Elas e o (meu) mundo

Esforço, dedicação e devoção parecia haver há setenta anos. Recuo no tempo para 24 de Novembro de 1946, uma data que ficará irremediavelmente na história centenária do Sporting Clube de Portugal (SCP), pois foi o dia em que actuaram pela primeira vez juntos, Jesus Correia, Vasques,Albano, Peyroteo e José Travassos. Um quinteto de ataque, simplesmente demolidor, repleto de magia, de talento, futebol espectáculo, futebol de ataque e de golos. Nunca no futebol português uma outra equipa ou geração se aproximou sequer da magia que os 5 violinos tiveram. Os homens transpiravam habilidade e técnica por todos os poros. Havia neles uma perfeita sintonia, que era como música para os ouvidos dos espectadores. Havia arte, harmonia, entrosamento e química em campo.
Os 5 violinos, os tais maestros da orquestra. Um quinteto que entre 1946 e 1949 levou o futebol português aos maiores êxitos e marcou uma época sem paralelo, e enquanto jogaram juntos durante três temporadas, o SCP foi sempre campeão nacional, conquistando o primeiro tri-campeonato da história do futebol português, ao qual somaram uma Taça de Portugal. Cada um deles marcou mais de cem golos ao serviço do SCP. 5 violinos foi uma designação da autoria do jornalista e mais tarde treinador, Tavares da Silva. Peyroteo foi o primeiro a abandonar o futebol, Jesus Correia abandonou em 1953 optando pelo hóquei em patins, já Albano terminou a carreira em 1957. Vasques e Travassos abandonaram o clube no mesmo dia : 7 de setembro de 1958. O que torna curioso, pois a dupla chegou igualmente no mesmo dia ao clube : 8 de setembro de 1946. Eram verdadeiros ” Big Fives ” . Eram do melhor que havia no futebol português .

Em Angola existia um grupo de cinco senhoras, que todas as manhãs de quarta-feira se destacavam pela arte de comunicar, pela técnica, harmonia, pela simplicidade na abordagem dos temas, pela rigor, isenção e análise objectiva dos assuntos. Num programa que se diferenciava pela estética inovadora e por um discurso objectivo, coerente, isento e assertivo. Na Luanda Antena Comercial ( LAC), estas senhoras que não andaram pelos relvados dos campos de futebol, que tinham a magia e o talento futebolístico dos 5 violinos, mas eram oradoras extraordinárias, colossais comunicadoras e analistas perspicazes . Os seus nomes ? Maria Luísa Fancony, Laurinda Hoygaard, Alexandra Simeão, Ana Paula Godinho e Suzana Mendes eram as tais senhoras.
O quinteto que fazia o espaço radiofónico onde, o olhar feminino se debruçava sobre os acontecimentos tecendo comentários e perspectivas diferentes . Foi uma experiência inédita em Angola. Elas foram integrantes do programa radiofónico ” Elas e o Mundo” emitido todas as manhãs de quarta-feira na 95.5 FM ( LAC). Pelas suas diferentes áreas de formação e actuação, elas não eram certamente ” violinos ” como foram Jesus Correia, Vasques, Albano, Peyroteo e Travassos. Elas eram instrumentos tradicionais muito nossos . Eram para mim, os ” Cinco Instrumentos Mwangolés” . Elas eram a Marimba, o Kissanji, o Batuque , o Hungo e o Reco-Reco, com ritmos e sons que alegravam os nossos ouvidos e despertavam às cordas da alma. Elas tinham a capacidade e o engenho de nos projectar para um estado meditativo bom .

” Elas e o Mundo” não abordava apenas o mundo delas, ou seja, o universo feminino ( como podia parecer numa primeira abordagem e superficial análise do nome ). Era uma programa que fazia uma abordagem inteligente, imparcial, factual e realista sobre vários assuntos / temas que marcavam o país e o mundo. Um programa feito à dimensão cultural e intelectual destas senhoras. Era um programa com ” conta, peso e medida” como se costuma dizer na gíria desportiva . Provavelmente não é mesmo possível mudar o mundo num dia, mas está ao alcance de cada um de nós mudarmos o nosso mundo todos os dias! Fazer a diferença e acreditar que vale sempre a pena fazer a diferença. Maria Luísa Fançony e as suas companheiras sabiam disso e faziam – no com um profissionalismo notável e impecável, envolvendo os ouvintes numa longa viagem pela política ,economia, sociedade, cultura, educação,ciências, desporto e outras áreas. Tudo isso era reflexo de uma inquietação em inovar; reflexo de uma personalidade e de um espírito visionário de Maria Luísa Fançony construiu um universo simples mas extraordinário, bem seu estilo, com o seu registo e a sua marca. Os seus 50 anos de experiência radiofónica dão – lhe este estatuto e autoridade. Com os seus 50 anos de actividade radiofónica ininterrupta ( começou em 1966 e com apenas 20 anos de idade ), bem poderia ser já por nós ” assumida” como a decana da rádio em Angola, pois não conheço outra mulher que esteja no activo tanto tempo quanto ela .

Esforço, dedicação e devoção não faltaram aos 5 violinos. E foram também estas divisas que acompanharam estas cinco magníficas senhoras angolanas. E de uma coisa estou certo : elas fizeram ( e ainda fazem ) parte do meu mundo ! Um mundo que com elas se tornou mais belo, poderoso e simples. Um ” mundo ” que se tornou mais Mundo. Elas estavam na ” pole position” das minhas preferências radiofónicas . Tal como na vida , o programa teve também a sua ” morte” . A morte é uma das poucas certezas que temos na vida. A morte é uma coisa certa que chega numa hora incerta. E quando já estávamos a ter certezas sobre o caminho a seguir, quando já estávamos a apreciar um tipo de análises e comentários sem ” formatação “, sem apego as ideologias ou apologias . Uma análise, uma abordagem que não estava refém de agendas ou dos interesses corporativos , eis que surge a morte ” sem apelo, nem agravo” do ” Elas e o Mundo” . O programa foi de férias e não mais voltou. Antes fossem as tais ” férias graciosas” , mas estas foram ” férias sine -die” . E tal como os portugueses com um certo saudosismo ainda aguardam o regresso de D. Sebastião de Alcácer – Quibir, montado num cavalo branco e numa manhã de nevoeiro, eu aguardo o regresso ” delas” ao meu ” mundo” numa manhã chuvosa de abril e onde cada uma das cinco senhora estará a tocar de forma exímia o seu ” Instrumento Mwangolé ” . Elas fazem falta ao nosso mundo, ao universo radiofónico nacional .

O ” Elas e o Mundo” marcou uma geração , agitou mentes e apurou ouvidos. Coloriu um certo jornalismo cinzento que ainda se vai fazendo entre nós. Foi um programa que desarrumou certezas, desempoeirou formatos , libertou palavras, espicaçou ideias e provocou debates. Um programa que desassossegou a política e certos políticos . Um programa que foi amado e odiado. Mas ao qual mesmo os que odiavam concediam virtudes e até os que amavam reconheciam defeitos. Houve até quem o amasse e depois odiasse, e o contrário também. Um programa que ia destapando uma Angola que poucos conheciam, porque era um conceito novo e que ainda não tínhamos visto.
Um programa que foi como um ” kandengue atrevido” : a perguntar os porquês, a mexer onde não devia, a usar a liberdade toda que tinha, a descobrir, a ir mais longe, a ser inconveniente, a baralhar palavras e a trocar significados, a fazer barulho no meio do sossego. Um programa que chegou sem pedir licença e que falava quase sempre sem pedir desculpas . O ” Elas e o Mundo” era um produto culturalmente necessário mas politicamente incorrecto. Era livre, leve e solto demais para ” certos gostos” e que para desgosto dos ouvintes um certo dia, as temidas, enigmáticas e eficazes ” Ordens Superiores ” , lhe ditaram a sentença : ” Exílio radiofónico forçado ” . Até hoje.