Dívidas de Luanda empurram novos projectos do país para Pequim

Consultora Alaco diz que endividamento indexado ao petróleo também traz riscos para a China.

Em setembro do ano passado, quando tomou posse como sucessor de José Eduardo dos Santos, João Lourenço deixou Portugal incomodado ao excluir o país da lista de principais parceiros aos quais pretendia dar primazia num período que prometeu ser de reformas e chamada ao investimento estrangeiro. No topo do capital querido por Luanda estavam afinal, primeiro, os Estados Unidos, e logo a seguir a China – país cujo período de reforma e abertura, no exemplo de Deng Xiaoping, o novo Presidente angolano disse também querer replicar.

Com nova abertura ao investimento prometida – na exploração de petróleo, sector diamantífero, mas também na agricultura e nas infraestruturas – a China poderá ser a grande beneficiada. É o que defende o analista Yigal Chazan, da consultora Alaco, num artigo (conteúdo para subscritores) publicado no Financial Times.

“Numa altura em que João Lourenço vira atenções para a diversificação económica, a China pode ter partido da crescente dívida angolana para garantir maiores participações em projectos ”, afirma.

No blogue do diário económico britânico dedicado ao mundo emergente, o Beyond Brics, Chazan defende que a dívida superior a 21,5 mil milhões de dólares acumulada até ao final do ano passado por Angola junto da China irá facilitar contratos a favor de Pequim – muito à semelhança do que aconteceu em nações do sudeste asiático endividadas como o Paquistão e o Sri Lanka, onde a a China obteve negócios de construção de infraestruturas portuárias em condições extremamente favoráveis.

Os 21,5 mil milhões de dólares referidos representam metade da dívida externa angolana. E a estes poderá somar-se um crédito adicional de 4,4 mil milhões de dólares que está a ser negociado. Além disso, junta-se a condição de haver um abrandamento na produção petrolífera angolana (com menos investimento em função de um período prolongado de preços baixos). Acredita-se que os pagamentos da dívida à China estão também indexados aos custos do petróleo – em tendência de subida desde junho do ano passado, embora com quebras acentuadas em maio, nota Chazan.

O analista refere que as reservas de moeda estrangeira de Angola estariam em fevereiro em apenas 12,8 mil milhões de dólares – um terço do valor registado em 2013.

Mas o nível de endividamento com Pequim traz riscos não apenas para Angola. “Com o acumular de dívidas angolanas, novos empréstimos para a diversificação económica podem empurrar Luanda para mais perto da bancarrota”, alerta o analista da Alaco. “Como o petróleo é usado como colateral no crédito chinês, a atual quebra de produção de Angola, aliada à pressão de crescentes exigências de pagamento, pode abrandar ou interromper o fornecimento à China, o principal mercado do crude angolano”.

Fonte: DV

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