António Costa em Angola. Os altos e baixos de uma viagem que virou as relações Lisboa-Luanda

O primeiro-ministro esteve dois dias em Angola e voltou com 11 acordos de cooperação assinados e com a fé nas relações com Luanda redobrada. Mas nem tudo foram pontos altos.

As relações entre Angola e Portugal passaram nos últimos tempos por alguns momentos de tensão. A investigação da justiça portuguesa ao ex-vice-presidente e antigo homem forte do petróleo angolano, Manuel Vicente, marcou as conversas entre os dois países no fim dos quase 40 anos de José Eduardo dos Santos como chefe de Estado. João Lourenço tomou posse como Presidente angolano e os primeiros sinais não auguraram melhorias significativas. Os encontros com homólogos europeus – Espanha e França na liderança – pareciam insinuar uma troca de prioridades por parte de Luanda, relegando Portugal para um segundo plano.

No entanto, o último ano voltou a mudar o contexto e as relações bilaterais estão de novo na mó de cima. Em maio soube-se que Manuel Vicente ia ser julgado em Angola e não em Portugal, no âmbito da Operação Fizz. Este fator foi o turning point das relações entre os dois países e os quatro encontros que António Costa manteve com o sucessor Chefe de Estado de Angola no último ano serviram para solidificar a confiança entre ambos. A visita de dois dias de António Costa a Angola, que terminou esta terça-feira, foi o ponto final de uma viragem diplomática que pretende voltar a unir Lisboa e Luanda como capitais irmãs. Globalmente positiva, esta visita ficou também marcada por momentos menos positivos.

Os altos. O fim do “divórcio temporário”

A viagem foi curta e a agenda apertada. No entanto, os pontos positivos desta visita de António Costa a Angola podem ilustrar-se através de uma imagem: as declarações que João Lourenço e António Costa fizeram esta terça-feira para concluir a visita, lado a lado. Algo que há pouco mais de um ano parecia tão difícil quanto trabalhoso. Mas esta prova de restabelecimento de relações foi apenas o culminar de dois dias de trabalho, elogios mútuos e acordos bilaterais de cooperação estratégica assinados.

Depois de um dia passado com o ministro dos Negócios Estrangeiros angolano, as manifestações de esperança e de confiança nesta visita por parte dos dois países começaram logo nos primeiros momentos. 24 horas depois, as duas partes concretizariam esses votos de esperança e materializavam-nos em acordos e em palavras de conciliação.

Logo na manhã desta terça-feira, o Jornal de Angola, visto como a voz do regime angolano, fez questão de sublinhar a importância desta visita e de deixar claro que a má fase que as relações entre os dois países atravessaram já terminou. O diário apelidou de “divórcio temporário” o impasse gerado em torno do caso de Manuel Vicente. E declarou o seu fim.

“Isto é bom para Angola, tanto quanto para Portugal, sendo igualmente importante reter o facto de a gestão do que as autoridades lusas consideravam como ‘irritante’ ter sido feita sem o agravamento das relações bilaterais”, escreve o jornal angolano. “Para o passado, ficam assim situações que melhor poderão ser remetidas a historiadores, pesquisadores e estudantes”, acrescenta.

O editorial serviu ainda para antecipar aquilo que seria o segundo e último dia da visita de António Costa. “É oportuna a assinatura de acordos que venham incidir na inviabilização da evasão fiscal, que contribuam para o combate contra a corrupção, entre outros como deverá suceder, em princípio, com a rubrica do compromisso para evitar a dupla tributação”, vaticinou ainda o editorial.

No fim do segundo dia, já de fato e gravata e ao lado de João Lourenço, António Costa mostrava-se feliz pelos “onze acordos assinados pelos governos de Angola e Portugal”. O primeiro-ministro dá especial destaque ao alargamento da linha de crédito e uma convenção para evitar a dupla tributação. Provas de “dinamismo e vitalidade das relações entre os dois países”, lê-se na conta oficial de Twitter do primeiro-ministro.

Tanto João Lourenço como António Costa fizeram várias referências ao facto de se assistir “a uma nova fase” das relações, lembrando os sinais que os dois países deram de confiança e restabelecimento do normal funcionamento diplomático das relações bilaterais. E só de raspão referiram o mal-estar nas relações bilaterais devido ao caso Manuel Vicente.

Os baixos. As jeans e o elefante na sala

Quando nos pontos negativos de uma viagem diplomática se pode incluir uma polémica que envolve o dresscode a análise que se pode fazer é tendencialmente positiva. No entanto, e apesar de não ser um fator que cause qualquer incidente diplomático, o facto de António Costa ter chegado a Luanda com um blazer, jeans, mocassins e sem gravata não passou despercebido e chegou até a ser alvo de críticas em editoriais de jornais portugueses.

O traje informal que o primeiro-ministro utilizou na chegada, enquanto era recebido por militares angolanos, foi rapidamente associado a uma falta de respeito institucional para com Angola nas redes sociais. As críticas chegaram ao próprio António Costa que, através de uma fonte governamental, esclareceu ao Observador que esta não foi uma chegada com honras militares, mas sim uma “chegada informal”.

A fotografia do primeiro-ministro ao lado do ministro dos Negócios Estrangeiros angolano, Manuel Domingos Augusto, foi sobejamente partilhada mas pouco ou nada interferiu na visita de António Costa, que publicou a fotografia nas suas redes sociais, utilizando-a para reforçar a confiança na melhoria das relações diplomáticas entre os dois estados.

Um pouco mais difícil de ignorar foi um outro assunto que o primeiro-ministro, apesar das tentativas de chutar para canto, não conseguiu calar: a recondução ou não de Joana Marques Vidal na Procuradoria-Geral da República. Ainda para mais, a PGR foi a responsável última pelo desfecho dos procedimentos judiciais relacionados com Manuel Vicente.

Sucessivamente questionado sobre o tema, o primeiro-ministro remeteu para o fim da viagem qualquer comentário. No entanto, a dúvida ia crescendo e o burburinho em Portugal não cessava. A tentativa de não comentar assemelhava-se cada vez mais a um adiamento forçado de uma declaração que o primeiro-ministro terá, mais tarde ou mais cedo, de fazer.

O elefante na sala ia crescendo, e ia empurrando o primeiro-mnistro para a porta de saída. A viagem terminou sem que António Costa falasse sobre o tema. A ideia do primeiro-ministro era certamente a de evitar comentar as notícias que marcaram o fim-de-semana e que davam conta de que Joana Marques Vidal já tinha mostrado disponibilidade para aceitar um novo mandato em conversa com o Presidente da República. Mas o efeito foi o contrário, e o silêncio do chefe de Governo tornou mais urgente uma reação. À chegada, esperam-se novidades.

Fonte: Observador

 

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