Dia 2: “Renascer” em Florença

Tenho passado dias ricos de experiência humana e de aprendizado histórico-cultural aqui em Itália. Na curta passagem por Roma tive o acolhimento do Fernando Costa e também do Toy, dois angolanos que são funcionários da Embaixada de Angola em Itália, mas que tiveram a nobreza de tratar da minha passagem por Roma e “despachar-me” para Florença . Foram ambos impecáveis, simpáticos e zelosos. Também não é sempre que recebem em Roma este tal de Salambende Mucari.
O Toy levou-me de táxi até ao terminal de comboios, o “Roma Termini”, onde tinha um comboio para pegar até Florença ( partida de Roma 05:35 e com chegada a Florença 7:07). Foi uma viagem tranquila até a estação de Santa Maria Novella onde já lá estava impaciente o meu anfitrião : Matias Mesquita. A tal estação deve o seu nome a igreja de Santa Maria Novella, local que o meu anfitrião, agora no papel de guia histórico e turístico fazia questão de me explicar. Foi um pequeno tour pela cidade e apreciar a beleza, a majestade da sua estrutura arquitectónica. Florença é um museu aberto, é uma verdadeira lição de arte e cultura. Florença é a pedagogia do conhecimento, a cidade em si, a sua história “encarrega-nos” para uma certa responsabilidade cívica, social e cultural. Estar em Florença cria em mim uma permanente necessidade de escrever, é estar num mundo que passa a ser acessível pelas diferentes narrativas que aqui são partilhadas. Quem visita Florença acaba mesmo por “renascer” , um renascimento cultural, social e humana.
Florença é a terra dos Médici, uma dinastia política italiana do século XIV. A família teve origem na região de Mugello na Toscana e o poder político dos Médici aumentou, até que passaram a governar Florença (embora oficialmente eles fossem apenas cidadãos comuns, em vez de monarcas), da Casa de Médici provieram quatro Papas e a partir de 1531, os Médici tornaram- se líderes hereditários do Ducado de Florença, e em 1569, o ducado foi elevado à categoria de Grão-Ducado após grande expansão territorial, surgindo então o Grao-Ducado da Toscana, governado pela família desde o seu início até 1737, com a morte de João Gastão de Médici. A sua riqueza e influência inicialmente derivava do comércio de produtos têxteis que passava pela guilda da Arte Della Lana. Inicialmente eles eram uma das famílias que dominavam o governo da cidade de Florença, sendo que foram capazes de trazê-la totalmente sob o seu poder familiar, possibilitando um ambiente onde a arte e o humanismo pudesse florescer. Eles fomentaram e inspiraram o nascimento da Renascença italiana, juntamente com outras famílias da Itália , como os Visconti e Sforza de Milão, os Este de Ferrara, e os Gonzaga de Mântua. Os Médici atingiram o seu apogeu entre os séculos XV e XVII com um conjunto de figuras importantes na história da Europa e do Mundo. A linhagem directa dos Médici extinguiu-se em 1737. Além da política e governação, os Médici notabilizaram-se em outros campos, principalmente no mecenato. Um legado importante dos Médici foi deixado na arte e na arquitectura. João de Bicci de Médici, primeiro patrono das artes na família, apoiou Masáccio e mandou construir a Basílica de São Lourenço. Cosme de Médicis foi mecenas de Donatello, a família apoiou também Michelangelo, que para os Médici produziu numerosas obras. Está muito presente a alma e a memória dos Médici por Florença, quer seja na arte, arquitectura ou através da sua história.
Há histórias e pessoas interessantes em Florença. Mario Zanobini é um produtor e distribuidor de vinhos por aqui, gere um negócio de família que data de 1946 e iniciado por seu pai, Gino Zanobini. Desde 1973 que Mario entrou para o negócio da família e já prepara um sucessor: o seu filho Marco Zanobini . Marco é um dos três filhos de Mario Zanobini e o único que trabalha no negócio da família, é hoje aos 29 anos um enólogo com provas dadas na matéria. Eles produzem o seu próprio vinho e experimentei um dos mais famosos da casta familiar, o Chianti Classico Le Lame. A Enoteca Fratelli Zanobini é uma paragem obrigatória para encontrar amigos e ter amenas cavaqueiras. Um local simples, de gente simpática e trabalhadora. É um bom local para ser apanhado em  flagrante “delitro”.
O ENCONTRO CULTURAL E ACADÉMICO EM FLORENÇA
Este também foi o dia para o primeiro dos encontros agendados na Universidade de Estudos de Florença. O meu anfitrião é o professor Francisco Cortez Pinto do Centro de Estudos de Língua Portuguesa da referido universidade. Francisco Pinto é um cidadão português que vive na Itália desde 1983 e lecciona a disciplina de Língua Portuguesa para alunos de diferentes níveis da Universidade de Florença. No primeiro encontro matinal,  falei com um grupo de alunos do primeiro ano que estão a estudar português. Foi uma experiência marcante falar com eles sobre a minha experiência. Falei-lhes do meu trabalho como jornalista e autor, apresentei o livro de crónicas “Riscos e Rabiscos” e fizemos uma sessão de autógrafos. A nossa conversa foi também sobre as diferentes variações, dinâmicas e contextos da língua portuguesa pelo mundo. De tarde estive com outra turma já do terceiro ano também do professor Francisco Pinto, uma turma um pouco maior e também com alunos activos. Escutavam atentamente todas as explicações, sendo que dois encontros, quando necessário lá tinha o Matias Mesquita e o professor Francisco Pinto para a devida tradução. Na realidade foi uma partilha de experiências com perguntas e respostas de ambos os lados. Gosto de estar na academia e promover estes diálogos com elevação, com nível e sapiência . Mais interessante foi por ter sido também um bom diálogo intercultural . Estar com o Dimitri que é um jovem ucraniano que está na Itália a aprender português. Curioso? A Ariana que começou por gostar da “musicalidade” do português falado no Brasil ou até a Frederica que tem um interesse por várias culturas. É magnífico este mundo de saberes, de culturas e valores partilhados ontem na Universidade de Florença. Ficou o compromisso de enviar-lhes livros de diferentes autores angolanos. É preciso mostrar aqui também que há uma Angola que acontece fora de Angola.
Esta tem sido uma viagem com contornos épicos, ou narrativas de sucessivas dúvidas, confirmações, afirmações, supresas e celebrações. Até também de certas “provações e provocações ” gastronómicas. O professor Francisco Pinto já me tem levado a viajar com a barriga e o paladar para o mundo da comida vegetariana. O meu “baptismo vegetariano” foi com um Piatto Toscano : Fagioli ali Uccelleto com Patate Arrosto e Bietola Saltata. Um bom pitéu e bem saudável . E diz o Francisco Pinto: em Florença sê vegetariano.
Florença é arte, é humanismo e conhecimento.  Florença é um local que proporciona espaços de crescimento pessoal e cultural. Florença é um espaço de socialização, um espaço de agregação cultural e de valores . Florença é uma cidade que torna esta permanece necessidade de escrever, que faz com que este “dificílimo acto de escrever” como disse Saramago, se transforme num prazeroso desafio e numa leveza de sentimentos. Em Florença eu sou um…Italiano Vero.
Salambende Mucari em Canto del Tribolo, SS Annunziata em Florença, Itália.

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