As redes sociais como armas de manipulação política e social

Este foi um dos temas no espaço ” O Mundo em Duas Sintonias ” que partilho três vezes por semana com o colega João Pinto na MFM. Há manobras nas redes sociais que se tornam uma ameaça que os governos querem controlar. Em meados deste ano, o Instituto de Internet da Universidade de Oxford publicou um relatório devastador, analisando a influência que as plataformas digitais estavam a ter nos processos democráticos em todo o mundo. A equipa de pesquisadores estudou o que aconteceu com milhões de publicações nos últimos dois anos em nove países : Brasil, Canadá, China, Alemanha, Polónia, Taiwan, Rússia, Ucrânia e EUA. E concluiu que entre outras coisas que certas contas automáticas podem influenciar processos políticos de importância mundial . Em países como a Rússia e a Polónia grande parte das conversas no Twitter são monopolizadas por este tipo de contas l
O fenómeno da propaganda e da informação falsa não é novo, mas encontrou nas redes sociais o aliado perfeito. É através destas, principalmente do Facebook e do Whatsap, que as fake news se tornam virais, muitas vezes fomentando ideias primárias ou ódios. Graças a um algoritmo que ninguém sabe como funciona, as redes sociais compilam posts e likes e vão sugerindo conteúdos semelhantes aos que já lemos ou de que gostamos . O algoritmo orienta o que vemos e envolve-nos numa bolha, mostrando-nos sempre o mesmo lado das coisas . Em muitos países, as redes sociais são usadas para controlar o debate político e social . Surgem muitas vezes uns ” controladores de serviço ” para intencionalmente contaminar as discussões. Muitos destes ” controladores de serviço ”  criam contas falsas, fazem pedidos de amizade aos visados ou pessoas próximas, com o objectivo de recolher informação e fazer análises em gabinetes especializados ou criados para o efeito.
Estas contas são utilizadas para manipulação política e social ou até mesmo para defesa de interesses corporativos, são ferramentas eficazes para a propaganda on-line e também de campanhas que visam uma desestabilização política e social. Uma só pessoa num gabinete em Lisboa, Paris ou Londres pode criar um exército de “robôs políticos ” nas redes sociais e passar uma ideia ou ilusão de consenso, de descontentamento, de insatisfação ou indignação. Quem se recorda de um jovem socialite nigeriano que aparecia nas redes sociais ao lado de Cristiano Ronaldo, Beyonce, Lebron James, Drake entre outros e fui mencionado como filho do antigo vice-presidente de Angola, Manuel Vicente? Aconteceu também com dois jovens foram indicados nestas mesmas redes sociais como sendo filhos dos políticos Salomão Xirimbimbi ou de Mawete João Baptista e que as fotos se tornaram virais.
Segundo a Marktest, quase um milhão e meio de portugueses lê notícias nas redes sociais ( não tenho os dados de Angola). Deixou de haver intermediação entre o público e a informação. Erros, rumores, boatos, manipulações sempre existiram, a diferença é que agora o guardião ” gatekeeper”, o jornalista que separava a verdade da mentira e decidia o que devia ser publicado, perdeu poder. O jornalista que separava a verdade da mentira, tem vindo a perder poder e influência, hoje já não tem o monopólio da informação/comunicação. Vivemos numa sociedade com muita informação e, ao mesmo tempo, muito desinformada. Não há maneira de controlar, pois o acesso a tanta informação, em especial para quem não estava habituado, torna mais difícil distinguir o real do falso.
A propaganda informática é hoje uma das ferramentas mais poderosas contra a democracia. É preciso que não se criem conflitos entre a democracia e as redes sociais, sendo importante que ambas coabitem. A manipulação política e social  nas redes sociais é tema de grande preocupação dos governos mundiais . Basta ver os casos da eleição de Trump nos EUA ou então de Brexit no Reino Unido. Durante a campanha eleitoral na Alemanha, 7 das 10 notícias mais virais sobre Angela Merkel eram falsas. Nas eleições em França cerca de 30 mil contas falsas foram identificadas e removidas . Já há mesmo que aposte na auto-regulação, quem acredite que deve haver um órgão de supervisão de algoritmos ou censura de determinados conteúdos. Recentemente em Angola se discutiu a necessidade de se criminalizar certos conteúdos ou matérias difundidas nas redes sociais.
Outra situação que é preocupante e já tem sido verificada com frequência no caso angolano, é a utilização de perfis falsos sofisticados que são operados por humanos e que possuem a aparência de uma conta genuína. Estes expedientes que começam já a ser utilizados em Angola e que atingem o auge nos períodos pré-eleitoral, durante as eleições e até mesmo no período pós -eleitoral. Há indivíduos que têm a missão de difundir assuntos/ temas, atacar pessoas ou ideais para simplesmente desviar o foco do debate, no caso de temas incómodos . Estes perfis sofisticados, directamente operados por humanos, estabelecem vínculos com pessoas reais, participam de debates em longos períodos de tempo e iludem-nos com toda a aparência de uma conta genuína . Eles agem de forma coordenada e estratégica, tendo mesmo a capacidade de se transformarem em ” assunteiros virtuais “, simulam uma onda de opiniões espontâneas que depois ganham adesão de pessoas reais .
Hoje há agências de marketing digital, serviços de segurança, informação e inteligência, órgãos de comunicação de partidos políticos em Angola, que possuem funcionários dedicados a isso. Administram cada um diversas contas simultaneamente nas redes sociais e criam grupos de debates no Facebook e Whatsap para controlar, gerir e trabalhar a informação recolhida . Há quem fale da existência de estruturas do género no extinto Grecima, nos departamentos de comunicação dos principais partidos políticos, em grupos de pressão ou lobbies ( muitos até a agirem do exterior do país, mas com foco e acção bem orientados para Angola). Estes chamados ” manipuladores de pessoas” passam o dia  a desenvolver os perfis e vão estabelecendo interacções e vínculos com pessoais reais, além é claro de comentarem e postarem segundo certas estratégias. Durante a campanha eleitoral em agosto deste ano foi muito visível a actuação destes ” manipuladores de personas ” .  A estratégia principal é a de passar uma informação ou então desinformar. Um dado curioso é acção de muitos agentes governamentais angolanos nas redes sociais não é o de fazer propaganda, mas sim de desviar estrategicamente o foco do debate público quando um tema incómodo surge. Nada como criar um caso atrás do outro, já que as massas têm memória curta. É muito fácil transformar um ” não-problema ” num ” grande problema ” , basta movimentar as tropas virtuais e agitar a sociedade com este assuntos e aguardar que os órgãos tradicionais como as televisões, rádios , jornais ou plataformas digitais mordam ” a isca” e tudo saí como planeado.
Hoje a mídia social mudou a natureza da comunicação política, substituindo a lógica das massas ( na qual há receptores passivos e um centro emissor), para uma lógica distribuída, na qual todo o mundo interage, ainda que de forma assimétrica. Neste mundo de jogos e interesses , lutas , guerras e intrigas, com partilha constante de textos anónimos para grupos e pessoas previamente seleccionadas, onde é preciso manipular a nossa percepção do que pensam as pessoas ao nosso redor. Infelizmente, as redes sociais são hoje o ecossistema perfeito e preferencial destas manipulações e das fake news. Não quero aqui abrir um capítulo ou uma frente de guerra contra as redes sociais, pois penso não ser este o caminho e não seria um bom contributo para a discussão e clarificação do tema . O que sugiro é que estejamos atentos quando estabelecemos certas amizades virtuais, que estejamos atentos a filtrar, a confrontar e evitar partilhar ou espalhar certas inverdades, ou calúnias. Ou seja, que estejamos atentos e evitemos ser a parte menor de um combate maior de interesses políticos e corporativos . Que sejamos ( mesmo sem querer ou saber) parte de um bem orquestrado jogo de manipulação social e política.
Era só isso . Fica a dica !

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