Há “Flores” que encantam

É proibido proibir! Se este foi o slogan dos jovens parisienses em maio de 1968. Recordo aqui um encontro que tivemos em fevereiro deste ano num espaço lisboeta, um capicua lobitanga impõe no Café de La Musique um “devir obrigatório”, uma espécie de orientação não imposta , uma cordial proposta que se transforma num: É obrigatório ouvir!

Só um artista da dimensão de Paulo Flores, justifica estar de pena afiada neste horário em que preparei esta crónica (06:35). A sua arte , classe e engenho são elementos que justificam toda e qualquer chegada tardia , toda a noite vadia , qualquer zanga da pura “Maria ” cá em casa . Com as presenças de Nelo de Carvalho, Heavy C, Tito Paris, Leonel Almeida e Matias Damásio , Paulo Flores lá nos levou a viajar pelo Semba , Morna, Fado, Rock, Pop e Reggae , mostrado toda a sua versatilidade , capacidade criativa e improvisação artística . Quando desafiou Matias Damásio a fazer uma espécie de “free style” com Semba . Foi um momento de em que a sua capacidade de improviso e o seu talento artístico se juntaram criando uma “nuvem radioactiva” de bons ritmos e sons. A música de Paulo Flores tem a capacidade de despertar em nós verdadeiros e prolongados “orgasmos cerebrais”.

“Só quem tem sentimento entende este nosso momento” dizia Paulo Flores , durante as actuações para uma plateia dividida entre algumas ” ervas daninhas ” que ainda teimam em deixar espaço para que as “flores” cresçam . E os ” beija – flores ” que sabem sentir o perfume e sugar o néctar das “flores”. Uma flor só não é suficiente para definir o talento de Paulo. Será preciso juntar várias flores, será preciso criar um boquet de flores para que tenhamos a perfeita definição de Paulo . Juntava algumas rosas, que tal como a música de Paulo , dispensam qualquer apresentação no mundo dos gestos de apreço e dos afectos. Que tal como a música de Paulo, são capazes de se adequar a todos os momentos em que as palavras parecem insuficientes para marcar o momento . Juntava também alguns cravos , que tal como a música de Paulo, possuem um aroma peculiar e delicado.

A sua fragrância envolvente, o seu perfume sedutor, as suas cores vibrantes alegram e aquecem tanto o coração de quem recebe quanto o de quem oferece. E por fim juntava uns lírios, que tal como a música de Paulo, São flores lindas, amadas por jardineiros, floristas, e qualquer um que aprecia a sua beleza e fragrância . Têm pureza e candura, têm um misto de paixão e loucura. Tal como na música de Paulo. Ele não cabe apenas numa flor mas sim em três ou mais flores. Por isso ele é Paulo Flores . É uma espécie única, rara e quase em extinção na nossa “flora musical e cultural”. Uma espécie que deve ser apreciada e preservada.

Há vozes que despertam as cordas da alma. Há vozes que nos fazem perder a noção do tempo e dos espaço. Ou até melhor: há vozes que projectam para outros espaços, para outras galáxias. Ontem, naquele campo de batalha chamado “Café de La Musique”, um batalhão de tropas bem treinadas , armadas até aos dentes, preparadas para resistir às investidas poéticas do “Guerreiro Paulo”. Um batalhão de tropas previamente informado e preparado a não resistir ao perfumes , ao encanto das flores . Um quarto de horas depois , estava aquele mesmo batalhão de tropas a fazer à entrega voluntária do seu arsenal bélico ao justo vencedor. A tropa estava em debandada , em êxtase , em perfeito deslumbre. A tropa presente no “Café de La Musique” não resistiu a potência daquela arma de destruição de rótulos, de desconstrução de títulos, cargos ou privilégios. Era a rendição incondicional ao talento de Paulo Flores.

Na sua música há espaço para todos . Quer sejam Bajús, Revús, Medrús ou Vijús, todos cabem na “ousada e abusada” criatividade de Paulo Flores . Ele ainda é uma das poucas vozes que: “nos fazem suportar o orgulho em sermos angolanos”. É uma música convidativa e que tal como a diplomacia, não impõe . Propõe. É apelativa , é convidativa . Os que inicialmente se sentem ofendidos, acabam “nos finalmente” bem rendidos ao seu poder criativo.

E quando começava o dia, lá estávamos, o Paulo e eu a caminhar pela Avenida da República em Lisboa e a falar de outra república : a nossa Angola. A falar de uma Angola que acontece fora de Angola. E Lisboa amanhecia ao som de um Paulo Flores inspirado, com uma plateia em movimento que não contava com momento. De um Paulo Flores e de um Mr. Vivências que acabaram por descobrir que são ambos netos de um avô com o nome Fragoso . Ele do lado paterno (o pai do Kota Cabé era um Fragoso) e eu do lado materno (o pai da minha mãe era um Fragoso). Mas quando se amanhece ao lado Paulo Flores são tantas descobertas , são tantas vivências . E no hora da despedida , o Paulo “fechou” com esta:

  • Laureano, me liga mais tarde. Mas só lá pra 18 horas. O Salu Gonçalves falou bem e com verdade. Eu só acordo mesmo lá prá tantas. De manhã nem pensar . Me liga mesmo yá?. Vou cobrar. Tchau.

Portas fechadas e o metro da linha amarela arrancava . Acabava o meu tempo de antena. Era chegado o momento para outros no interior do metro , usufruírem do talento, do canto e encanto de Paulo Flores . E enquanto subia as escadas rolantes da estação, pensava naquela noite e naqueles momentos.

Realmente, há ” Flores ” que encantam à alma e muitos ” fantasmas ” espantam. Há “Flores” que já não cabem em certos vasos , têm de ser transplantadas para outros jardins porque correm o risco de serem destruídas pelas “ervas daninhas”. Enfim, há “jardins” que não merecem as “Flores” que têm . Há “jardineiros” que não têm boas mãos para cuidar das “Flores” que crescem no seu jardim . Há “Floristas” que não sabem o valor das “Flores” que vendem.

Felizmente , algumas “Abelhas” vão sabendo sugar o néctar das “Flores”. É simples mas também complexa a nossa flora . Há flores que acabam destruídas pelo tempo, outras há vão sendo retiradas do jardim porque quem não sabe apreciar o seu brilho e beleza. Há também que não tenha “boa mão” para cuidar e tratar das flores que ordem e graça da natureza vão crescendo no seu jardim. Vão escasseando as flores e certos “jardineiros” vão perdendo visão, tacto e olfacto. Pois, há ” flores” cujo perfume todos querem sentir e há flores cujo o canto nem todos têm discernimento para ouvir. Há “Flores” que encantam. E como encantam…

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