Do “irritante” ao “importante” sem esquecer o “insignificante”…

O Presidente português Marcelo Rebelo de Sousa, completa hoje 4 dias de uma visita oficial a Angola (ainda, que, na prática, sejam 5 os dias que está nas nossas acolhedoras terras vermelhas. O Ti Celito, que de parvo não tem nada, deixou o cosmopolita Carnaval do Rio de Janeiro para os turistas de ocasião, e preferiu, inteligentemente, ver o genuíno e quase secular Carnaval africano que sempre percorreu – e não desde 1987, como o programa África Global, da RTP África, de ontem, 7 de Março, o afirmou – a marginal luandense. O nosso Carnaval (já agora para quando o renascer o grande Carnaval do Lobito?), não será o mais vistoso, mas é, certamente, o mais legítimo e espontâneo.

Talvez que a presença do reconhecido cidadão e Presidente Marcelo Rebelo de Sousa, possa ser usado como um “ícone” publicitário para atrair turistas carnavalescos nos próximos anos. Por certo que o nosso Turismo agradecerá.

E o Turismo é uma fonte de emprego, de dinheiro e, já agora senhor Presidente João Lourenço, se me permite uma breve referência à sua importante entrevista à portuguesa RTP – ah! talvez seja altura de haver também uma sua grande entrevista à nossa Comunicação Social, onde, por certo, terá muita coisa para dizer e esclarecer sobre este seu ano e meio de mandato – mais que subnutrição, há partes da nossa população que padece mesmo de fome. Infelizmente.

É certo que não se pode inculpar, pelo menos no todo, o Governo por esse facto. Mas o Governo não deve ser visto só por aquelas personalidades, que formam o Conselho de Ministros, estacionadas em Luanda. Os seus representantes são, por inerência o braço do Governo. E esses representantes – os Governadores provinciais – deveriam dar parte a Luanda dos problemas que cada província apresenta; em particular, quando a seca – ou o excesso de chuva – destrói as produções agrícolas e cerealíferas, bem como o gado, que alimentam essas populações causando-lhes graves prejuízos, e, não poucas vezes, fome. E se percorrer algumas páginas sociais lerá, nomeadamente nas províncias da Huíla e do Cunene, que algumas pessoas têm perecido devido à fome.

Ma introdução que considerei importante até porque o Presidente Marcelo rebelo de Sousa teve um banho de multidão, ontem, na Huíla onde, infelizmente e por certo, por razões de agenda, o Presidente João Lourenço não acompanhou, porque, de certo, muita dos presentes na recepção ao Presidente português, aproveitaria par o alertar da referida situação.

Mas voltando à visita do Presidente Marcelo Rebelo de Sousa, no primeiro dia da sua visita oficial e perante o anfitrião, o Presidente João Gonçalves Lourenço, a uma questão colocada, aquele respondeu, mais ou menos – mas para muita certa cabecinha ter ficado encarapuçada, serviu – ,que a diferença entre um político e um estadista está no deixar de falar no “irritante”, deixar de olhar para o presente “insignificante” e olhar  de Angola, que o que o ensaísta cultural João Ngola Trindade foi buscar hoje à memória, bem como recordar a forma como os nossos compatriotas vibram com o futebol português:

“Não encontramos em África um único país que não mantenha relações preferenciais com a sua antiga metrópole, até pela absorção dos valores culturais num regime de tipo colonial”, assim discursava Agostinho Neto, no texto «Alguns Aspectos da Luta de Libertação Nacional na Fase Actual», numa Conferência na Universidade de Dar-es-Salam, Tanzânia, em 7 de Fevereiro de 1974 (ou seja, antes da independência.

Naturalmente cada um tem o direito à sua livre e democrática opinião. Deve ser respeitada. Mas não esqueçamos que por vezes um qualquer simples problema pode ser “irritante”, levando, por vezes, uma boa ideia do presente “insignificante” a colocar em causa um futuro “importante”!

*Investigador do Centro de Estudos Internacionais do ISCTE-IUL(CEI-IUL) e investigação para Pós-Doutorado pela Faculdade de Ciências Sociais da Universidade Agostinho Neto**

** Todos os textos por mim escritos só me responsabilizam a mim e não às entidades a que estou agregado


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