“Diário do Fracasso”

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Todos os dias tenho grandes expectativas sobre os meus anseios, as minhas capacidades e os meus propósitos. A cada ano que começa, a cada conquista, a cada nova etapa traço sempre novos projectos e novos desafios, não poderia ser diferente, esta é uma “tragédia” a que todos estão condenados a viver com cada raiar do sol e uns poucos fazer a devida avaliação com o pôr-do-sol.

Sucede-me imensas vezes que ao programar a minha vida e ao fixar etapas condiciono sempre o alcance das metas com a realização de outros desafios, a remoção de determinados obstáculos ou a realização de determinados eventos. É justamente aí que começa o meu fracasso porque ao invés de fazer as coisas acontecer alimento a ansia de ocorrência deste feito e só depois começarei a minha marcha para o triunfo, o que ignoro é que de forma voluntária ou involuntária o evento a que condicionei o início da triunfal marcha não depende de mim, está fora do meu controlo e mais nem sequer sei que a pessoa ou entidade responsável pela sua realização tem algum interesse ou se aquele evento está entre as suas prioridades e daí nasce a mim a paciência de esperar, mesmo conhecendo de cor o “adeus a hora da largada, minha mãe, todas as mães negras cujos filhos partiram, eu já não espero mais, sou aquele por quem se espera”, continuo a esperar e espero.

Espero que o evento aconteça, espero que a minha chance chegue, espero que o ano acabe, espero ter mais dinheiro, espero que seja nomeado e só depois disso é que colocarei o meu plano em marcha. Quando dou por mim passaram-se meses e passou-se o ano e estou com uma mão cheia de planos, de sonhos, de boas intenções, mas só as colocarei em prática quando o evento acontece.

Reparo de lado vejo com saudades os meus colegas noutros patamares e com uma performance e brio de excelência naquilo que resolveram abraçar com todo o entusiasmo e estão felizes. Eu penso comigo mesmo, ISTO NÃO É PARA MIM, EU MEREÇO MAIS, EU NASCI PARA BRILHAR, entretanto o tempo passou, não ganhei nenhuma qualificação, aqueles a quem dizia que estavam a tomar decisões precipitadas alcançaram sucesso e prestigio no que fazem, apartei-me deles porque estão convencidos, pensam que conseguiram alguma coisa, aquilo também é o que? Quem eles pensam que são? Fiquei eternamente a espera da princesa encantada, venha ela em foram de oportunidade de emprego, de acesso ao ensino técnico-profissional ou superior, não interessa vou aguardar que o dia chegará.

De repente já estou fora da idade de acesso à função pública, não tenho nenhuma qualificação profissional nem especialização que me possa dar um ascende a dimensão do sonho que tinha sonhado. Pensei comigo mesmo, tenho de sair desta, vou falar com algumas pessoas que conheço para ver se consigo alguma coisa e ai as pessoas, com boa intenção e disponibilidade em ajudar, perguntam-me o que é que sabes fazer? Queres trabalhar em que? Alguma área específica? Nestas perguntas constantes, mergulho no mais íntimo do meu ser e percebo que não sei nada, e só me ocorre dizer: POSSO FAZER QUALQUER COISA! Imediatamente só tomado por sentimentos confusos: o que é que sei fazer de facto? Em simultâneo, se ele quer ajudar que ajude não precisa fazer perguntas.

Sinto-me triste porque percebi que não me treinei para a vida, APESAR DE TER GRANDES SONHOS E PLANOS PARA MIM CONDICIONADOS A DETERMINADOS EVENTOS FUTUROS, e com algum atrevimento, quando a pessoa é “das intimidades” digo: estou a pensar em fazer uns negócios ou investir em alguma coisa, preciso apenas de dinheiro, só que também percebo que de facto e em concreto não tenho nenhum projecto e nem sei bem em que investir, mas não desisto, os meus planos são bons e nasci para coisas grandes. Numa destas incursões alguém me ofereceu 50.000 Kwanzas, pensei comigo mesmo isto não é nada, alguém é capaz de investir com 50.000 mil, fui pagar uma rodada aos cambas da parada com imensa fé que dias melhores virão.

Entre os amigos na rodada havia um que era licenciado e disse-nos que terminara a FAU sem colocar os pés na biblioteca e sem ter feito nenhum esforço adicional, a FAU não era nada do se dizia era apenas uma questão de decorar umas coisas, copiar outras, que tivesse trabalho buscava na internet, mas só não entendia porque nunca entrava nos concursos públicos, era preciso ter cunha, caso contrário nada feito e até, continuou ele, há aí uns tipos que não estudaram nada e querem entrevistar-te, EU NÃO ACEITO UM GAJO QUALQUER FAZER-ME ENTREVISTA, SOU LICENCIADO e um amigo nosso perguntou-lhe: para além disso, que mais sabes fazer? Respondeu: não é preciso mais nada afinal estudei e tenho canudo e isto basta! Retorquiu o primeiro: na vida é necessário aprender mais coisas, hoje o mercado anda muito instável, por isso, quanto mais qualidades e ofícios melhor.

Respondeu novamente: isto é para quem não tem ensino superior, eu estudei e um dia serei alguém, não vu aceitar qualquer emprego e ainda por cima, qualquer remuneração, era a única coisa que faltava. Esbocei um sorriso e percebi que entre o meu amigo licenciado e eu não havia diferença nenhuma ele tem estudos superiores e eu não e ambos estamos desempegados, afinal devo conformar-me pois não é tragédia nenhuma. Só que veio um outro amigo provocar uma discussão enorme na rodada, segundo ele era um empreendedor, tinha concluído ensino médio, não teve tempo de ir a FAU mas apostou no negócio próprio e a vida corre-lhe bem, tem trabalhado muito, tem sido muito solicitado a titulo de subcontratação por grandes gajos e empresas e disse que era necessário que as pessoas aprendessem com a vida, tivessem iniciativas e nenhuma pretensão de grandeza, mas do que palavras, são necessárias acções práticas e o nosso mercado está fértil em todas as áreas, o problema era apenas a mania de os angolanos quererem ficar ricos rapidamente e pensar que emprego é só onde se usam fatos e gravatas e se tem um patrão.

Todos fomos contra ele, ele não sabia o que estava a dizer, mas parece que o gajo é mesmo ocupado e está de bem com a vida, tem um “ruca”, dama dele tem outro, não saiu da banda, boa casa, a ocupação dele vai ao ponto do “madye” não ter tempo para a família dele, nem aos fins-de-semana, deixou de ir a igreja, epa o gajo está “laifado”.

Essa cena de estar “laifado” e esquecer a família é só que eu não entendo, a dama dele reclama bué, diz que tem tempo para todos incluindo amigas, mas não tem para ela e os filhos, será que o sucesso é inimigo do carinho ou da atenção para a família? Mas ela também não tem de que reclamar porque tem todas as condições no cubico, enfim fiquei distraído e a massa acabou, perdi uma reunião com um tio que me ligou insistentemente na altura que estava a conversar, agora estou a retomar a chamada e ele não atende, sempre soube que ele era muito achado e não ajuda a família e agora tenho provas.

No dia seguinte, um Sábado, fui a casa do meu tio para insistir na ajuda, afinal família é família e orgulho não me levaria a lado nenhum, não o encontrei, estava apenas a minha tia que me perguntou qual era a preocupação e eu expliquei-lhe tudo e ela deu-me um sermão daqueles, do tipo: «vocês os jovens de hoje pensam que as coisas caiem do céu, não é verdade.

O sucesso é resultado de muito trabalho e sacrifício, por isso é preciso ser-se humilde e honesto o suficiente para se poder alcançar patamares melhores, podes ter imensos sonhos e projectos, mas é preciso meter mão na massa e deixa que os outros reconheçam que és bom naquilo que fazes, mas para isso tens de fazer de facto alguma coisa na vida, comece de baixo, sonhe a medida das tuas capacidades e vá crescendo a medida dos teus sonhos, com dedicação, responsabilidade e ousadia, mas faz-te ao largo, comece por algum sitio ou alguma coisa e cresça, treina-te em coisas pequenas e alcançarás coisas maiores, estuda se poderes, se não poderes faça um curso técnico e/ou profissional e comece a desenvolver-te nisto, parado é que não podes ficar.

Falando nisso a minha vizinha precisa de um motorista e na nossa empresa precisam de um moto-boy para fazer de relações públicas, se quiseres envias-me o teu CV e logo se vê…» epa, olhei para a tia, respondi-lhe, está bem tia, vou preparar e enviar e pelo caminho fui pensando: há gente que sabe mandar embora, tantas palavras para que era só dizer vai embora, agora pedir meu CV, eu assim tenho cara de ser motorista ou moto-boy…nunca, eu tenho sonhos e projectos grandes e um dia vou conseguir, Deus vai ajudar-me…enquanto isso estou numa, mas o que me fechou mesmo fui quando ela me disse: «NÃO TENHAS MEDO DE FALHAR PORQUE QUEM NUNCA FALHOU, NUNCA FEZ NADA» não entendi nada, mas estou a tentar perceber isto…

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