Início da caça aos intocáveis

A diferença que um ano faz. Durante a campanha eleitoral de 2017, o Presidente angolano João Lourenço anunciou apenas timidamente ao que vinha. ” Tem faltado coragem para acabar com a impunidade”, disse quase entre dentes. Ninguém antecipava ainda a forma, para muitos surpreendente, em que esta coragem se consubstanciaria: depois de uma exoneração geral em cargos públicos de topo, veio o mandato claro para a Justiça actuar e fazer uma limpeza geral da grande corrupção em Angola, chegando a quem antes era considerado intocável.

Muitos viram na prisão de José Filomeno dos Santos o simbolismo máximo de um sistema finalmente em mudança . O jovem financeiro, filho varão predilecto de José Eduardo dos Santos a par de Isabel dos Santos, escolhido por ele em 2012 para administrar e depois presidir ao Fundo Soberano de Angola, foi esta semana detido preventivamente na sequência de suspeitas de associação criminosa, falsificação, tráfico de influências, burla, peculato e branqueamento de capitais enquanto titular desta pasta. Noutro processo, em fase mais avançada, Filomeno já está acusado de burla ao Estado angolano no valor de 500 milhões de dólares.

Zenú, aquele que chegou a ser dado como o provável sucessor de Zedú à frente dos destinos do país, acabou envolto em suspeitas de má gestão e desvios de dinheiros que o afastaram da corrida política. Poucos pensaram que o “combate à corrupção e à impunidade” de que João Lourenço falaria meses depois chegaria, afinal, à toda-poderosa família Dos Santos com uma acusação formal e uma ordem de prisão. Nos musseques de Luanda como nos novos bairros dos arredores onde vive a classe média emergente e cada vez mais exigente que começa a despontar, houve quem celebrasse com festas e brindes. Nas redes sociais, a mesma coisa. E até há romarias à prisão de São Paulo onde Zenú está detido, porque há coisas que é só mesmo ver para crer. E no entanto, ela, a Justiça, move-se!

“Está a haver uma clara mudança em Angola, o que é muito importante para o nosso país. O crime não ajuda a economia angolana.” Em declarações à Visão, o vice-procurador-geral da República, Luís da Mota Liz, garante que as autoridades judiciais estão empenhadas em combater a corrupção e revela que, neste momento, estão a decorrer vários processos de investigação, que envolvem altos quadros do Estado.

Além de José Filomeno dos Santos, foi também detido preventivamente, no âmbito deste processo, Jean-Claude Bastos de Morais, o auto-apelidado cérebro do Fundo Soberano de Angola e braço-direito de Zenú. Mas, segundo Mota Liz, poderão vir a existir em breve mais arguidos neste caso.

“A lição a tirar é a de que ninguém está acima da lei “, diz o vice-procurador, garantindo que estão em curso várias diligências.

Estas detenções vêm no seguimento de uma outra, igualmente simbólica, que deixou as elites em alvoroço. Na sexta-feira, o antigo ministro dos Transportes, Augusto da Silva Tomás, também ficou em prisão preventiva indiciado pela prática dos crimes de peculato, corrupção e branqueamento de capitais por envolvimento em desvios de fundos do Conselho Nacional de Carregadores. Augusto da Silva Tomás é também conhecido por ser “compadre” de João Lourenço, com quem passou mesmo o último réveillon.

ISABEL DOS SANTOS, A GRANDE AUSENTE.

Com os processos e interrogatórios em curso que atingem vários elementos do anterior governo e da família Dos Santos, a ausência mais notada no país é agora a de Isabel dos Santos, a outra filha pródiga do antigo Presidente angolano.

Apesar de colocar vídeos e fotografias no Instagram como se estivesse em África, a Visão confirmou que há várias semanas que Isabel dos Santos não entra em Angola, “por precaução”. Vive agora em Londres, onde estão os filhos e a mãe, com passagens por Lisboa. Muitos antecipam que esta vaga de fundo da Justiça acabe, mais tarde ou mais cedo, por chegar a ela, por causa do processo -crime em que foi notificada para prestar esclarecimentos no âmbito da sua gestão à frente da Sonangol.

“Para a população, as detenções são fundamentais para que acredite nas promessas presidências de combate à corrupção de João Lourenço. Justiça seja feita”, diz Rafael Marques, uma das vozes mais activas anti-regime em Angola.

“Isabel dos Santos continua sem responder a duas notificações do Serviço de Investigação Criminal. A terceira pode ser um mandado de captura”, acrescenta.

A ENTREVISTA DE ÁLVARO SOBRINHO E A “ENTRADA EM CENA” DOS GENERAIS LEOPOLDINO DO NASCIMENTO “DINO”, HÉLDER VIEIRA DIAS “KOPELIPA” E HIGINO CARNEIRO.

Mas a semana quente de todas as surpresas não se fica por aqui. No mesmo dia em que o primeiro-ministro português António Costa voava de regresso a Lisboa, Álvaro Sobrinho deu uma entrevista bombástica de mais de uma hora ao canal público de televisão, a Televisão Pública de Angola (TPA), porta-voz oficioso do Governo angolano.

Pela primeira vez, o ex-presidente da Comissão Executiva do Banco Espírito Santo Angola disparou, sem moderação, contra os todo-poderosos do anterior regime: o alegado testa-de-ferro Leopoldino Fragoso do Nascimento “Dino”, o ex-ministro de Estado e chefe da Casa Militar, Hélder Vieira Dias “Kopelipa”, e Manuel Vicente, ex-presidente de Angola. Álvaro Sobrinho sublinhou que o BES Angola não faliu por insolvência.

” O banco faliu por decisão política, tendo em conta as pessoas nele envolvidas”, afirmou.

O que faz crer que serão estes outros dos senhores que se seguem nos alvos da Justiça. O general Leopoldino Fragoso do Nascimento “Dino”, que era o testa-de-ferro dos negócios privados de José Eduardo dos Santos, foi o grande orquestrador do alegado golpe que levou ao encerramento do BES Angola. Terá, ilegalmente, convocado uma assembleia-Geral de accionistas, feito aumentos de capital e tomado deliberações sem cobertura jurídica, que culminaram no encerramento do banco (o maior escândalo financeiro que Angola conheceu) e no renascer, alega Álvaro Sobrinho, de outra instituição, com outro nome, mesmo ao lado, o Banco Económico.

Álvaro Sobrinho negou, claro, a acusação de desvio de fundos no valor de 600 milhões de euros de que é alvo.

Mas há mais, Higino Carneiro, uma das figuras da elite contemporânea de José Eduardo dos Santos, é dado nos corredores da capital angolana como o “próximo mais próximo” a ser detido. Está, de facto, sob investigação num processo de alegado peculato e corrupção na gestão enquanto governador de Luanda, lugar de onde foi afastado por João Lourenço. Antes tinha sido ministro das Obras Públicas.

Agora que se tornou habitual ver poderosos na prisão, fazem-se apostas sobre quem serão os próximos atingidos .

Fonte: Visão

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