Humor é poder!

Costumo dizer que a vida é dura demais para não ser acompanhada de uma pitada de humor. Tal como alguém disse: “o sonho comanda a vida”, também penso que o humor comanda a vida. Os humoristas têm o engenho e arte de se rir e fazer-nos rir das várias situações da vida, mesmo até aquelas mais difíceis. Com a sua criatividade e apurado sentido de humor lá vão conseguindo fazer-nos esquecer ou aliviar as nossas “malambas da vida”. Os brasileiros costumam dizer “rir para não ter de chorar”, mas, verdade seja dita, os bons humoristas são capazes de nos fazer “chorar de tanto rir”. O humor é poderoso e dificilmente se consegue limitá-lo. Colocar limites ao humor é como que travar a liberdade de expressão e a criatividade. E é a tal ausência de balizas que faz muitas vezes o humor sair da sua zona de conforto e testar os seus limites.

A vitória esmagadora do humorista Volodymyr Zelensky na segunda volta das eleições presidenciais ucranianas abre um período de forte incerteza quanto ao rumo do país. O comediante, de 41 anos, tornou-se famoso por fazer o papel de presidente na série de televisão Sluga Narodu (O Servo do Povo) ganhou com 73% dos votos, enquanto o segundo se ficou pelos 24%. A sua eleição significa que um homem sem qualquer experiência política vai liderar um país envolvido num conflito com a Rússia, que em 2014 anexou a Crimeia e ganhou o controlo da região industrial do Donbass. 
Volodymyr Zelensky é um homem que passou de improvável a previsível. De Presidente na ficção para Presidente na vida real e com direito a um guião completamente diferente e sem espaço para improvisos. Um homem sem muitos trunfos além de uma carreira pública como actor, Zelensky fez uma campanha sem comícios, sem programa eleitoral, sem uma linha orientadora, mas apenas com espectáculos de comédia que culminou no tal debate com o rival Petro Poroshenko, no Estádio Olímpico de Kiev, perante 70 mil pessoas. Ao eleger Zelensky Presidente, a Ucrânia entrou agora para o período do desconhecido, das incertezas e preocupações. Pouco se sabe sobre o seu programa de governação, a que tipo de reformas quer dar prioridade, como pretende combater à corrupção e melhorar o nível de vida dos ucranianos, como lidará com o Fundo Monetário Internacional (FMI), que tipo de relação pretende estabelecer com a União Europeia e a Rússia, como responderá aos investidores que lhe exigem que acelere as reformas necessárias para atrair capital estrangeiro e que mantenha a Ucrânia num programa do FMI. Zelensky, que toma posse em Junho, garantiu que pretende dar continuidade às negociações de paz do Acordo de Minsk, mediadas pela Alemanha, França e Rússia, com o objectivo de acabar com o conflito no Leste da Ucrânia que, desde 2014, fez mais de 13 mil mortos. Apesar de estar formalmente em vigor, o acordo não conseguiu pôr fim aos confrontos, que continuam a fazer vítimas dos dois lados do conflito. Pode contar com o apoio de Bruxelas e da NATO e da Alemanha. A Rússia espera ter, com a vitória de Zelensky, uma oportunidade de amenizar as relações entre os dois países mas para já prefere “esperar para ver”. A União Europeia e a NATO vão continuar os esforços para ver a Ucrânia como baluarte do combate contra a expansão da Rússia na Europa do Leste e esperam contar com o “alinhamento” de Zelensky.

A política tem um horror ao vazio e quando há um défice de representação, quando há um acumular de insatisfação e ausência de expectativas, quando os partidos já não conseguem ser, por si só, o símbolo da representação das sociedades, criam o cenário perfeito para que surjam candidatos “improváveis e imprevistos” como Volodymyr Zelensky. A sua eleição é encarada como um cartão vermelho que os ucranianos mostraram a um sistema político corrupto e obsoleto que desde a independência, em 1991, pouco tem feito pelos cidadãos. Mais do que votar em Volodymyr Zelensky, o que os ucranianos fizeram nesta segunda volta foi votar contra Petro Poroshenko e todo o sistema que ele representava. Foi uma espécie de solução-Tiririca, “pior do que está não fica”. Qualquer que fosse o candidato servia para deitar abaixo todo um sistema corrupto e desgastado.

As atenções também se concentram nas relações de Volodymyr Zelensky com o oligarca Igor Kolomoiski, cujo críticos apontam como sendo o verdadeiro mentor da candidatura. O oligarca era o dono do PrivatBank, o maior banco privado da Ucrânia, até ser nacionalizado em 2016, por ordem do então Presidente, Petro Poroshenko, sob suspeita de ter sido usado para lavagem de dinheiro e fraude. Durante a campanha, Zelensky garantiu, que, se fosse eleito, não ia interferir no caso cujo processos decorrem em tribunal. Mas Igor Kolomoiski poderá ser a peça fundamental desta engrenagem que movimenta o já chamado Fenómeno Zelensky.
Volodymyr Zelensky tomará posse em Junho, mas até Outubro ficará sem muita margem de manobra ou de mãos atadas. É que nesse mês serão realizadas as eleições legislativas para a formação de um novo Parlamento, o que será crucial para determinar a liberdade de acção, a independência política e o poder de decisão de Zelensky. Os aliados do agora Presidente eleito já fundaram um partido, mas ainda não há garantias de que vá concorrer às eleições legislativas de Outubro. A ideia será, na linha do “Em Marcha” de Macron, em França, aproveitar o “estado de humor” dos ucranianos e repetir a experiência francesa. O novo Presidente precisa de uma coligação maioritária e funcional no Parlamento para aprovar as suas políticas e fazer cumprir o seu programa de Governo. Actualmente o Parlamento ucraniano é dominado por uma maioria muito próxima de Petro Poroshenko, que, certamente, fará dura oposição a Zelensky e tornará o panorama político ucraniano mais caótico e de grandes incertezas.


“Um cidadão vulgar logrou furar o Sistema”, disse Zelensky após a vitória na segunda volta das eleições presidenciais. Um “Servo do Povo” que começou a ser presidente na ficção e se tornou Presidente na vida real. Um comediante sem experiência política que, com o seu humor carrega as esperanças de toda uma nação. Na Ucrânia, o poder estava sem graça e sem alma. O que começou sendo improvável passou a ser previsto e tornou-se um facto: o humor chegou ao poder. Se muito se falava no poder do amor, agora na Ucrânia se acredita no poder do humor. Um presidente a brincar agora é um Presidente a sério. Ou Zelensky poderá ser a confirmação do que muitos dizem: a política é uma comédia. Sem guiões, sem câmaras, sem duplos, sem hipóteses de improviso vamos ver quanto tempo durará o “Estado de humor” de Zelensky. Até lá, de uma coisa temos a certeza: na Ucrânia, humor é poder!

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