Dizer adeus aos poucos mais ou menos

“Dificílimo acto é o de escrever, responsabilidade das maiores, basta pensar no extenuante trabalho que será dispor por ordem temporal os acontecimentos, primeiro este, depois aquele, ou, se tal mais convém às necessidades do efeito, o sucesso de hoje posto antes do episódio de ontem”, escreveu José Saramago em Jangada de Pedra. Este dificílimo e nobre acto de escrever provoca espaços de crescimento pessoal e de socialização. Em muitos casos mais do que uma “obrigação profissional” acaba mesmo por ser uma responsabilidade cívica e social, há como que uma permanente necessidade de escrever. E hoje tenho de escrever sobre o adeus e momentos de uma trajectória marcante nos últimos cinco anos que teve Portugal como centro do enredo.

Uma das grandes alegrias que a vida nos dá é descobrirmos que, em larga medida, somos nós os autores das nossas vidas. Nestes últimos cinco anos passei dias ricos de experiência humana e de aprendizado histórico-cultural. Foi uma viagem com contornos quase épicos com narrativas de sucessivas dúvidas, surpresas e celebrações. Foram diferentes e interessantes narrativas. Esta segunda longa permanência em Portugal (a primeira foi no período 1980-1985 na cidade do Porto) que teve Lisboa como base fez de mim um verdadeiro “militante cultural” como disse um dia o meu primeiro e único editor em terras lusas, o João Ricardo. As tertúlias, as descobertas, as viagens, a promoção e divulgação de novos títulos e autores.

publicidade

Faça já a sua assinatura: formulário de assinatura
Contactos editoriais: jornalkandandu@gmail.com

Publicidade: vivenviaspress@gmail.com

Cada idade tem os seus desejos, cada idade tem um querer, mas cada querer tem uma época. Sou um narrador que gosta de entrar na narrativa, um narrador que gosta de descrever as narrativas em que se envolve. Foram vários os projectos, as iniciativas, os momentos, as amizades que esta passagem por Portugal me trouxe. Tudo isso fez de mim um “homem distribuído”. Sim distribuído pelos vários saberes, sabores e valores. Uma experiência única, rica e inovadora. É dificílimo escrever sobre estes momentos, sobre as vivências e experiências. Escrever sobre o dia do adeus. Um adeus que queremos adiar mesmo sabendo que um dia irá chegar. É apenas um adeus do ponto de vista físico, mas um alegre “até já” aos amigos e momentos vividos.

Realmente a parte mais dura e difícil é ter de dizer adeus aos poucos mais ou menos a uma rotina criada, as caminhadas na Quinta das Conchas, ao café no Doce Maria, acompanhados de um doce “jornalar”, as tertúlias nos Coruchéus e nas Casas de Angola (Lisboa e Coimbra), as viagens à Madeira e aos Açores, as incursões pelo interior de Portugal. Os pinchos e “azimutes” sobre a nossa Angola aos domingos na Quinta do Mocho, o Metro da linha amarela, o comboio da linha de Sintra, o Alfa Pendular, o passaporte do Adolfo Maria, as “malambas” do Eugénio Costa Almeida , os debates com o Tomás Gavino, os sonhos e projectos com o João Ricardo sempre com Angola no pensamento, a Luzia Moniz pelas lutas e pelo rompimento de barreiras mentais, pela afirmação dos nobres valores da classe jornalística. Ao Rui Loio e as viagens por Portugal para divulgar e apresentar os meus livros e as fotografias que ficam. Nos Açores, a Maria Cristina da AIPA, os festivais culturais e o Leituras à Sombra do Castanheiro com o amigo João Miranda. Na Madeira com o Pedro e a Natacha Correia (sempre com o Octaviano Correia no pensamento), e tantas outras coisas memoráveis. É realmente um adeus temporário pois há uma ligação permanente às pessoas, aos lugares e aos saberes. E por fim ao amigo, camarada e compatriota Mário Silva, ao Daniel Neves, dois irmãos que a vida me deu, e que em diferentes circunstâncias ajudaram a materializar muitos e bons projectos que ainda se vão manter por muitos e longos anos. A Manuela Gonzaga “Manu” pelas partilhas de experiências e oportunidades, pelo trabalho que foi feito, que está a ser feito e que há-de ser feito. É difícil dizer um adeus aos poucos mais ou menos a tudo isso, só mesmo um até já misturado com um Etu Mu Dietu (Estamos Juntos).

Deixe o seu comentário