O Aniversário de um homem duplicado e nada complicado

O dia do nosso aniversário é sempre aquele dia. Um dia que começa mais cedo e acaba mais tarde. Para mim é sempre um dia de reconfortantes alegrias e de profundas nostalgias. No meu caso começo sempre com interessante diálogo/entrevista com aquela mulher, cujo o dom da maternidade permitiu que me colocasse neste mundo,  naquele que vai sendo um já distante dia 02 de janeiro de 1976.

Este diálogo/ entrevista é interessante,  porque vou cercando a minha mãe de perguntas sobre todo processo embrionário que resultou naquilo que sou hoje. Ela pacientemente e com alguns sorrisos à mistura, vai dando resposta às questões colocadas . Um exercício de perguntas e respostas que termina sempre com muita risada, um abraço e agradecimento pelo dom da vida . Mesmo com o passar dos anos, o dia do meu aniversário continua a ser um dia revelador, um dia em busca de respostas. Um dia em busca do sentido da vida junto daquela pessoa que nos deu vida . Um cruzamento de olhares , de gestos e afectos , de orgulho e admiração mútuas :  do lado da mãe por causa do produto gerado e criado. Da minha parte pela mulher que soube carregar no seu ventre e gerar um filho que se fez homem.

Escrever sobre o seu próprio aniversário é entregar-se ao fascínio do tempo e a essência da reflexão. É como se houvesse uma subtracção do tempo e do espaço. Um aniversário mais do que acrescenta-nos anos de vida, se formos honestos, não é mais do que retirar-nos dias aos nossos dias. É um caminhar em linha recta para a meta . Percebemos que o meio de um caminho não é um caminho a meio . É uma paragem momentânea na caminhada, para se olhar para o que já se fez e prosseguir o que falta fazer. Este meio do caminho reveste-se de importância porque faz deste caminho, um caminho que se reinventa, um caminho que aos pouco se vai completando. Um caminho que não permite retornos no tempo . Um caminho que é uma revelação do profundo e transmissão de um destino. É um dia com valor particular e um só destinatário. Este é um dia de pequenos passados que existem no nosso presente. Gosto deste desafio ou provocação de reflectir sobre o tempo em que a nossa vida era poupança e contenção. Era demora e decoro, remendar a roupa e reutilizar a roupa do irmão. Um tempo em que a vida era normalidade, era uma infância de fartura, de prazeres lúdicos e de ingénua generosidade. Um tempo em que a palavra, a escrita, os afectos e sentimentos eram valores a promover. Hoje é o dia do meu aniversário num tempo em que precisamos de amar. Não apenas amar o próximo, mas amar o distante, o diferente. Precisamos de nos colocar na pele do outro e desfrutar deste espectáculo que é a vida . Num tempo em que merecemos ser lidos para além dos rótulos e que devemos interrogar as éticas mais hipócritas. Procurar respostas efectivas e não apenas agradáveis soundbytes. Um tempo em que faz muita falta uma certa “inconstitucionalidade pessoal”, em que quem não respeitasse estes princípios ou pressupostos, era declarado “inconstitucional”. Aplicava-se uma sanção qualquer que poderia ser por exemplo uma distribuição comunitária de afectos. E aqui estou metido a celebrar os meus 43 anos. O aniversário de um homem duplicado e nada complicado . Numa idade que ainda se estranha e que facilmente se entranha. Não há antídotos que nos livrem deste avanço no tempo . É um consolidar de identidades. É um : estou aqui ! Um homem duplicado pela força, carinho e dedicação de duas mulheres . Uma primeira responsável por me dar vida, que pelo divino dom da maternidade me trouxe ao mundo. Outra mulher de quem eu fiz mulher, que tem a honrosa missão de trazer dias aos meus dias . Sou duplamente por elas duplicado. Duplicado também sou na dupla de rapazes que fazem de mim, um pai zeloso e vaidoso. Estou aqui porque me colocaram aqui. Porque me permitiram aqui estar. Estou aqui porque gostam que eu aqui esteja . Estou aqui também porque gosto de aqui estar. Estou aqui porque gosto de fazer os possíveis para respeitar os afectos, as amizades, os acasos. Estou porque sou único e autêntico, não me exprimindo através de personagens inventadas para traduzir ideias. Buscando sempre uma certa dose de humor e ficção para ” desumanizar” certas durezas da vida. Estou aqui para quebrar silêncios cheios de barulhos indecifráveis. Estou aqui para fazer a combinação entre o meu lado solar e o meu lado lunar. Estou aqui a observar um mundo muito duro para quem tiver a ousadia de o observar. Aqui está um homem duplicado e nada complicado . Aqui está a acompanhar mensagens reais de amigos virtuais. Mensagens de amigos no Facebook e Whatsap, o carinho e amizade que acabam por duplicar a alegria deste homem duplicado . E sem esquecer, o ” irmão” que a vida se encarregou de dar, duplicando a minha irmandade. Afinal não é assim tão difícil ser um homem duplicado e nada complicado. Parabéns para mim e para vocês.

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