E se nos uníssemos para lá da covid-19?

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Quando cheguei a Cabinda pela primeira vez, em 2011, conheci uma pessoa que disse uma frase que jamais esquecerei:

“Doutora, nós aqui temos professores com a 7.ª classe.”

Eu tinha uma ideia muito genérica do sistema de ensino angolano e, por isso, fui pesquisar, logo que pude, para perceber o alcance daquela afirmação.

Conversando com o, então, meu orientando de mestrado Dr. José Paulo Bungo, apercebi-me da realidade do português em Angola. E reporto-me sempre ao que experienciei nas visitas que fiz ao país, entre Maio de 2011 e Agosto de 2013.

Se, por um lado, na capital, Luanda, poucos eram os cidadãos que dominavam as línguas nacionais [entre os jovens e naquele período], por outro, no interior e nas áreas mais afastadas das grandes urbes, como Cabinda, o português era (arrisco a dizer que ainda é) uma língua totalmente estrangeira, com a qual o contacto acontece apenas no momento de entrada na escola.

Mais tarde e à distância, recordei que também em Portugal, onde a esmagadora maioria dos cidadãos são falantes nativos de português, também abundam as deficiências gramaticais e ortográficas. E até entre docentes…

No início dos anos 90, o meu irmão Luís identificou vários erros em apontamentos de um docente (do Curso de Matemática) da Faculdade de Ciências. Coisas como “supoluemos” (em vez de supo-lo-emos) eram banais entre as fotocópias disponibilizadas.

Poderão dizer que são professores de outras áreas e que os conteúdos transmitidos não dependem da correcção linguística. Mas estão errados, pois, se assim fosse não havia cada vez mais cursos de áreas técnicas, bem longe das línguas, com disciplinas de português/língua portuguesa de frequência obrigatória.

Eu própria leccionei no ISEC, em Lisboa, Língua Portuguesa num curso de Ciências Aeronáuticas… Estranho considerando que a língua de trabalho na aviação é o inglês, mas a verdade é que os docentes tinham já então concluído que os (primeiros) estudantes não conseguiam interpretar os enunciados dos exames.

O problema é transversal, disso não há dúvidas.

Há coisas que ainda não consigo compreender: Como é que chegámos a 2020 assim? Como é que tendo tecnologias de informação tão sofisticadas, user friendly, banalizadas e desenvolvidas ainda não estamos todos a melhorar este estado de coisas?

Quando em Março vim para casa, em teletrabalho, e consumia tudo o que era notícia sobre a pandemia que alastrava no mundo, tive momentos de esperança: quando vi cientistas de todo o mundo em colaboração à distância, quando os jornais disponibilizavam toda a informação sobre o assunto a custo zero, para que todos tivessem acesso a ela.

Hoje, sentada à mesma secretária, penso como tantos problemas se resolveriam (em termos de ensino básico de português e de edição dos respectivos manuais) se pudéssemos usar estes meios para melhorar o que precisa de ser melhorado.

É também esse o espírito que esteve/está por trás do meu trabalho no Em Português Consultoria.

O artigo no Jornal de Angola da edição de hoje veio reforçar essa ideia: ainda há muito a ser feito.

Estou disponível para ajudar.

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