Falta de bom sendo ou alteração do sentido da diplomacia?

O estratega militar prussiano (alemão) Carl von Clausewitz (1780-1831), na sua obra “Da Guerra(Vom Kriege, no original) afirmava que a “guerra é a continuação da política por outros meios” no que era contestado por Henry Kissinger que afirmava “que a guerra é a negação da diplomacia”, na linha do que Hans J. Morgenthau (1904-1980) na obraPolitics Among Nations” deduzia e, ainda que, de certa forma, confundisse a política externa com a diplomacia como se ambas fossem uma e mesma coisa e, de certa forma, sublinhava que a diplomacia seria, no todo, o acto de relações com o exterior, o emprego da formação e execução em todos os níveis da política externa.

Desta análise, alguns cientistas políticos, costuma traduzir a frase de Clausewitz como «a guerra é a continuação da diplomacia por outros meios», o que parece se poder ler numa certa passagem da obraArms and Influence”, de Thomas Schelling, ou seja, «a diplomacia pode ser coerciva, pode representar ameaças e como tal não se pode separar do conceito de guerra», ou seja existe uma, “diplomacia coercitiva ou diplomacia da violência” (Mendes, 2010: 561)..

Porquê todo este introito?

Como se sabe, e na passada semana, isso foi abordado, o caso Manuel Vicente, na questão judicial portuguesa, denominada “Operação FIZZ”, que tornava as relações entre Angola e Portugal numa situação algo “irritante”, ficou resolvido com o próximo envio do processo para Luanda, como era desejado quer pelo visado, quer pela diplomacia nacional.

Isso, ficou bem demonstrado, quando, na segunda-feira o Ministro português da Defesa, em visita a Luanda foi recebido, de surpresa – ou, pelo menos, não estaria agendado – pelo Presidente João Lourenço.

Até a líder do português CDS-PP, Assunção Cristas, na Oposição, foi a Luanda fazer uma palestra sobre as mulheres e teve bom acolhimento, não só político, como pessoal.

E mais, apear de já, há muito, se saber quem seria o nosso novo representante em Lisboa, ontem o Presidente João Lourenço, oficializou o nome do diplomata que vai ser credenciado na capital portuguesa, como Embaixador Extraordinário e Plenipotenciário na República Portuguesa: Carlos Alberto Saraiva de Carvalho Fonseca.

Ou seja, as relações entre dois povos que falam a mesma língua, que são fraternos – ainda que, como dois bons irmãos, umas vezes estão juntinhos, outras sai maka, mas no fim, estão, de novo, como se nada fosse – e que estavam inquinadas por causa de um processo judicial, pareciam ter entrado na normal via de boas relações. Até porque relações económicas e sociais entre os dois Países a isso manda o bom senso que se normalizem e estabilizem.

Parecia, porque, na quarta-feira, o director do Jornal de Angola, no seu editoral, escrevia, a dado passo, que, e cito «o desconforto por que passaram as relações oficiais entre os dois países parece agora ultrapassado, mas deixou danos que, apesar de reparáveis, ainda vão fazer-se sentir por algum tempo» ainda que ressalve, quanto às relações entre os dois Países, que «os dois países estão condenados a entender-se» mas que «esse entendimento passa, acima de tudo, pelo respeito, pela soberania e pela não-ingerência, que recorrentemente são ignorados em nome de liberdades que agendas escondidas no tempo vão buscar para sustentar velhos desígnios».

Resumindo, andam as relações externas tentar normalizar o relacionamento entre Estados e há quem queira sustentar que a diplomacia visa ser coercitiva ou uma diplomacia de alguma violência verbal que pode colocar em causa o que as relações externas puras, e a diplomacia de bom tom, procuram normalizar.

Um pouco de bom senso e de moderação não ficaria mal aos nossos editorialistas. Parece haver quem esteja a escacar as boas vontades do Presidente João Lourenço…

Fonte: Flávio Pedroso Mendes (2010). “O Uso Político da Capacidade de Destruir: a permanente relevância de “Arms and Influence”, de Thomas C. Schelling”, in: Revista Política Hoje, Vol. 19, n. 2, 2010: 560-569.

*Investigador do Centro de Estudos Internacionais do ISCTE-IUL(CEI-IUL) e Pós-Doutorando da Faculdade de Ciências Sociais da Universidade Agostinho Neto**

** Todos os textos por mim escritos só me responsabilizam a mim e não às entidades a que estou agregado

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