Dia 4: Caminhando ao encontro da Arte e Cultura

Depois de dois dias de intensa actividade cultural, académica e literária na Universidade de Florença, a quarta-feira, 07, foi um dia para passear pelo centro de Florença. Foi o dia de caminhar ao encontro da arte, cultura e arquitectura. O José Mesquita, um angolano que vive cá há 18 anos foi o meu guia turístico nesta interessante viagem.
A primeira paragem foi num largo defronte ao edifício onde funciona uma espécie de câmara municipal da zona. O edifício foi no passado residência dos Médici ( a sua construção foi orientada e paga por eles), e logo ali no largo há uma série de estátuas. Diferente dos outros membros da nobreza na Europa, os Médici viviam mesmo junto da população. Eles além de terem sido grandes mecenas, além da visão cultural e intelectual,  também acabaram por criar uma interessante relação de proximidade e convivência com a população de Florença. Algo que desperta atenção de muitos turistas são as grandes estátuas de homens nus. É ainda mais interessante perceber a nudez que chegava através da arte. O corpo humano nu nestas esculturas pré-históricas.
A nudez através da arte foi um dos motivos mais explorados por artistas, o tema serviu muitas vezes para quebrar tabus em diferentes épocas. Ainda hoje, o corpo humano nu causa controvérsia. O corpo humano nu é um dos motivos mais retratados e antigos na história da arte. A nudez é um dos temas base da arte. Enquanto na Idade Média a nudez era tolerada apenas em determinados motivos religiosos, como Adão e Eva, durante o período clássico ou no Renascimento (que teve em Florença um dos seus principais centros), a nudez representou ideais de beleza e de força. No período do Renascimento, o estudo do corpo humano também passou a ser um dos pontos centrais na formação dos artistas.
No século 19, o desenho do nu era matéria obrigatória nas academias de arte. Ainda na segunda metade do século 19, a representação do corpo nu alcançou o seu auge, com os impressionistas Édouard Manet, Edgar Degas e Pierre-August Renoir que inspirados em períodos anteriores e em obras de artistas como Botticelli (o nascimento de Vênus de 1484), Michelangelo (David de 1501), Rafael (As três Graças de 1504) entre outros. A representação do corpo nu nem sempre foi apenas uma consagração a padrões de beleza e, em determinados momentos, serviu para quebrar tabus. Em 1430, Donatello apresentou ao mundo a escultura de bronze de David, onde um jovem nu pisava a cabeça de Golias. Essa obra era uma provocação, porque tinha claramente um fundo homoerótico. Exposto ou não como provocação, o corpo humano nu causou sempre protestos ao longo da história.
Ainda me recordo da polémica social e cultural que foi a estátua de uma mulher nua em Luanda, a Mwana Pwó . Ter a escultura de uma mulher nua causou um grande debate na sociedade luandense, sendo que a estátua foi mesmo retirada (estava situada nas imediações do Aeroporto Internacional 4 de Fevereiro). Ver aqui em Florença os tipos retratados em estátuas com as “kiungas” ao léu, é reflectir sobre a arte que se expressa através da nudez. Como estar nu é estar despido, é a arte despida de preconceitos ou tabus. É a arte dura, pura e …nua.
Continuando a tal caminhada, fui “se dar encontro” com esculturas que representam as tais grandes figuras da época. Estátuas imponentes de Dante Alligheri, Leonardo da Vinci, Galileu Galilei, Michelangelo Buonarroti, Francesco Redi, Paolo Mascagni, Andrea Cesalpino, Francesco Petrarca, Americo Vespúcio e outros, estão na rua com intensa e interessante actividade artística. Existem vários artistas de rua a pintarem ao ar livre, bem como estudantes de belas artes em momentos de aulas práticas. Foi um interessante monólogo que fui tendo com cada uma dessas figuras retratadas nas tais estátuas. Foram muitas questões colocadas aos homens que no passado questionaram o seu mundo e, que foram atrás de várias respostas. E eu também lhe fiz várias perguntas mesmo sem obter respostas. Queria saber o que eles acham do mundo hoje ? O que acham de Trump, Salvini e Bolsonaro? E a União Europeia? O Brexit ? A Inteligência Artificial ? As redes sociais ? E as fake news ? Tudo perguntas colocadas aos tipos que através do seu trabalho ajudaram a perceber melhor o mundo. Certamente, teríamos respostas interessantes .
A PONTE DAS JÓIAS, DOS CADEADOS E DA BANCARROTA
A caminhada seguiu até a Ponte Vecchio (Ponte Velha), que é uma ponte em arco medieval sobre o rio Arno, aqui em Florença. Ela é famosa por ter uma quantidade de lojas ( principalmente ourivesarias e joalharias) ao longo de todo o tabuleiro. Acredita-se que tenha sido construída ainda na Roma Antiga e era originalmente de madeira. Foi destruída pelas cheias de 1333 e reconstruída em 1345, com projecto de autoria de Taddeo Gaddi. Desde sempre alberga lojas e mercadores, que mostravam as mercadorias sobre bancas, sempre com a autorização do Bargello (a autoridade municipal daquele tempo). Diz-se que a palavra Bancarrota teve origem aqui nesta ponte velha. Quando um mercador não consegui pagar as dívidas, a mesa (banco) era quebrada (rotto) pelos soldados. Essa prática era chamada Bancorotto. Interessante ? Pois, a Ponte Velha hoje com as lojas de luxo, já foi a ponte da Bancarrota.
Durante a Segunda Guerra Mundial, a ponte não foi danificada pelos alemães e acredita-se que tenha sido uma ordem directa de Hitler. Existem outras pontes ao longo do percurso do Rio Arno, mas nenhuma tem a importância histórica da Ponte Velha. Ao longo da ponte, há vários cadeados, especialmente no gradeamento em torno da estátua de Benvenuto Cellini. O facto é ligado à antiga ideia do amor e dos amantes : ao trancar o cadeado e lançar a chave ao rio, os amantes tornavam-se eternamente ligados. Graças a essa tradição e ao turismo desenfreado, milhares de cadeados tinham de ser removidos com frequência, estragando a estrutura da ponte. Devido a isso, o município estipulou uma multa de 50 euros para quem for apanhado, em flagrante, a colocar cadeados na ponte. Existe uma referência à ponte e ao Rio Arno na famosa ária “O Mio Babbino Caro”, da ópera Gianni Schicchi de Giacomo Puccini .
O meu amigo José Mesquita “Zequinha”, ficava deslumbrado quando me ia contado as histórias da cidade e, enquanto eu ia anotando tudo num bloco de notas. O dia terminou com um encontro da Turma da Carga Pesada ( foi o nome que dei ao meu grupo de amigos de Florença), na Enoteca Fratelli Zanobini, do amigo Mario Zanobini. É o momento para amena cavaqueira, para “chupar” um bom vinho e ser apanhado em flagrante “delitro” pelos paparazzi . Foi também um momento para me despedir do amigo e professor português, Francisco Cortez Pinto e dos amigos italianos de Florença . Os encontros na adega do Zanobini são sempre “regados” de muita história e cultura. São momentos de pura convivência multicultural. Entre apertos de mãos e abraços, fica a próximo de um retorno em breve . A Turma da Carga Pesada voltará em conta, peso e medida.
Cada dia é dia de descobertas, de novas paixões culturais e emoções. O jornalista angolano que circula por Florença com mochila às costas, caneta e bloco de notas na mão, é já mesmo um …Italiano Vero.
Até amanhã!

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