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Falsa informação ao Presidente João Lourenço precipita saída do ministro da Comunicação Social João Melo

Mensageiro, durante a apresentação do Estado da Nação, de um discurso manipulado por alguns dos seus mais directos colaboradores, o Presidente João Lourenço não hesitou em exonerar o ministro da Comunicação Social, João Melo.

Vítima de informações falsas que serviram de suporte à sua intervenção, João Lourenço, ao revelar a existência em Angola de mais de 100 jornais, 431 revistas e um número fantasma de boletins e de empresas editoriais e produtoras de conteúdos, acabou por ver desacreditada na praça pública a sua imagem.

Atribuídas ao Ministério da Comunicação Social essas informações, perante evidências de manipulação apresentadas nas redes sociais pelos cidadãos, o Presidente da República prometeu publicamente penalizar os seus autores.

“João Melo pode ter sido apenas a primeira vítima dessa armadilha”, disse ao Expresso uma fonte do gabinete presidencial. Mas o ex-ministro poderá não ser o único, uma vez que ficou igualmente demonstrado ser mentira o anúncio feito pelo Presidente da República sobre a conclusão do troço que liga Malange a Saurimo, no Leste do país, e das obras da Mediateca, na província do Bié.

Nestes dois casos, apurou o Expresso, a versão original dos dados remetidos a João Lourenço respectivamente pelos ministérios da Construção e Obras Públicas e das Telecomunicações, terá sido adulterada por funcionários do próprio staff. “Essa gente, para preservar os cargos não olha a meios e, por isso, não se importa de apostar no triunfalismo gratuito”, refere o sociólogo Anastácio Gourgel.

Já o director do portal “Correio Angolense”, Graça Campos, entende que “houve muito desleixo e há muita impreparação por parte dos assessores de imprensa do Presidente, que também tinham a obrigação de saber que este país não tem essa montanha de jornais e muito menos televisões e rádios”. Para este jornalista, “com tempo mais do que suficiente para verificar os elementos que lhe foram fornecidos, o Presidente, se mentiu, tem agora de assumir as suas responsabilidades”.

Mas as causas da exoneração de João Melo não ficam por aqui. Beneficiando de maior abertura política encorajada por João Lourenço, o sector da comunicação social angolana continua a revelar-se ineficaz e atado aos vícios do sistema de partido único.

Desprovido de espírito crítico em relação às políticas do Governo, para alguns analistas o legado de João Melo ( também acusado de não ter tido capacidade para suster as convulsões internas que sacudiram a Rádio Nacional de Angola e que puseram a nu tanto o seu conselho de administração como a própria tutela), é pouco animador. “Houve um período marcado por maior abrangência e diversidade, mas os últimos tempos assiste-se novamente ao regresso do mesmo estilo propagandístico defendido pelo regime de Eduardo dos Santos”, entende Frederico Samuel, licenciado em ciências da comunicação.

João Melo foi substituído por um deputado do MPLA, Nuno Carnaval. Apesar de ter pertencido á comissão da Cultura, Assuntos Religiosos e Comunicação Social do Parlamento, a sua nomeação está a ser vista , em vários círculos, com reservas. Se o novo ministro é visto por alguns como um adepto do primado da propaganda partidária, Nok Nogueira, director do “Novo Jornal”, considera que “não sem estar em causa a pessoa, vai ser muito difícil para o novo titular estimular a cultura de um jornalismo público sério e isento que não venha beliscar a imagem do Governo, num momento em que a popularidade do Presidente está em queda livre”.

Decidido a responder com eficácia aos próximos desafios eleitorais, o Governo contratou entretanto a empresa brasileira de comunicação Propeg para tratar da sua imagem.

Reconhecido como um dos pontos mais vulneráveis da actual governação, o Presidente João Lourenço, segundo uma fonte do MPLA, pretende estancar o amadorismo e a tentação para a promoção do culto da personalidade e da mediocridade.

“Continuamos a não saber comunicar”, diz o jornalista e professor universitário Ismael Mateus. Com a contratação da Propeg, o recurso aos serviços de assessoria de Jaime Nogueira Pinto nesta área tende a perder espaço de manobra.

“Estivemos sempre em presença de uma cooperação de contornos pouco claros, que não está a trazer qualquer valor acrescentado”, confirmou ao Expresso um alto dirigente do MPLA, que nunca viu com bons olhos a ligação de Luanda a Jaime Nogueira Pinto.

Acontece que a contratação da Propeg, que foi responsável pelas campanhas eleitorais do MPLA em 1992, 2008 e 2012, levanta também algumas reservas nalguns círculos do regime devido ao envolvimento de alguns dos seus elementos em escândalos de corrupção no Brasil.

“Ninguém duvida que é preciso mudar rapidamente a face da imprensa, mas talvez fosse mais recomendável recorrer a uma outra empresa, com o mesmo gabarito profissional da Propeg, para evitar eventuais dissabores”, adverte Fernando Januário, professor de Direito.

Fonte: Expresso

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