Eleições

Não é só Angola que aguarda eleições. Antes de nós, outros atos eleitorais estão datados para o mês em curso: dia 16 no Congo-Brazzaville e dia 30 no Senegal, ambos para o poder legislativo. No primeiro caso, a oposição tem duas visões opostas – uns vão às eleições com o argumento de ser um momento para expor alternativas ao atual regime e outros afirmam não haver qualquer garantia de seriedade e pediram o adiamento das mesmas. Como o governo manteve  a data deram palavra de ordem de boicote.  Importante neste caso um dos argumentos  oposicionistas ser a existência de guerrilha com certa intensidade na região do Pool (a sul de Brazza). Tal facto, somado à violência e não aplicação dos acordos mediados pela Igreja, do outro lado do rio na RDC, cria uma área de insegurança que não pode deixar Angola indiferente, dada a proximidade das fronteiras.

No Senegal é tudo diferente. Ninguém contesta a lisura das eleições nem propõe boicote, embora um candidato  se queixe de manobra para sujar a sua reputação com acusações de má gestão de fundos municipais. É Khalifa Sall, governador de Dakar (maire em francês), preso em virtude dessa acusação, mas mesmo assim candidato oposicionista. A prisão onde se encontra virou um centro de contactos políticos. Outra candidatura oposicionista é do PDS, partido do ex Presidente Abdoulay Wade que com 91 anos vai dirigir a respectiva campanha.

Do lado governamental, algumas pequenas dissidências passaram para o campo de Khalifa e alguns dos partidos que apoiam o presidente Maccky Sall fazem campanha própria. Isto não deve impedir a renovação posterior do apoio parlamentar, talvez  com novas clausulas. Mas são eleições de bom nível, acompanhadas por debates interessantes em círculos ou agrupamentos não partidários. Sem dúvida o Senegal possui um dos processos eleitorais mais transparentes de África e um grau de debate invejável para a maior parte dos países do continente.

Fico pessoalmente satisfeito com este desempenho, pelas  ligações de amizade que me ficaram dos anos de chumbo, quando Dakar  foi meu lugar de exilio e base de retaguarda para muitas  das nossas ações anti-colonialistas. Sobre a solidariedade que recebi dos senegaleses, falei num dos meus livros mas um dia volto aqui com mais alguns detalhes, daqueles que davam sentido ao pan-africanismo, sem considerações raciais. Fenômeno muito raro até hoje.

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