António Costa em Angola de ganga e no Dia do Herói Nacional

O primeiro-ministro português António Costa aterrou hoje em Luanda na primeira visita oficial de um líder governativo desde que o “irritante” processo contra Manuel Vicente, antigo vice-Presidente da República, foi desbloqueado na Justiça portuguesa e enviado a Angola para aqui ser dirimido.

Até aqui nada de novo. Só que…

Só que o premiê português deve ter ouvido falar que, em Luanda, os muxiluandas, gostam de calças bem vistosas, bem vincadas e, por isso, dão muito nas vistas, sendo, muitas vezes, cognominados de “calcinhas”.

Também deve ter ouvido, ou lido, que o turismo em Angola estava em regressão, apesar do bem número de visitantes ocorrido em 2017.

Vai daí, para não ser conotado com um calcinhas, apresentou-se em Luanda como um turista, camisa aberta, casaco abotoado a meio e… de calças de ganga. Um turista não calcinhas!

Também na recepção que teve por parte do Ministro das Relações Exteriores, Manuel Augusto, António Costa, mostrou a mesma descontração como seu apanágio: a indumentária foi a mesma.

Chegar assim, mesmo sabendo que sendo Chefe de Governo, e ser a primeira vez, em alguns anos, que um premiê português vai a Luanda e que, por inerência do cargo iria ser – como foi – recebido por uma guarda de Honra, ainda, talvez, se possa dar de barato o desaconselho do seu «fashion adviser» (penso que é assim que se denomina um conselheiro de roupa) a forma como desceu do avião. Parecia turismo, mas…

Mas turismo faz-se em momentos e alturas próprias.

É certo que na visita oficial à Fortaleza de São Miguel, onde está instalado o Museu das Forças Armadas/Museu Nacional de História Militar, e no Dia do Herói Nacional – ainda que tenha visto numa televisão nacional aparecer vestido da mesma maneira na suposta chegada à Fortaleza –, o Chefe de Governo português apareceu de um azul fato e gravata. Celebrar o nosso azul celeste dos céus e da baía de Luanda?

E como não há uma sem duas, e duas sem três, o primeiro-ministro português, António Costa fez mais pela Oposição e por todos os que assim o pensam, que muitos de nós – ainda que o escrevamos e o digamos – não o fazem com a oportunidade que ele teve: declarar estar feliz em Luanda – mais ou menos estas as palavras que ouvi na TPA – no Dia dos Heróis Nacionais.

Upps! Algo deve ter tremido na Avenida Ho Chi Minh, 34… Dia dos Heróis Nacionais, em vez do Dia do Herói Nacional? Obrigado António Costa…

De facto, neste Dia Nacional deve-se celebrar e honrar todos os Heróis Nacionais.

O Presidente João Lourenço, começou quando solicitou a transladação do General Ben-Ben (antigo líder das FALA e, se a memória não me atraiçoa, antigo vice-CEMGFAA) da África do Sul, onde estavam depositados os restos mortais e lhe deu funeral de Estado no País.

Mas há mais que, à sua maneira, no seu lugar e na sua vida, deram esta em prole de uma Angola maior, melhor e mais fraterna. À sua maneira, foram heróis. Uns militares, outros, não.

Por isso, hoje, também foi celebrado o Dia dos Heróis Nacionais, no túmulo do Soldado Desconhecido.

Acresce que, o Dia do Herói(s) Nacional(is) é hoje celebrado em Cuíto, Bié, na presença do senhor Vice-Presidente Bornito de Sousa.

Senhor primeiro-ministro de Portugal, Dr. António Costa, não sei se foi num avião da TAP ou da TAAG. Uma coisa é certa. Porque não acredito que seja tão descontraído assim, só posso ajuizar que perderam a sua bagagem. Se foi na TAP, demita-os; se oi na TAAG, peça ao Ministro dos Transportes que a privatize…

Veremos amanhã, quando for recebido pelo Presidente João Lourenço…

Ah! Já agora, peça a alguém do seu tamanho que lhe empreste alguma roupa para os restantes actos oficiais que hoje possa ter.

É que se continuar assim, não será só “o passado que ficará no Museu”, esta sua imagem – que já teve direito a memes nas páginas sociais portuguesas, e não sei se também angolanas – vai, de certeza par o Museu fazendo esquecer tudo o que seria mais importante:

Assinatura de um Acordo de Cooperação Estratégica;

Assinatura da convenção para o fim da dupla tributação nas transações entre os dois países;

Assinatura de um novo acordo aéreo para aumentar as ligações entre os dois países (com este – só pode – problema de bagagem, bem que vai ser necessário um acordo destes…);

Eventual regularização de pagamentos em atraso a empresas portuguesas que investiram no mercado angolano (não devendo esquecer o dinheiro que os expatriados deixaram em Angola, por dificuldades de transferências, devido à crise que afectou a recolha de divisas por parte dos bancos nacionais – diga-se, que isto não aconteceria se não houvesse contratos que, em vez de pagarem em moeda nacional, pagavam em divisas; espero que sito seja um factor a rever pelo Governo angolano, porque se os portugueses forem para outros países, cuja moeda não seja o Euro, não têm outro remédio que não seja receber na moeda local; até porque muitos dos que regressaram a Portugal, desejam voltar – com a perspectiva de melhoria das relações que passaram do “irritante” para o “agradante” nas irónicas palavras de Armindo Laureano – será bom rever a forma dos contratos);

Aumento da linha de crédito de apoio às exportações para Angola de 1.000 para 1.500 milhões de euros (com que garantias, da COSEC-Companhia de Seguro de Créditos? Se for como outras…).

Uma vez mais, estou expectante como vai ser o dia de amanhã. Será que, para não ficar atrás e porque gosta de um passeio velocipédico, António Costa vai passear de bicicleta pela marginal muxiluanda e de fato? Um, banha-se; outro, move-se de bike?

João Lourenço que se cuide ou ainda vai ter de andar de bicicleta da Cidade Alta à Marginal…

*Investigador do Centro de Estudos Internacionais do ISCTE-IUL(CEI-IUL) e Pós-Doutorando da Faculdade de Ciências Sociais da Universidade Agostinho Neto**

** Todos os textos por mim escritos só me responsabilizam a mim e não às entidades a que estou agregado

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