Aprendendo sobre o feminismo com os meus filhos

O feminismo é um movimento social que defende a igualdade de direitos e deveres entre homens e mulheres. Igualdade de oportunidades de emprego em todas as áreas, igualdade de salários em cargos iguais, igualdade de deveres nos trabalhos domésticos, igualdade da liberdade de se expressar, vestir, comer, sentir, errar, julgar, perdoar, respirar (lol) etc…

Apesar dessa igualdade soar lógica nos meus pensamentos, não foi antes de 2014, quando ouvi o discurso da Chimamanda Ngozi’s sobre o feminismo  (we should all be feminists), que comecei pela primeira vez a pensar com seriamente sobre o que o feminismo defende e o que isso representa para mim.

Gostaria eu de dizer, aqui agora, que o discurso da Chimamanda foi um “wake up call”para mim, para aprender mais sobre o feminismo. Não obstante, eu estava surpreendida com a quantidade de “mas” que eu tinha contra muitos argumentos apresentados por ela. Hoje não me orgulho disso, mas lembro muitas vezes ter debatido sobre o assunto, onde por exemplo eu defendia a desigualdade das tarefas domésticas entre homens e mulheres, com argumentos “magros” do género: “faz parte da nossa tradição, não é romântico etc.”. Ou então das vezes em que defendi o facto da infidelidade masculina ser mais aceitável do que a infidelidade feminina (ridículo, eu sei). Mas essa seriedade não demorou muito, com o tempo acabei por me esquecer do assunto.

Porém, depois que o meu filho fazer 4 anos vi-me “obrigada” a voltar a pensar no feminismo com mais seriedade. Na altura, a minha filha mais velha tinha 6 anos. Bom, apesar de desenvolver uma relação diferente com cada um dos meus filhos (sim, porque esta relação depende da forma de ser de cada um deles), é fundamental para mim que a forma como eu os educo seja igual e justa para ambos. Ou seja, que tenham todos os mesmos direitos e deveres. Mas, uma coisa é ter isso como um fundamento e outra coisa é aplicá-lo verdadeiramente. Já diz o ditado: “é mais fácil falar do que fazer”. No entanto, antes que me tivesse apercebido, estava eu a fazer diferenças com base no género na educação deles. Graças a Deus, as crianças são por natureza sensíveis a injustiças e a minha filha definitivamente não é nenhuma excepção. Sendo assim, não demorou muito tempo para que ela me confrontasse com perguntas:
– O meu irmão pode fazer certas coisas e eu não?
– Porque é que tenho de ser ter eu a fazer certas coisas e o meu irmão não?

Lembro-me de uma ocasião, em que, como é normal, exigi à minha filha que tirasse o seu prato da mesa, mas não o fiz com o meu filho: “porquê que eu tenho que tirar o meu prato da mesa e ele não?“. Perguntou imediatamente a minha filha e eu pensei: “porque tu és menina e ele é rapaz”. Obviamente que a razão podia ser uma outra qualquer, mas aquela foi a única razão que me veio à cabeça. Felizmente sou consciente o suficiente para não o dizer em voz alta e em vez disso, surpreendi-me a gaguejar sem ter uma resposta lógica para a dar. Pus-me a pensar e odiei a ideia de que estava “quase” a educá-los com o mesmo machismo com o qual fui criada, onde as meninas DEVEM mais e PODEM menos que os meninos. Eu detestava essa ideia de estar a educar os meus filhos da mesma forma me atormentou.

Finalmente comecei a entender a quantidade dos meus “mas”, quanto ao discurso da Chimamanda em 2014. A verdade é que a quantidade daqueles “mas” deviam-se ao facto de eu ser muito mais machista do que imaginava. E pensar que podia educar os meus filhos com com igualdade de direitos e deveres sem antes estar bem consciente deste facto e das suas consequências, era muita ingenuidade da minha parte.

O feminismo não é o contrário do machismo (o contrário é femismo), mas é difícil dar uma educação aos nossos filhos com base na igualdade de géneros, quando não somos feministas e grande parte do nosso ser é ainda machista. Isso porque enquanto o feminismo defende a igualdade entre géneros, o machismo a recusa. Reconhecer o quanto eu era machista obrigou-me a fazer uma retrospectiva sobre a maneira como eu educava os meus meninos e a minha filha.

Surpreendi-me com o machismo que existia nessa educação e no quanto isso era contraditório com o que eu queria para a educação deles.

Hoje ainda não posso afirmar que sou feminista, concordo plenamente com a Chimamanda: WE SHOULD ALL BE FEMINISTS (DEVÍAMOS TODOS SER FEMINISTAS). Obviamente que quando se foi a vida toda machista, ser feminista não acontece de um dia para outro. Para mim é uma luta diária. Hoje, apesar de pensar diferente, ainda não consegui deixar de sentir que não é “romântico” o marido estar a limpar o chão, enquando a mulher está no cadeirão relaxada a ver TV. O que é patético, principalmente sabendo que para a maior parte das famílias o contrário acontece diariamente. Mas estou determinada a mudar de mentalidade e educar os meus filhos de maneira diferente.

A igualdade de géneros devia ser indiscutível. Os meus filhos fazem-me aperceber que o feminismo é uma necessidade. Na verdade todos nós nascemos feministas mas, a sociedade torna-nos machistas, partindo da educação que recebemos das nossas casas desde pequeninos. E esse machismo tem consequências graves na sociedade. Criamos mulheres “rambos” mas, obrigadas a serem submissas e homens com egos maiores do que podem sustentar. Como consequência aumentam as frustrações, aumenta a violência doméstica e formamos famílias disfuncionais onde todos saímos a perder.

Portando se quisermos que o futuro seja diferente, acho que devemos começar por educar os nossos filhos com todos os direitos e deveres com os quais educamos as nossas filhas.

Espero que tenham gostado do artigo e não se esqueçam de sonhar e lutar sempre para a realização dos vossos sonhos.

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