Ensaio sobre o cabrão*

Há cabrões por todo o lado. Na política, no cinema, na literatura, na construção civil, nos panificadores, nos camionistas, nos jornalistas, nos palhaços, nos canalizadores, nos mineiros, nos operários, nos sovinas e nos ardinas. Há cabrões por todo o lado. Se Angola quiser sair da crise, tem de apostar fortemente na exportação do cabrão: levar o nosso cabrão além-fronteiras. Temos, não tenho dúvidas, os melhores (e maiores) cabrões do mundo. É uma pena que não se rentabilize devidamente essa mais-valia. Teríamos, no cabrão, uma fonte inesgotável de receita. Mas somos demasiado cabrões para vender aquilo que de melhor temos. Somos bons cabrões para lixar, desvalorizar aquilo que é nosso e promover o que vem de fora e de qualidade duvidosa. Somos bons cabrões para deixar cair tudo e todos aqueles que têm mérito, valor e qualidade, pois a ideia é ” futilizar” pessoas, mentes e ideias .
O cabrão é a hiena das selvas de pedra. Aquela criatura que nada faz para comer – a não ser esperar que os outros façam alguma coisa para comerem. E para ele – a hiena – poder comer. Feio, feroz e fétido, o cabrão sabe que para sobreviver tem de sobre-viver: de viver por cima da vivência dos outros: por cima do mérito dos outros. É esse, para si, o seu grande mérito. Tal como abutres para debicar em corpos inertes, ou como carraças para sugar todo o sangue até que tudo acabe . Somos bons cabrões, porque também não aceitamos um bom cabrão que se desenvolva, que cresça e se projecte sem estar sob o nosso controlo, sem estar ” controlado” e formatado.
O cabrão é o predador dos predadores: o execrável ser que come o que os outros tiveram de trabalhar dias, meses ou anos para estarem em condições de comer. O cabrão é, por isso, uma espécie de upgrade do chulo. O que faz com que seja, claro está, menos chulo do que o chulo. E ainda mais cabrão. O cabrão é resultado de uma evolução negativa da espécie. Uma espécie que começou por ser engraxador, passou para lambe-botas, foi subindo até chegar a categoria de lambe- cús e até que chegou ao posto máximo de bajú. Este mesmo bajú que já vai tendo algumas derivações e, daí que vai surgindo uma espécie de quadros em formatação e que como de uma segunda divisão pertencessem passam a ser os tais bajulinos. Mas não deixam de ser todos verdadeiros cabrões seja para quem defendem ou atacam, pois a sua única pátria e ambição é o dinheiroe os acessos ao poder .
Todo o cabrão sofre da síndrome do pénis de alma – que faz com que a sua consciência, por uma qualquer disfunção genética, esteja localizada abaixo, e não acima, da cintura. Para o cabrão, a alma encontra-se, passe o paradoxo, no corpo. Melhor: em 10 ou 15 (na melhor das hipóteses: não se pode ter tudo) centímetros do seu corpo. O cabrão tem, então – para além de pequena -, uma alma do pénis.
Um cabrão esfomeado é capaz de tudo para comer. Um cabrão saciado é capaz de tudo para comer. Um cabrão é, em suma, capaz de tudo para comer. E, mais do que isso, come de tudo para comer. O mais importante, para o cabrão, é comer. Come o que for preciso, come o que não for preciso. Come para comer, come por comer. Para o cabrão, a vida é como uma guerra: ou comes ou és comido. É, aliás, essa a forma que encontra para discernir o que é comestível ou não: se comeu isto, é porque isto é comestível; se comeu aquilo, é porque aquilo é comestível. O cabrão é, então, especialista naquilo que ele mesmo denomina de pós-decisão: primeiro faz, depois decide se deve ou não fazer o que acabou de fazer. E chega à conclusão de que, se fez, é porque o deveria ter feito. E toma, feliz, a decisão de fazer o que já está feito. É por isso que o cabrão, ao contrário dos restantes mortais (e imortais), nunca está feito. Se ” o cabrito come onde está amarrado “, o cabrão vive  preso nas amarras da perseguição e da vitimização. Vive amarrado às ideologias e filosofias , não faz apologia de discursos ou visões diferentes da sua . É uma cabrão na sua forma de ser e de estar . É um verdadeiro cabrão .
Aos olhos do cabrão, uma mulher é uma cabra. Mesmo que o cabrão seja uma mulher e a mulher seja um homem. Aos olhos do cabrão, o outro lado da cerca é o da cabra. O cabrão, mesmo que seja mulher, é sempre o cabrão – e nunca a cabra. É ele o macho, o dominador, o alfa da relação: de todas as relações. O cabrão é sempre, por dentro do seu entendimento, o líder: o gajo (mesmo que seja gaja) que decide o que vai acontecer, que dá as cartas, que atira os dados e os vicia de acordo com os seus desejos. O cabrão, mesmo que seja o empregado, é o patrão. O cabrão é o vaidoso. Mesmo que perca, o cabrão sai, de si para si, vencedor. Há sempre um ângulo a explorar: um ângulo em que ele, apesar de derrotado em toda a linha, sente que venceu como lhe convinha. O cabrão gosta de ir comer em pasto alheio porque lhe faz sentir cabrão de corpo e alma, mas quando o seu ” pasto”  é invadido, quando sente que já lhe estão ou está iminente começarem a comer do seu “‘pasto” , solta todo o seu fel, pois não admite concorrência. Este título é uno e exclusivo. Cabrão só ele mesmo é mais ninguém.

O cabrão ganha sempre. Seja um jogo, uma queca, uma aposta. O cabrão ganha sempre. O cabrão ganha mais quando perde do que quando ganha. Porque, quando perde, o cabrão ganha o álibi perfeito para ser verdadeiramente o verdadeiro cabrão que é. E rouba, e faz batota, e envenena o adversário, e sabota o carro de quem ousou desafiá-lo. O cabrão só se sente vencedor quando é cabrão: quando tem de ser cabrão. A derrota é a felicidade por vir do cabrão. O cabrão ganha sempre. O cabrão – seja qual o resultado – ganha sempre.

Ser cabrão compensa , ao menos no curto prazo e por isso vão surgindo cada vez mais por aí . Fazem parte da chamada ” evolução negativa da espécie ” . Atenção que eles andam por aí e por aqui . São mais do que as mães .

  • Texto original de Pedro Chagas Freitas aqui com as devidas alterações e ajustes a uma realidade angolana.

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