Falando da Intelectualidade*

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A intelectualidade de um país – pela variedade e graus de saber que possui – tem poderosa capacidade interventora no processo social. Daí as expectativas e o escrutínio das diversas forças sociais e políticas sobre o seu desempenho.

Dos intelectuais, umas forças esperam que eles sejam a vanguarda nas ideias e participem nas acções de progresso, enquanto que os poderes instalados desejam ou exigem dos intelectuais que sejam seus porta-vozes ou elementos associados às suas engrenagens e práticas. Por outro lado, forças sociais e políticas, as mais diversas, procuram instrumentalizar os intelectuais para o conseguimento de vários dos seus particulares objectivos.

É evidente que qualquer poder instalado olha de soslaio para os intelectuais que procuram e defendem um pensamento próprio, pois a lógica existente é a utilização dos saberes  ao serviço da projecção do poder. Esta é uma condicionante universal que se torna mais poderosa em países de débil democracia.

Podemos também verificar que, em cada época, aparecem intelectuais como solitárias vozes de contestação. Muitas vezes, incorrendo em perigos vários, até de vida, eles conseguem que a contestação se generalize, à medida que as ideias se vão difundindo na população. Também sucede que muitos desses intelectuais portadores de contestação se transformam depois em activos membros do coro de louvores e de servidões a novos poderes instalados que esmagam vozes contestatárias.

Assim sucedeu em Angola. Contudo, em todo o nosso processo de luta de libertação nacional e no pós-independência – felizmente para o País (ao fim e ao cabo, para todos nós) – havia intelectuais que se mantiveram contestatários, lutando pela liberdade e dignidade humanas. Essa coerência foi um contributo importante para a preservação das referências éticas necessárias à construção de uma plena cidadania.

Perante as solicitações ou pressões contraditórias a que qualquer intelectualidade está submetida, resta ao intelectual saber situar-se como indivíduo e como membro da sociedade donde emergiu e à qual pertence. Em geral, e muito particularmente no caso de Angola, parece-me que, para o intelectual se situar, o ponto de partida e o de chegada será o seu questionamento sobre a cidadania. Equacionada e resolvida esta questão – ou seja, como age e como contribui para afirmar a plena cidadania sua e dos seus compatriotas – o intelectual terá bem menos «problemas de consciência» e melhores ferramentas para enfrentar pressões, coacções e aliciamentos, dedicar-se à sua actividade intelectual, pugnar pela liberdade de pensamento, procurar as vias de progresso do país e nele participar, e, com os seus pares, contribuir para o avanço do pensamento humano.

* este texto baseia-se num outro intitulado “Intelectuais: anjos ou demónios?inserido no livro ANGOLA – CONTRIBUTOS À REFLEXÃO – que publiquei  nas Edições Colibri

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