Conversas privadas e público confronto de ideias

Na história de todos os países houve e há momentos em que as pessoas se conformam com as arbitrariedades do poder, ou a exploração das classes abastadas, ou as precárias condições de vida, ou a falta de liberdade. São rejeitados ou não são ouvidos os poucos indivíduos que têm consciência da situação e pretendem mudanças que tragam melhorias e progresso.

Contudo, quando se torna muito gravosa a situação económico-social ou a repressão, as pessoas começam a ansiar por mudanças no seu quotidiano e melhores perspectivas do futuro. Vai engrossando o número de indivíduos que se tornam conscientes de que é necessário mudar e, por outro lado, eles já não são ostracizados e passam a ser ouvidos. É neste processo dialéctico que nascem os momentos para a mudança.

O que se está a passar em Angola é exemplo claro do que acima se diz. Os cidadãos em geral e parte da elite do país entendem que deve haver profundas mudanças no modo de governar e nas relações do poder político com os cidadãos, na moralização da vida pública, na escolha de medidas económicas e sociais diferentes daquelas que vigoravam.

Este crucial momento angolano de esperança na mudança requer o envolvimento dos cidadãos, sobretudo os mais lúcidos, requer a discussão pública dos problemas. Todavia há obstáculos para uma acção consequente de mudança porque persistem os reflexos adquiridos por populações e intelectuais logo nos primeiros anos da independência, sob a ditadura então implantada, a qual se transformou em regime autoritário desde 1992, mesmo se pluripartidário e formalmente democrático.

Verifica-se que há inúmeras conversas privadas nos mais variados meios mas poucas discussões públicas organizadas pelos diversos sectores da sociedade civil. Em certos meios de gente com responsabilidades académicas, económicas, culturais, sociais e políticas há pequenos grupos que, em prolongados almoços, discutem durante horas problemas sectoriais e do país, aparecendo ideias que, lançadas numa sala com bastante público, dariam um excelente debate e contribuiriam para incentivar as pessoas a pensarem e se mobilizarem para a difusão de ideias úteis à comunidade nacional. No entanto, daquelas conversas em longos almoços nada ficará, a não ser a momentânea troca de ideias e argumentos.

Há outros entraves à mobilização dos espíritos e das vontades para se realizarem as mudanças de que Angola necessita. Refiro-me à dificuldade de congregação de esforços na massa pensante do país, devido a vários factores: exacerbada vontade de protagonismo, espírito de concorrência, ressentimentos pessoais, espírito fechado de grupo (ou seja capelinha), falta de hábito de conviver com as diferenças, arrogância pessoal, intolerância para quem pensa diferente.

Havendo em Angola bastantes académicos e outros intelectuais, põe-se o problema de como eles constituem uma massa crítica pensante. Ou seja, como poderão e saberão actuar em conjunto e desenvolver as mais diversas sinergias para produzir pensamento, programas e projectos de âmbito sectorial ou nacional. Isto implica evitar a dispersão de esforços e de pessoas e saber congregar indivíduos, ideias e vontades. As discussões públicas, os debates em cada sector são meios para atingir estes objectivos.

Para lá dos saborosos convívios em privado, em torno de boa refeição (e que devem continuar porque é um nosso bom modo de estar), será necessário fazer também convívios mais alargados, através de frequentes debates sobre os vários problemas que enfrentamos como cidadãos deste magnífico país que é Angola.

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