Covid-19 e a lavagem das mãos

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Nunca o lavar as mãos, para prevenir infecções por vírus e bactérias, foi tão valorizado pelo mundo, como desde o aparecimento repentino da covid-19.

O surgimento da pandemia do novo milénio, com um raio avassalador de contágio e mortes em massa, faz mudar radicalmente os hábitos e costumes do ser humano.

Numa altura em que a humanidade está à beira do maior colapso já visto desde a II Guerra Mundial e sem soluções imediatas para travar a proliferação deste vírus silencioso, invisível e letal, não resta outro caminho senão a prevenção.

Para “fugir” da pandemia da Covid-19, muitas soluções científicas têm vindo a ser ensaiadas, em laboratórios de referência, mas a cura é ainda só um sonho.

Desprovidos de vacinas para enfrentar o Coronavírus, os governos de todo mundo lutam para escapar de um duro dilema: salvar a economia ou os seus cidadãos?

Diante deste quadro sombrio, torna-se imperiosa a conjugação de esforços, que passam pelo isolamento social e pela permanente higienização individual e colectiva.

É nesse prisma que a lavagem das mãos se afigura uma das melhores e mais eficientes medidas ao dispor da humanidade, nesta luta pela sobrevivência.

A julgar pelos números de casos positivos que se multiplicam pelo mundo, não há dúvidas de que só com essa e outras medidas de bio-segurança, será possível vencer este inimigo comum.  

A desinfecção das mãos com água e sabão, álcool simples ou em gel é, nesta altura, um trunfo a que todos devem recorrer para travar a pandemia. Trata-se de um gesto muitas vezes apontado por especialistas como o mais importante para controlar infecções nos serviços hospitalares, mas nem sempre observado à risca.

Aliás, um breve recurso à história mostra-nos que as manifestações de preocupação com a necessidade de higienização das mãos na assistência médica se iniciaram no século XI, quando Maimonides defendeu a lavagem desses órgãos pelos praticantes de medicina.

Todavia, por vários séculos, esses hábitos não passaram de rituais de purificação, evidenciando-se mais os cuidados com a aparência do que a preocupação com a saúde.

Mesmo em meados do Século XIX, quando Semmelweis produziu a primeira evidência científica de que a higienização das mãos poderia prevenir doenças, esta prática não foi compreendida em sua importância e tampouco aceite pelos profissionais da época.

A relutância ao gesto durou centenas de anos e já teve repercussões graves, num passado mais recente, em Estados endémicos e com deficientes sistemas de saneamento.

É caso para dizer que, durante séculos, a questão da lavagem das mãos e a sua capacidade para prevenir doenças foi ignorada por muitas sociedades, incluindo profissionais de saúde.

Entretanto, desde Dezembro último, altura em que apareceu o coronavírus, o lavar as mãos tem vindo a mudar substancialmente a forma como a humanidade olha para a questão dos cuidados de higiene pessoal e colectiva, particularmente das mãos.

Da Europa à América, de África à Ásia, o lema hoje é lavar as mãos com água e sabão, álcool em gel e ficar confinado em casa, para reduzir o raio de infecções. Apesar da luta comum, o mundo está, efectivamente, em “queda livre”, com economias até então robustas em risco de colapsar. Por mais que não se queira admitir, só restam três caminhos para se evitar a catástrofe mundial: reforçar a desinfecção, sermos disciplinados e descobrir a vacina.

Com o coronavírus, os Estados estão impotentes e quase num beco sem saída, pelo que, diante do cenário de pânico, lavar as mãos de forma contínua e reduzir contactos dos dedos com a boca, os olhos e o nariz são medidas de extrema importância.

Mas, afinal, porquê falar em lavagem das mãos como alternativa de “primeira linha”, quando o mundo está dotado de cientistas e recursos técnicos e científicos de ponta? A resposta é simples: uma vacina para erradicar o novo vírus ainda pode levar algum tempo até ser aplicada em humanos e chegar a todos os cantos do mundo.

Enquanto se ensaiam fórmulas “mágicas” em laboratórios apetrechados, a lavagem das mãos é a principal “arma” dos Estados contra a pandemia.

Não por acaso, a medida tem sido amplamente incentivada pelos governos, e em Angola é uma das principais para contornar a covid-19.

A adopção desta prática tem ainda mais relevância, porque grande percentual de infecções bacterianas pode ser evitada com esse simples gesto, uma vez que a maioria dos micro-organismos está associada à microbiota transitória das mãos.

Dito de outro modo, a microbiota adquirida pelo contacto com pessoas ou materiais colonizados ou infectados, poderia ser facilmente eliminada através de uma adequada lavagem, deixando de ser condição básica para a sua disseminação.  

É certo que, no caso do coronavírus, não só é válida a lavagem das mãos com água e sabão, como podem associar-se outros produtos de higiene para prevenir a contaminação.

A substituição de água e sabão por substâncias à base de álcool também é uma alternativa para diminuir eventuais lesões causadas pela lavagem frequente das mãos.  

Mas como fazer a correcta desinfecção das mãos, para que daí possa resultar um cada vez menor número de pessoas infectadas por covid-19?

Segundo a literatura médica, a desinfecção consiste na fricção manual de toda a superfície (punhos e dedos), com água e sabão, por pelo menos 30 segundos.

Com isso, é possível remover a maior quantidade de microrganismos da microbiota transitória e residente, como pêlos, células descamativas, suor, sujidade e oleosidade, por isso esta é a principal acção para prevenir a transmissão cruzada de microrganismos.

No caso de África, em geral, e de Angola, em particular, a lavagem das mãos com água e sabão torna-se tão importante quanto necessária, dada a facilidade de colocar o sabão nas mãos de todos, incluindo os mais carenciados, ao contrário do álcool em gel.

Mas isso impõe desafios urgentes ao Governo, que precisa de rever em tempo recorde a estratégia de distribuição de água potável, principalmente nas comunidades periféricas.

Afinal, como falar em lavagem permanente das mãos com água e sabão se, pelo país,  milhares de cidadãos continuarem desprovidos desses produtos vitais?

É certo que, no cenário adverso da covid-19, as autoridades do País tudo fazem para distribuir água ao maior número de cidadãos, por via da rede pública ou de cisternas.

Trata-se de uma medida tão necessária, quanto determinante para manter a população protegida e evitar que o vírus penetre em força nas comunidades, por falta de recursos básicos.

Angola tem dado respostas eficientes para conter a proliferação da covid-19, com a adopção de medidas políticas que podem ajudar a confinar o vírus a pequenos grupos. Mas é utópico pensar que, com a escassez de água, seja possível evitar contaminações.  

Diante deste dilema, é imperioso que o Governo redobre esforços para melhorar o abastecimento de água às comunidades e aumente as campanhas de sensibilização para o uso racional do produto, numa altura em que a margem para erros é quase zero.  

O Governo não pode falhar na sua missão de prestar serviços básicos e essenciais ao povo, como medicamentos, alimentos e água potável, para salvar o País da hecatombe.

Só com essa conjugação de esforços, Angola sairá vitoriosa dessa guerra contra o coronavírus, que já infectou 10 cidadãos no País e resultou em dois óbitos.

Nesta fase complexa, o País precisa da união e da solidariedade de todos, e dos meios indispensáveis para a “batalha”. A água é um dos principais recursos desta luta.

Sem estes bens ao dispor dos mais pobres, será impossível desinfectar o corpo e pôr em prática um velho slogan musicado pelo cantor Pedrito do Bié para alertar a sociedade sobre a necessidade dos cuidados preventivos: “Lava lava, lava lava, com água e sabão…”

Por Elias Tumba

Fonte: Angop

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