo saber por artigos lidos na altura, Angola terá dito que os russos forneceriam outro em sua substituição e sem custos, até porque o satélite estava segurado em seguro de 121 milhões de dólares (USD), valor assumido em partes iguais pelas empresas SOGAZ e VTB, sem que se tenha ouvido mais alguma coisa, quanto ao seu fabrico – e já vamos a caminho do AngoSat…3!

Ou seja, do AngoSat-1, que terá custado a preços de 2017, cerca de USD 252 milhões – e só estava segurado em USD 121 milhões? –, e que esperamos os russos nos devolvam em satélite ou em dinheiro, dado que a inoperância do satélite se deveu a um erro de construção, passámos para o AngoSat-2 que vai ser construído, não pelos russos – como seria natural para substituírem o falhado AngoSat-1 – mas pelo consórcio europeu da Airbus e acordo de cooperação com os russos que o lançarão, e que custará cerca de USD 320 milhões de dólares.

Entretanto, já vamos falando num AngoSat-3, que será – ou seria, dado que as notícias são contraditórias quanto ao uso – igualmente construído pela Airbus.

São contraditórias, porque uns sites falam em construção e outros da utilização por aluguer de satélites franceses de observação da Terra e com impacto directo para observação territorial do espaço angolano. O certo é que em qualquer dos casos, os custos estão – ainda, suponho – desconhecidos.

Recordando, na altura questionava a forma e capacidade de pagamento dado que, apesar – em 2017, por quando da elaboração do artigo – do crude estar um pouco mais lato que nos períodos anteriores – e que posteriormente voltaram a estar voláteis – alertava para o facto de não podermos continuar a pensar no petróleo como a base sustentável de pagamento das nossas importações: os satélites são importações que faremos.

Apresentava vários factores que levavam a estarmos alertas e que repito por e manterem inalteráveis ou mesmo se terem fortalecido: “sabemos que já circulam nos meetings internacionais sobre energia que, provavelmente, vai deixar de haver viaturas com combustíveis fósseis, na Alemanha o parlamento já aprovou que, a partir de 2030, fica proibida «a comercialização, no mercado local, de automóveis novos movidos por motores de combustão, a gasolina ou a gasóleo». Também a Noruega, Holanda e, até, a Índia, só admitirão a circulação de veículos eléctricos a partir de 2035”

A própria China, um dos nossos maiores – se não mesmo, o maior – importadores de crude é já um dos principais consumidores de automóveis eléctricos e líder a sua construção – a baixos custos e de larga autonomia – e prevê deixar, progressivamente, de consumir produtos de combustíveis sólidos; a poluição que atravessa o País, a isso o impõe.

Face a estes difíceis períodos que se avizinham e porque ainda somos “monodependentes” do petróleo– mesmo que o Presidente João Gonçalves defenda e prescreva a sua progressiva diluição – pergunta-se como vamos conseguir cumprir os nossos compromissos se não alteramos, rapidamente, essa “monodependência”, mais-a-mais quando vamos descobrindo novos furos para exploração do crude?

Compreendo que desejemos ter um ou, talvez, dois satélites para telecomunicações e para estudo orográficos do País. Mas, 3 satélites e, previsivelmente, tão caros?

Recordo que o Ruanda construiu e colocou em órbitra um satélite seu, em parceria com outros estados africanos e apoio da agência espacial Japonesa (JAXA), a partir da Guiana francesa, para «conectar escolas rurais à Internet [bem como a] monitorização da agricultura e dos padrões meteorológicos, bem como ser utilizado para planeamento urbano», e ujos custos não terá ultrapassado cerca de USD 11 milhões.

É certo que o Ruanda é muito mais pequeno que nós. Mas, por vezes, step-by-step é o mais aconselhável do que querer ter tudo e, anos depois de pensarmos num satélite, nada termos.

É preciso recordar que ainda padecemos de falta de certos e importantes equilíbrios sociais, onde a esperança na corrida aeroespacial parece parece ser inconciliável…

* Investigador do Centro de Estudos Internacionais do ISCTE-IUL(CEI-IUL) e investigação para Pós-Doutorado pela Faculdade de Ciências Sociais da Universidade Agostinho Neto**

** Todos os textos por mim escritos só me responsabilizam a mim e não às entidades a que estou agregado

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