Huíla quer recuperar história dos bóeres que desenvolveram a agricultura em Angola

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Mais de quatro décadas depois da saída dos últimos bóeres da Humpata, localidade no sul de Angola, o Museu Regional da Huíla, no Lubango, esta a tentar recuperar a história de uma comunidade que marcou a agricultura local.

Uma tarefa que, segundo Soraia Ferreira, 36 anos, diretora daquele museu, não tem sido fácil, devido à falta de informação e documentação oficial do período colonial português, até 1975.

“É também um trabalho que também temos de fazer, porque temos indicação de um ou outro sítio que poderão estar associados à passagem bóer, mas não sabemos dizer quais os sítios”, explica, ao receber a Lusa na sede do museu, no Lubango.

Não sendo a única, conta Soraia Ferreira, a comunidade bóer foi, de resto, uma das responsáveis pelo desenvolvimento da agricultura na Huíla, províncias das mais produtivas, em termos agrícolas, em Angola.

“Uma das inovações tecnológicas que os bóeres trouxeram para cá foi o sistema de irrigação”, recorda a diretora do Museu Regional da Huíla.

Um cemitério secular, com 20 campas dos primeiros bóeres, conservado no interior de uma fazenda da Humpata, é o único vestígio, conservado, da presença daquela comunidade em Angola.

Ainda assim, e apesar da falta de informação detalhada sobre os bóeres, aquele museu conseguiu recuperar, entre outros elementos, uma estátua do período colonial, do alferes português Artur Paiva, nomeado em 1882 o primeiro administrador do então concelho acabado de formar, de nome Humpata.

O português acabou por casar com Jacquelina Botha, precisamente a filha do chefe da colónia bóer da Humpata. A primeira colónia de 270 bóeres era então, em 1880, composta por 57 chefes de família, liderada por Jacobus Botha.

Pouco antes, recorda Soraia Ferreira, tinham surgido os primeiros contactos entre a administração colonial portuguesa e Jacobus Botha, à frente destes bóeres fugidos dos conflitos na África do Sul.

Negociações que permitiram à comunidade bóer, que chegou a ser de 80 famílias, que lideravam as fazendas locais, ocupar, para cultivo, um total de 3.000 hectares de terrenos na Humpata.

“Foi a maior fatia da comunidade que se instalou ali”, refere Soraia Ferreira, com base na investigação que está a ser feita sobre a colonização da Humpata, um dos municípios da província da Huíla, onde formaram a colónia de São Januário.

Os bóeres chegaram à Humpata numa longa travessia de mais de 3.000 quilómetros, em carros puxados por animais, e o maior período da presença deu-se até 1928, apesar de os últimos elementos desta comunidade só terem deixado Angola aquando da proclamação da independência, em 1975.

Soraia Ferreira explica que sucessivos desentendimentos entre a comunidade bóer, os colonos e a administração portuguesa levou à progressiva saída desta comunidade, desde logo por, contrariando as ordens iniciais, terem avançado para a compra de terrenos na Humpata.

“Começou a haver alguns conflitos devido às exigências que a administração portuguesa fazia aos bóeres, naquilo que devia ser a sua ação”, apontou.

Um pequeno grupo de bóeres acabou por sair para as províncias vizinhas do Huambo e do Bié, mas a maior parte regressou à África do Sul, ao fim de cerca de 50 anos em Angola, recorrendo aos mesmos carros de bois em que chegaram à antiga colónia portuguesa.

Conhecedora de avançadas tecnologias agrícolas, mas também profundamente fechada sobre si mesma, em Angola, aquela comunidade viveu algumas exceções, como a própria diretora do Museu Regional da Huíla conta, na primeira pessoa, ao explicar que um dos tios se casou com uma descendente bóer da Humpata.

“Era uma comunidade muito fechada, mas houve essa abertura”, concluiu Soraia Ferreira.

Fonte: Lusa

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