Bairro Salazar…

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Para aquelas pessoas que, assim como eu, consumiram parte das suas vidas entre os bairros, Mártires do Kifangondo, Kassequel do Lourenço e Cassenda, no Município da Maianga (segundo o ordenamento territorial que imperava nos anos em que lá vivi), a operação recentemente realizada no bairro Mártires do Kifangondo (ex- Bairro Salazar) pelo Serviço de Investigação Criminal (SIC) no interior do Mártires peca por tardia. Há muito que, através da rua 15 e outras adjacentes, o bairro tornou-se numa espécie de estado autónomo dentro da capital, onde os cidadãos oeste-africanos monopolizaram os pequenos negócios e o crime.

Soturnamente, a operação realizada pelo SIC visou apenas destituir a “Wall Street” da posição alternativa que representava à banca nacional. No entanto, ela devia expender-se a outras formas de crime fundadas pelos expatriados, pois que, o Mártires é também o “ninho hospedeiro de imigrantes ilegais” e o repuxo proliferador da prostituição no bairro e na cidade se quisermos.

Transpiram-me na memoria, cenas de há oito anos atrás, como afirmado, vivia no Cassenda e tinha de cruzar o Mártires sempre que augurasse visitar minha avó no Kassequel do Lourenço, bem juntinho ao Aeroporto Doméstico. Às sextas-feiras, no período das 12 às 13 horas, as ruas 12, 13 e 15 paravam literalmente, nem os carros nem as pessoas podiam passar, devido aos comerciantes e crentes muçulmanos que ocupavam os passeios e o asfalto para rezar, uma vez que, a mesquita na rua 12, a única na altura (desconheço o nascimento de outras no bairro), é minúscula demais para receber tão erguido número de crentes a um tempo só. Durante o trajeto de aproximadamente meia hora a pé, costumava dar encontro com vendedores das hoje parcas divisas, também com os mestres-cucas dos “cabriteés, porcoteés e cãoteés” à proporção que vários outros produtos e serviços nos eram expostos, inclusive serviços sexuais.

Na Monique, casa que se diz noturna, nas horas diurnas, nos dias em que os “compradores de massagens” não afluíam a casa, era comum ver as mulheres à porta do prostíbulo a chamarem indiscriminadamente pelos homens que na rua deambulavam, sempre trajadas de tecidos provocadores e elucidativos. Dizem as más bocas que, as noites na Monique “distinguem-se por sua devassidão”.  

A zona também é conhecida pela forte presença de drogas ilícitas, nos bailes que são organizados à noite nas ruas do Mártires, onde o ruido fluí fundamentado pelas dezenas de viaturas mal-estacionadas, o que não falta são drogas pesadas, facto que assim como os outros já apontados, julga-se ser do domínio das autoridades.

À vista disso, a operação realizada pelo SIC devia estender-se para além do combate a comercialização ilegal de divisas, devia abranger a imigração ilegal, a prostituição, que ainda é ilegal no país, o tráfico de drogas e até mesmo a violência gerada pela comunidade expatriada no bairro. Por outro lado, relata-se uma considerável diminuição na oferta de divisas. Mas, o negócio ainda está lá nas ruas do Mártires, sobrevivendo clandestinamente (como confirmou o Jornal de Angola), pelo que calcula-se, o retorno do antigo normal está para breve, então vale ressalvar que, se a velha algaravia voltar a instalar-se no Mártires do Kifangondo, será certamente em consequência da permissibilidade e passividade das autoridades. Por isso, exige-se das autoridades vigilância recorrente e/ou regular, é desejável que operações de combate as mais heterogêneas formas de crime empreendidas naquele bairro façam parte da agenda mensal da Polícia Nacional.  

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