Mamã África

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A crónica desta semana incidirá sobre o legado de uma chamejante mulher que África viu orgulhosamente brotar dos seus solos… A História Universal reveste-se de legados que, contribuíram e continuam contribuindo para a evolução das sociedades e suas gentes. Por isso, descreveria legado em duas dimensões: A primeira, transcreve-se no “Legado Material” aquele constituído por coisas materiais como dinheiro, propriedades e outros bens (materiais). A segunda dimensões seria o “Legado Imaterial” que de forma explicativa podíamos usar o Império Romano, uma vez que, aquele império deixou um forte legado cultural e linguístico ainda presentes em muitas sociedades hoje. Outro exemplo de um legado imaterial é o legado intelectual deixado por vários filósofos e pensadores do passado. Portanto, iremos nos centrar no legado imaterial que certamente, Ellen Johnson Sirleaf ou Mamã África, a primeira mulher a assumir a presidência de um país africano e vencedora do Prêmio Nobel da Paz, 2011, terá crido e o deixará à sua nação e ao mundo quando despedir-se da presidência da Libéria, em janeiro do próximo ano, depois de 12 anos na liderança do pequeno país da África Ocidental. Podemos aqui adiantar que a atuação da Presidente tem recebido, sem assombros, elogios de fulanos e críticas de beltranos. Caberá a nós estabelecer um equilíbrio entre eles.

Ellen Johnson, também conhecida como mamã africa, nasceu aos 29 de outubro de 1938, na capital liberiana, Monróvia. Fez parte da sua formação nos Estados Unidos de América (EUA), onde chegou mesmo a frequentar a Universidade de Harvard. Voltou para a Libéria em 1973 para ocupar o cargo de Ministra Adjunta das Finanças de 1973 – 1974 e depois o de Ministra das Finanças de 1979 – 1980.

O golpe de estado liderado por Samuel Doe, em 1980, que culminou com a execução do então Presidente William Tolbert, levou Ellen Johnson a regressar para os EUA, onde trabalhou para o Banco Mundial antes de se mudar para Nairobi, onde trabalhou para o Citibank e o Equator Bank. Em 1976, retornou à Libéria, concorreu à presidência da república, ficou em segundo lugar no plebiscito presidencial de 1997, ganho por Charles Taylor.

No entanto, Mamã África venceria a segunda volta das eleições presidenciais de 2005 e tornar-se-ia assim a primeira mulher africana democraticamente eleita Chefe de Estado. Ellen Johnson tomou posse no dia 16 de janeiro de 2006 e seis anos mais tarde, em 2011, foi reeleita, naquele mesmo ano, foi agraciada com o Prémio Nobel da Paz. Em junho de 2016, foi eleita presidente da Comunidade Econômica dos Estados da África Ocidental (CEEAO), quebrando assim mais uma barreira, tornou-se na primeira mulher a ocupar esse cargo desde a criação da organização.

Quando a Presidente assumiu o poder em 2005, a Libéria procurava sanar as feridas causadas por sua segunda guerra civil, iniciada em 1999, quando o grupo rebelde Liberianos Unidos pela Reconciliação e Democracia (LURD), iniciou a combater as forças estatais no norte do país. E terminou com o acordo de paz “abrangente de Accra”, assinado aos 18 de agosto de 2003. Este acordo não só marcou o fim do conflito, como permitiu o início da transição democrática no país que, encontrava-se completamente partido e com a economia devastada.

Ellen Johnson teve a difícil tarefa de manter a paz na Libéria, dois anos após o fim de uma guerra civil, onde mais de 250 mil pessoas perderam a vida e produziu mais de um milhão de pessoas deslocadas. Durante a guerra, estimava-se que cerca de 70% das mulheres (incluindo meninas) eram sexualmente agredidas. Por isso, Ellen Johnson, assumiu como prioridades de mandato a criação de uma nova legislação para ampliar a definição de estupro, além de estancar os endêmicos assassinatos e mutilações em todo o país. Viviam-se dias de total desespero e Ellen Johnson representava “esperança”, era a pessoa que o mundo acreditava poder restaurar a dignidade de seus traumatizados compatriotas.

Ellen Johnson, não defraudaria as expectativas…

A presidente usou seus contatos internacionais para conferir confiança internacional à Libéria, e chegou mesmo a obter alívio da dívida de 2,9 bilhões de euros. Reformulou os serviços de segurança, de formas a manter a sua nação estável, pacífica e protegida”. Reavivou a economia, retirando-a de uma taxa de crescimento negativa para um plus 8,7% em 2013, garantiu ajuda ao desenvolvimento económico e convidou importantes investidores para o país, entre eles, a ArcelorMittal, o maior produtor de aço do mundo. A indústria do diamante, que desempenhou um papel ignóbil durante a guerra civil, também foi reformada.

No entanto, nem tudo foi “um mar de rosas” nos 12 anos de presidência de Ellen Johnson, a epidemia do Ébola que atingiu e devastou a nação, expôs as fragilidades do quase inexistente Sistema de Saúde, a queda nos preços dos pilares de exportação como o ferro e a borracha, causaram uma desaceleração económica energizando assim o fantasma da pobreza extrema ainda está presente na Libéria.

Acreditamos que, Ellen Johnson deixará para o seu povo um facultoso legado, subscrito à sua dedicação ao empoderamento feminino, quebrando barreiras e inspirando outras mulheres, na Libéria e em África, a fazerem parte da vida política. De acordo com os dados da UN Women, a Libéria tem hoje uma percentagem de 11,66% de mulheres na legislatura. O poder executivo é composto por 21% de mulheres. E nas eleições deste ano, 16% dos candidatos à casa dos representantes são mulheres, a maior proporção da história do país. Sem sombras para dúvidas, a presidência de Ellen Johnson abriu um espaço para as mulheres, tornando-as mais visíveis em termos de liderança, em um continente composto por sociedades relativamente machistas. Por outro lado, Ellen Johnson sustentou à paz no seu país, ao mesmo tempo que usou os meios possíveis e disponíveis para ajudar a secar as feridas deixadas pela guerra. Feridas estas que certamente, levarão anos, se não séculos a cicatrizarem. Com a estabilidade no país, foi possível o retorno de vários milhares de cidadãos liberianos outrora refugiados nos países limítrofes. Também à estabilidade deve-se o espetacular crescimento económico que o país registou até 2013.

Para terminar, existirá sempre quem argumente que Ellen Johnson poderia ter feito mais. Porém, pensamos que ela terá cumprido seu propósito, provando o poder da mulher sobre a pacificação e estabilidade de uma nação que sabíamos instável, miserável e funesta. Por culpa da Mamã África, a Libéria tem hoje lançados os alicerces para edificar seu desenvolvimento e provocar bem-estar as suas gentes, também por culpa dela, mulheres e jovens mulheres no seu país, no continente e no mundo, descobriram sua relevância social, abriram os olhos, ergueram as cabeças e se vão afirmando nos meios sociais e profissionais de que são parte.

Que a mãe África nos brinde com copiosas Ellen Johnson(s).”

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