As Elites angolanas e a sua responsabilidade

Sabemos todos nós que o MPLA tem no seu seio, ou como simpatizantes, indivíduos de grande craveira intelectual e formação académica. Estão em todos os sectores da vida nacional.

Contudo, há já uma elite que, embora ligada ao MPLA, começa a ter uma certa autonomia, (pelo menos tem condições para pensar pela sua própria cabeça!…) Então, porque é que ela não vai mais longe na crítica e, sobretudo, na apresentação de propostas?

O que sucede é que a força centrípeta do poder é enorme, e são grandes as benesses obtidas por quem está perto do poder ou a ele colado. Tudo isto tolhe o pensamento e a acção cívica. Tudo isto constitui travões a urgentes mudanças de atitudes.

Todavia há anseios de mudança, originados quer pelo desenvolvimento da sociedade, quer pelo aprofundamento do próprio saber teórico dos membros dessa elite, quer pela evidência do sentido da história. Muitos membros dessa elite sentem, certamente, que é preciso encontrar caminhos que levem ao progresso do país, da sua própria elite e deles próprios como cidadãos.

Para essas pessoas, desde há bastante tempo e agudamente agora, põe-se a questão: o que fazer?
Uma hipótese é defender o statuo quo e colaborar em cosméticas, outra é participar na inovação, podendo ser até a vanguarda dessa necessária inovação.

Na minha opinião, no actual contexto angolano, a responsabilidade maior cabe à elite ligada ao partido no poder. E explico:
– ela falhará no seu papel e trará futuros prejuízos ao país e a si própria se defender o statuo quo, se ela puser travão a uma efectiva renovação do modelo constitucional vigente, impedindo assim que Angola fique dotada com uma constituição de um efectivo estado de direito

– mas essa elite ficaria na história como exemplarmente inovadora se, abdicando dos seus fins imediatistas, tivesse a coragem de facilitar a mudança necessária, ou nela participar ou até ser a motora dessa mudança.

 

No actual momento, cabem responsabilidades imensas às elites de Angola. Todas! Da maneira como agirem haverá dois resultados possíveis:

– ou uma continuidade de métodos de direcção do país que atrofiam a sociedade civil, impedem a sua capacidade criativa e criadora, tudo subordinam à máquina do poder

ou, por propostas e pressão generalizada, conseguir-se um modelo constitucional que garanta a criação e vigência de um verdadeiro estado de direito com benefícios para todos no aspecto económico, social, cultural e de cidadania.

Nas mãos dessas elites está a escolha do caminho. Disso não tenhamos dúvidas.

NOTA: em 2009 escrevi assim, a propósito da discussão sobre e nova Constituição; aqui estão reproduzidas partes desse texto publicado no meu livro ANGOLA – CONTRIBUTOS À REFLEXÃO, Edições Colibri. Nove anos depois, infelizmente, o texto mantém toda a actualidade!!!

Até à próxima.

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