Associação M27 saúda palavras de João Lourenço sobre “Caso 27 de Maio”

Num comunicado enviado ontem à agência Lusa, em Luanda, a Associação M27, de que fazem parte 15 membros, entre eles João Van-Dúnem e Rui Tukayama, “órfãos” dos acontecimentos que se seguiram à alegada tentativa de golpe de Estado liderada por Nito Alves, salienta a “abertura” do Governo de João Lourenço em “responder aos diversos apelos das famílias e de vários estratos da sociedade”.

“Depois do silêncio a que esteve submetido o “dossier 27 de Maio de 1977″, é com grande satisfação que, nas últimas semanas, temos acompanhado a tomada de posição pelo Governo Angolano em diferentes pronunciamentos, especialmente do Chefe de Estado e do Ministro da Justiça, denotando abertura e vontade de responder aos diversos apelos das famílias e de vários estratos da sociedade para conferir um tratamento digno a tão sensível e doloroso assunto”, lê-se no documento.

Na sequência dessas tomadas de posição, os 15 membros adiantam ser agora “oportuno tornar pública a Associação M27, criada no seguimento da Carta dos Órfãos de Maio de 1977, uma missiva enviada em Maio de 2017 ao então Chefe de Estado José Eduardo dos Santos e recebida, na altura, com o mais absoluto silêncio”.

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A Associação M27, criada em Janeiro de 2018, não tem fins lucrativos e visa “fazer luz sobre um dos períodos mais negros e traumáticos da História de Angola após a independência, assim como devolver a dignidade perdida e o bom nome às vítimas deste trágico acontecimento e às respectivas famílias”.

No documento, a associação saúda as palavras recentes do Presidente da República, João Lourenço, sobre a necessidade de se “reparar as feridas profundas que ficaram nos corações de muitas famílias”.

“Passados 41 anos, acreditamos que está a ser trilhado um novo caminho para o diálogo e pacificação da sociedade. A Associação M27 manifesta a sua total disponibilidade para se juntar a esse espaço de diálogo”, termina o documento.

A 18 deste mês, o Governo angolano reconheceu, pela primeira vez, que, após a alegada tentativa de golpe de Estado de 27 de Maio de 1977, registou-se um “cortejo de atentados aos Direitos Humanos”, considerado-o “um dos mais relevantes” da História do país, no “draft” da “Estratégia do Executivo de Médio Prazo para os Direitos Humanos 2018/2022”, elaborado pelo Ministério da Justiça e dos Direitos Humanos.

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A 27 de Maio de 1977, há 41 anos, uma alegada tentativa de golpe de Estado, numa operação aparentemente liderada por Nito Alves ( ministro do Interior desde a independência nacional até Outubro de 1976), foi violentamente reprimida pelo regime do então Presidente da República Popular de Angola, António Agostinho Neto.

Seis dias antes, a 21 de Maio, o MPLA expulsara Nito Alves do partido, o que levou o antigo ministro, com vários apoiantes, a invadirem a prisão de Luanda para libertar outros seus simpatizantes, assumindo, paralelamente o controlo da estação da Rádio Nacional de Angola (RNA), na capital.

As tropas leais a Agostinho Neto, com o apoio de militares cubanos, acabaram por restabelecer a ordem e prenderam os revoltosos, seguindo-se, depois, o que ficou conhecido como “purga”, com a eliminação das facções dentro do Movimento Popular de Libertação de Angola (MPLA), em que foram mortas cerca de 30 mil pessoas, na maior parte, sem qualquer ligação a Nito Alves, tal como afirma a Amnistia Internacional (AI) em vários relatórios sobre o assunto.

Entre os milhares terão morrido naquele dia e nos seguintes na sequência da resposta do regime angolano, entre eles o próprio Nito Alves, Bakaloff, Jacob João Caetano “Monstro Imortal”, bem como José Van-Dúnem (um dos líderes da alegada intentona) e a sua mulher, Sita Valles, pais de João Van-Dúnem .

Durante a sua visita de Estado a Portugal, na semana passada, o Presidente da República, João Lourenço, assumiu que o 27 de Maio de 1977 “é um dossiê delicado”, porque “naquela ocasião Angola perdeu alguns dos seus melhores filhos”.

“O Estado angolano já reconheceu em diversas ocasiões, a última das quais muito recentemente, há dias atrás, na voz do ministro da Justiça e dos Direitos Humanos, (…) ter havido excessos por parte do Governo naquela altura e estamos abertos ao diálogo para vermos de que forma, não obstante terem passado décadas deste triste acontecimento, como podemos reparar as feridas profundas que ficam nos corações de muitas famílias”, concluiu o chefe de Estado.

Fonte : Lusa.

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