
Caracas era ontem uma metrópole estranhamente calma, sem o habitual trânsito a encher as avenidas ou as multidões a andar nos passeios. O mais longo apagão eléctrico na história da Venezuela paralisou o país, que passou o dia privado de serviços públicos, como escolas, hospitais e transportes públicos. Num clima de forte polarização política, a crise energética apenas vem tornar tudo mais inseguro.
A capital começou a ficar sem electricidade por volta das 17h de quinta-feira (mais cinco horas em Luanda), deixando a cidade de seis milhões de habitantes à beira do caos. O metropolitano deixou de funcionar precisamente à hora em que a maioria das pessoas saía dos seus empregos, obrigando milhares de pessoas a percorrer quilómetros a pé, descreve o jornal venezuelano El Nacional. O trânsito rodoviário também se ressentiu pela ausência de luz nos semáforos.
O aeroporto internacional Simón Bolívar, em Caracas, também foi afectado e a maioria dos voos foi cancelado. Com as fronteiras terrestres com a Colômbia e o Brasil também parcialmente encerradas por ordem do Governo desde a semana passada, a Venezuela ficou em isolamento.
A falta de energia também impossibilitou em várias zonas do país o recurso a pagamentos electrónicos, vitais para muitas pessoas. Com a inflação galopante, a maioria da população passou a pagar quase todas as suas compras através de cartão bancário para fazer face à flutuação dos preços, explica o El País.
Os apagões são um problema crónico na Venezuela, que, apesar de ter as maiores reservas de petróleo no mundo, tem problemas estruturais na rede eléctrica, agudizados com a falta de investimento e de manutenção causada pela profunda crise económica no país. Mas este apagão foi o mais grave de sempre, de acordo com a imprensa local.
Pelo menos durante mais de 20 horas não houve electricidade em 23 dos 24 estados do país, e ontem, apesar de algumas melhorias, a situação manteve-se. O Governo decidiu encerrar as escolas e concedeu um dia de licença aos funcionários públicos, “para facilitar os esforços para a recuperação do serviço electrico”, disse a vice-presidente, Delcy Rodrigues.
Politização do Apagão
Enquanto os venezuelanos tentavam organizar as suas vidas entre o caos do trânsito e a insegurança da escuridão, Governo e oposição não perderam tempo para politizar a crise. O Presidente, Nicolás Maduro, disse que o apagão foi um acto de “sabotagem” e a sua vice disse mesmo que o país estava a ser “vítima de uma guerrilha eléctrica imperialista”.
O ministro da Comunicação, Jorge Rodrígues, apontou um culpado: o senador dos EUA Marco Rubio, um dos maiores defensores da linha dura contra o regime de Maduro. O senador republicano da Florida optou por dar uma resposta irónica, pedindo “desculpa” ao povo venezuelano. “Devo ter carregado no sítio errado na app de ‘ataques electrónicos’ que descarreguei da Apple. Erro meu “, escreveu no Twitter.
O presidente da Assembleia Nacional, Juan Guaidó, que se declarou Presidente interino em Janeiro, atirou as culpas para Maduro, a quem chama “usurpador”. “A Venezuela sabe que a luz chega com o fim da usurpação”, afirmou.
Nos últimos anos, a Venezuela tem sofrido falhas de energia eléctrica frequentes, coincidentes com a crise económica. Porém, sem nunca ter fornecido provas, o regime de Maduro insiste na tese da sabotagem dos seus opositores e há vários meses que as Forças Armadas receberam ordens para guardar as instalações de produção e distribuição eléctrica.
Para hoje estão marcadas novas manifestações convocadas pelo Governo e pela oposição, em mais um teste para medir a força e o apoio das facções que disputam o poder na Venezuela.
Fonte: PÚBLICO.