É só Angola Connexion?

Não! Há muitas outras conexões político-financeiras pelo mundo e, sem tabus nem imposturas, vamos rever algumas.

Claro, aqui olhamos Angola first – como diria o Trump – e nem sei se há uma Conexão Angola ou várias, sendo provável existirem algumas estimuladas pelo mesmo clima e que criaram afinidades. Espírito de classe, com um detalhe importante: classe rica cujos integrantes são em maioria de origem humilde, quer dizer, a origem de classe não determina nem impede ascensão de classe, sobretudo quando se chega ao poder ou perto dele. E também não é só Angola neste mambo.

Não localizei onde começou a expressão Angola Connexion mas a primeira vez recente está no diário “L’Express” de Port Louis (Mauricio), onde já publiquei alguns artigos e até uma entrevista, numa fase dura de luta pela democracia e contra os tenores da guerra fria em África. Quem naquela altura aceitava artigos baseados nos direitos humanos num continente africano dominado então por partidos únicos obedientes aos patrões externos? encontrei na ilha Mauricio e nunca mais vou esquecer camaradas como o Dev ou o Jean Claude e não vou fazer lista. Nos últimos dias eles têm pensando muito em mim e eu neles, interessados em saber mais sobre essa Angola Connexion, ou seja, no mínimo três empresas de angolanos com práticas muito suspeitas (só os julgamentos definirão), movimentando centenas de milhões de dólares e corrompendo a vários níveis, inclusive a própria Presidente mauriciana que, por isso, foi destituída e lá todos e todas acharam isso conforme à lei e ao respeito que os dirigentes devem ter pelo povo.

No momento, decorre o julgamento de uma dessas empresas, a ASA (Álvaro Sobrinho África Ltda.) e averiguações sobre outras duas, A Vango, do mesmo empresário e a Quantum Global de Jean Claude Bastos. Como é uma justiça de alta reputação não vamos pré-julgar nada nem condenar aqui ninguém, isso farão os juízes mauricianos. Vou só citar os meus amigos do “L’Express no seu noticiário de ontem: a agência de combate à corrupção foi à sede do governo em Port Louis em busca de documentos e depois dirigiu-se à empresa Vango Prop. O pessoal dessa agência está curioso para saber diversos detalhes financeiros e, entre eles o “L’Express” cita a obtenção de 34 villas,

quer dizer, imóveis de elevado standing com frequência destinado a turistas. O jornal não explica a palavra obtenção, daí eu não saber se obtiveram ou quiseram obter. Como conheço o L’Express” acho até que nem eles sabem, nem sequer os investigadores. Devem estar todos a juntar dados sobre o realizado por tal empresa, o que pretendia realizar e como. Por outro lado, dois juízes congelaram 25 contas da Quantum. As autoridades e opinião publica de Mauricio estão com as mãos na cabeça, apavorados com a possibilidade de terem todo o seu sistema financeiro manchado a ponto de muitos investidores se retirarem, o que seria uma catástrofe neste país situado em primeiro lugar africano de Índice de Desenvolvimento Humano (IDH).

No agregado, pode estar aqui uma chave para se avaliar o montante e localização de capitais angolanos no exterior que o governo quer fazer regressar. Provavelmente esta foi a razão da viagem à capital mauriciana, no começo deste mês, do ministro angolano das Relações Exteriores.

Tudo isto acontece enquanto no Brasil o ex Presidente Lula foi preso condenado a 12 anos por corrupção passiva e lavagem de dinheiro. Os seus partidários dizem não haver nenhum prova contra ele, que o julgamento foi perseguição política em função da sua popularidade e que figuras políticas de direita ou centro-direita também acusadas de corrupção continuam á solta. Os inimigos acreditam nas provas da acusação e dizem até que Lula sabia de todos os demais esquemas de atribuição de contratos a grandes empresas em troca de pagamentos ilícitos. Há ainda outra corrente, para quem tudo isso é resultado de lutas dentro da elite que governa há vários anos, aliados que se teriam zangado na distribuição de cargos ou oportunidades. Seja como fôr, há dois resultados concretos: o modelo económico de crescimento brasileiro em anos precedentes esgotou-se e ninguém renova; o maior país de língua portuguesa é atravessado por uma vaga de intolerância e ódios como não há em mais nenhum outro da CPLP ou da SADC. Enquanto não for superado o segundo não será possível resolver o primeiro.

Na Coreia do Sul a ex presidente foi condenada a 24 anos de prisão por abuso de poder ligado a atribuição de privilégios e muito imbróglio financeiro. Ela acusou o tribunal de também estar contra ela por motivos políticos e nem compareceu à leitura da sentença. Na África do Sul, Jacob Zuma dois meses após ter sido destituído pelo seu próprio partido, o ANC, compareceu à primeira audiência do processo contra ele por corrupção, alegando o procurador que ele recebeu 783 pagamentos ilícitos. A primeira audiência

foi curta e procedeu-se a adiamento para junho. Enfim, a justiça francesa prepara o julgamento do ex presidente Nicolas Sarkozy que teria recebido e ocultado uma contribuição do ex ditador Khadafi para a sua campanha eleitoral, ato de grande ilegalidade segundo a legislação francesa. Ele negou conhecimento de tal operação.

Assim, no prazo de uma semana tivemos cinco casos de conexão entre política e finanças, com duas condenações e três importantes averiguações em andamento. Tal conexão não é nova, existe desde tempos medievais pelo menos, mas nunca houve tanta repercussão e julgamentos como agora. Porque antigamente havia menos liberdade e a cumplicidade dos poderes garantia impunidade ou porque hoje há menos respeito ético? Outro motivo de interrogação está no relacionamento atual entre o poder político e o poder judiciário. Em diversos países considera-se não existirem estruturas ou pessoal capaz de julgar casos desta sensibilidade, sobretudo quando são em número elevado. Noutros, diz-se simplesmente que agora quem governa (ou impede de governar) são os tribunais.

Sem dúvida é game muito rijo e ainda nem acabou a primeira parte.

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