Órgãos de imprensa “investem” num jornalismo populista?

O Termómetro da Imprensa começa, na edição de hoje, a sua análise sobre o desempenho da imprensa angolana no período 27 Fevereiro – 6 Março com uma nota super negativa para os órgãos de comunicação social públicos e privados, de uma maneira geral, pelo tratamento jornalístico que deram à conferência de imprensa da Sonangol, realizada na quarta-feira, 28 de Fevereiro, assim como trataram as suas reacções. Por essa razão, abrimos o TI com o negativo.

 

O Negativo
De uma maneira geral, os órgãos de comunicação social públicos e privados deram um mau tratamento jornalístico à conferência de imprensa da Sonangol, que revelou, por meio do PCA Carlos Saturnino, que o administrador responsável pelas Finanças, na gestão de Isabel dos Santos, ordenou uma transferência no valor de 38 milhões de dólares para a Matter Business Solution, com sede no Dubai, sem no entanto dizer se tal transferência é ilícita ou não, já que o novo Conselho de Administração da Sonangol ainda não tinha tomado posse quando tal acção ocorreu, segundo palavras de Carlos Saturnino.

 

Os outros ângulos dessa conferência de imprensa foram, igualmente, tratados de forma semelhante pelos diversos órgãos de comunicação social públicos e privados. Divulgou-se massivamente o que o responsável número um da maior empresa estatal angolana pretendia passar ao público. Os seus objectivos foram concretizados. Mas fez-se jornalismo?

 

Os jornalistas serviram apenas de caixa de ressonância de Carlos Saturnino. Sobre a transferência ilícita dos 38 milhões de dólares, é uma acusação grave. É negativo. É anormal. Tem interesse público. Representa um grande desfalque, com prejuízos à Sonangol e ao país. É notícia, mas não é uma acusação nova!

 

Depois da exoneração de Isabel dos Santos, o Maka Angola de Rafael Marques elaborou notícias que davam conta de várias transferências alegadamente ilícitas de dinheiro a favor da empresária angolana. Qualquer jornalista minimamente atento ao que passa no país e no mundo apercebeu-se dos artigos publicados pelo Maka Angola. Isabel dos Santos chegou, inclusive, a desmentir os artigos elaborados por Rafael Marques, dizendo que se tratava de “falsas notícias”. Mas sempre se questionou por que não conseguia processar Rafael Marques, se de facto era (é) inocente, vítima de falsas notícias que atentam, segundo os seus pronunciamentos nas redes sociais, ao seu bom nome, à honra e à sua reputação. Nunca se percebeu por que não pediu a publicação de um texto como “direito de resposta” ao Maka Angola, se se sente “caluniada” por má-fé do jornalista Rafael Marques.

 

O caricato nesta história é que nenhum órgão de comunicação social público ou privado fez questão de ir atrás das notícias relacionadas com o mesmo assunto, publicadas pelo Maka Angola, muito antes da tão publicitada conferência de imprensa, citando a fonte da notícia e indo à busca do contraditório, Isabel dos Santos, como manda o princípio da imparcialidade, para satisfazer a regra de ouro de um jornalismo sério: interesse público.

 

Por não ser uma notícia verdadeiramente nova, embora seja a primeira vez que um responsável acusa publicamente ter havido má gestão de Isabel dos Santos à frente da Sonangol, envolvida em alegados crimes, a sua abordagem devia merecer um tratamento jornalístico mais profissional.

 

Neste casos, quando não é um assunto novo, quando já alguém noticiou os mesmos alegados crimes, os manuais de jornalismo recomendam que os jornalistas devam pensar fora da caixa para não servirem interesses populistas de governantes. Por que razão, no balanço de seus primeiros cem dias de governação, Carlos Saturnino vem mostrar publicamente más práticas da anterior gestão, se existem mecanismos oficiais próprios para se responsabilizar quem desviou ilicitamente, caso se prove, o dinheiro da empresa do Estado, se até mostrou ter provas? É a primeira pergunta que qualquer jornalista que pensa fora da caixa devia fazer.

 

A resposta a esta pergunta faria mudar o ângulo de abordagem que quase todos os jornalistas que estiveram na referida conferência de imprensa deram à sua notícia. Noticiou-se o óbvio, quando o assunto não é tão simples como parece. Se os jornalistas estiveram numa conferência de imprensa – e pressupõe-se que uma conferência de imprensa é feita por perguntas e respostas e não por uma palestra de quem pretende aparecer na televisão a vender o seu peixe sem ser questionado –, por que não se perguntou ao PCA da Sonangol as suas razões objectivas de usar meios de comunicação social angolanos e estrangeiros para fazer chegar uma acusação tão grave contra a anterior gestão, se dispunha de mecanismos oficiais para resolver o assunto, e, até, sem espantar a caça?

 

Quando é que o PCA se apercebeu da referida transferência? Não leu as notícias do Maka Angola que davam conta deste assunto logo que Isabel dos Santos foi exonerada da Sonangol? Não leu outros alegados desvios descritos no Maka Angola? Há outros desvios de dinheiro para além da transferência ilícita que referiu? Por que não accionou a Procuradoria Geral da República antes de falar para os jornalistas? Não confia na Justiça angolana? Pretende dizer já aos angolanos que a sua gestão, até 2022, vai ter resultados negativos por culpa de má gestão de Isabel dos Santos? O que pode acontecer com a Sonangol se não recuperar tal dinheiro? Se estas perguntas fossem feitas ao responsável, já que foi uma “conferência de imprensa”, as respostas de Carlos Saturnino conduziriam a um tratamento da notícia com mais interesse público.

 

Lembramos que, quando um governante está a falar, o jornalista deve sempre procurar o que está atrás das suas palavras. Deve procurar sempre que ele diga o que eventualmente não queria dizer, o que não queria assumir publicamente. O que ele não quer dizer, o que ele esconde, tem mais valor noticioso do que a propaganda que ele programou dizer aos jornalistas. É por isso que o jornalista tem de pensar fora do óbvio. Deve procurar o fio lógico do fenómeno que está a reportar. Não pode ser um mero papagaio-transmissor.

 

E quais são os outros problemas da Sonangol? O que o PCA promete resolver no seu mandato? Tem cronograma de acções? Quando é que será o próximo balanço? Aventa a hipótese de se demitir caso o dinheiro não volte à Sonangol? Por que a Sonangol nunca está aberta a prestar esclarecimentos pontuais aos jornalistas sobre problemas de escassez de combustíveis e desvios diários de combustíveis, que causam graves prejuízos ao Estado? Por que o senhor presidente do Conselho de Administração da Sonangol se limita aos “comunicados de imprensa” para transmitir recados aos angolanos? Sempre aconteceu com as anteriores gestões e continua a acontecer com a de Carlos Saturnino. Porquê? Por que não usou um “comunicado de imprensa”, como sempre faz, agora para acusar a gestão de Isabel dos Santos, já que quando os jornalistas precisam de esclarecimentos da Administração da Sonangol nunca se está disponível a falar, como se não existisse uma área de Assessoria de Imprensa que pudesse ajudar os jornalistas a saber sobre o que fosse de interesse público? E as revelações do relatório feito pelo PCA Francisco de Lemos? Qual a garantia que os angolanos têm que o próximo PCA da Sonangol não possa dizer também que o senhor Carlos Saturnino desviou ou cometeu isto ou aquilo?

 

E por que a semana terminou sem nenhum jornalista ter conseguido obter o contraditório: as alegações de Isabel dos Santos? Todos se limitaram a recolher as alegações de Isabel dos Santos feitas nas redes sociais. As redes sociais valem mais que os órgãos tradicionais de comunicação? Não há capacidade por parte dos nossos jornalistas em conseguir uma entrevista ou um debate público entre o actual PCA e a antiga, que está a ser acusada?

 

Não será que assim se está a promover um jornalismo populista em que qualquer dirigente chama a imprensa para vender o seu peixe, sem se explicar ao público o lado oposto das suas afirmações? Ou então qualquer dirigente emite um comunicado de imprensa nas redes sociais, pois sabe que os jornalistas – que não se dão valor – vão até destacar o que escreveram?

 

E o jornal “Folha 8” fez questão de opinar – o que é um erro frequente – que Carlos Saturnino terá dado uma aula de como se fala em conferência de imprensa! Aliás, o jornal “Folha 8” faz mais opinião do que apresenta factos. Quase todos os seus artigos são, frequentemente, elaborados com base na opinião de quem os escreve. As suas “notícias” demonstram ter uma carga subjectiva, do jornalista que a elabora, muito elevada, o que deve retirar interesse ao leitor que gosta de imparcialidade, rigor e objectividade na elaboração da notícia.

 

Repare, por outro lado, que a seguir à conferência de imprensa a Procuradoria Geral da República veio lançar um comunicado de imprensa a dar conta de que como tomou conhecimento de órgãos de comunicação social da acusação do PCA da Sonangol e portanto “decidiu” instaurar um inquérito para se apurar a verdade do que foi tornado público.

 

Novamente, quase todos os órgãos de comunicação social públicos e privados fizeram manchete e destacaram a instauração de um inquérito na PGR. Porquê? A PGR só pode abrir uma investigação se a denúncia partir do Jornal de Angola, Angop, RNA ou TPA? A alegada transferência e outros alegados desvios de dinheiro a favor de Isabel dos Santos, enquanto esteve à frente da Sonangol, foram tornados públicos pelo Maka Angola, muito antes da conferência de imprensa da passada quarta-feira. Por que a PGR não fez um igual comunicado, na altura, com base na divulgação de notícias sobre o mesmo assunto no Maka Angola?

 

É um portal de notícias que não tem credibilidade? Então, por que anunciou a abertura de uma investigação para apurar crimes de assassinato de cidadãos angolanos, supostamente marginais, protagonizados alegadamente por efectivos do Serviço de Investigação Criminal (SIC), uma denúncia feita no Maka Angola de Rafael Marques e pela mesma via ignorada no assunto Isabel dos Santos? Qualquer jornalista que pensa fora da caixa devia questionar-se isto.

 

O Maka Angola serve para abrir investigação para alguns crimes, já para outros tem de aparecer um dirigente a falar na televisão para se publicitar que está a fazer o seu trabalho? E por que a PGR não investiga no silêncio? Uma investigação tem de ser publicitada na imprensa? Por que não abriu a investigação antes, se qualquer órgão de investigação (sério) investiga sempre que alguém denuncia crimes, independentemente do veículo que usa para fazer chegar a denúncia ao público? E por que nunca mostra resultados da sua investigação? Se Isabel dos Santos provar que é inocente, Carlos Saturnino poderá responder à Justiça por veicular falsos testemunhos? Poderá ser exonerado? Poderá ser um certificado de incompetência para quem o nomeou na Sonangol, o Presidente da República João Lourenço?

 

Basta emitir-se um comunicado de imprensa sobre o que deve ser a sua responsabilidade para se fazer manchetes e destaques nos jornais? Isto é jornalismo sério? Fazer uma investigação –  o que é objecto da PGR – depois da “palestra” de Carlos Saturnino, é notícia? O óbvio é notícia? O normal é notícia? E abre jornais (sérios)? Onde está o anormal, Jornal de Angola, Jornal “O País”, Folha 8, TPA, RNA, TV Zimbo, Rádio Ecclésia, Rádio Mais, LAC, MFM?

 

Os jornalistas devem ter cuidado para não servirem de estímulo para o aumento de uma eventual gestão populista dos governantes. Por que não foram à busca de outras respostas da PGR? Por que fazer propaganda de um comunicado unilateral, sem se poder fazer perguntas para se satisfazer o interesse público com rigor, imparcialidade, isenção e objectividade? É assim que se pretende aumentar o respeito à classe? É assim que o jornalismo angolano pretende ser o quarto poder, como um contrapeso do poder?

De uma maneira geral, os órgãos de comunicação social caíram no populismo. Não conseguiram pensar fora da caixa. Foram uma mera caixa de ressonância de Carlos Saturnino e da Procuradoria Geral da República. Deixaram-se levar pelos recados que se pretendia mandar e ponto final parágrafo.

 

Com a agravante de, supostamente, Isabel dos Santos fazer um comunicado de 13 páginas a defender-se das acusações e todos os órgãos novamente destacaram o que, supostamente, a empresaria angolana terá dito. Por que Isabel dos Santos não promoveu também uma conferência de imprensa para explicar o que pretende? Por que Isabel dos Santos simplesmente ignora o trabalho dos jornalistas angolanos, priorizando dar entrevistas a órgãos estrangeiros? Por que os órgãos fizeram destaque com um comunicado que nem têm a certeza se foi ou não elaborado pela mesma? E mesmo que foi elaborado por ela, em jornalismo existe o “princípio de igual tratamento”. Carlos Saturnino não falou por “comunicado de imprensa”. Falou de viva voz. Isabel dos Santos devia ser “obrigada” a usa a mesma via.

 

Era suposto que qualquer órgão de comunicação social sério conseguisse obter os pronunciamentos (falados) de Isabel dos Santos, com perguntas e respostas e não para vender também o seu peixe. Mais uma vez, os jornalistas, de uma maneira geral, prestaram um mau serviço público. Estimularam contradições, ataques e contra-ataques, quando se devia tratar o assunto de forma profissional.

 

A Lei de Imprensa angolana não diz que basta um cidadão qualquer ou instituição ser acusado para se escrever, de forma unilateral, um comunicado e os órgãos terem a obrigatoriedade de os ler. Não é verdade. Nenhum órgão público ou privado tem obrigatoriedade de ler um comunicado de imprensa, se a pessoa/instituição visada não pretende dar entrevista. Se o jornalista solicitou o contraditório e não obteve, não pode ser obrigado a ler um comunicado com alegações unilaterais. Se a pessoa visada não respeita o trabalho do jornalista, por que o jornalista tem de publicitar o que a pessoa quer dizer? Deviam/devem obrigá-la (Isabel dos Santos) a ser submetida a uma conferência de imprensa, entrevista ou debate de viva voz. Se é inocente, por que não mostra o seu rosto? Por que tem medo das perguntas dos jornalistas? E são os mesmos jornalistas (desrespeitados) que publicitam o que a mesma escreve nas redes sociais. É preciso não perceber o que é ser um jornalista (sério) para se fazer o que está a fazer com este assunto.

 

E agora Isabel dos Santos está a divulgar vídeos para mandar recados nas redes sociais e lá estão também os “papagaios” (infelizmente) a servir de caixa de ressonância para quem nem os respeita. Quando alguém não mostra o seu verdadeiro valor, os que detêm poder financeiro e político brincam com o seu trabalho, simplesmente não o respeitam.

 

Os jornalistas investiram no populismo, o que pode representar repercussões políticas graves para o país. Abriu-se uma guerra clara entre João Lourenço e José Eduardo dos Santos, destacando-se um jornalismo populista sem nenhum rigor. A “guerra” não está entre Carlos Saturnino e Isabel dos Santos. Está-se a usar a imprensa para se passar recados para os lados aparentemente opostos. O MPLA não deve usar a comunicação social para tratar dos seus problemas internos. Se João Lourenço já não quer ser vice-presidente do partido que saia. Se já não se revê no seu partido que saia. Se José Eduardo dos Santos acha que João Lourenço já não pode ser vice do MPLA, muito menos presidente do MPLA, pela maneira como tem dirigido o país, que se resolva isto internamente.

 

A comunicação social não serve para se veicular “fofocas” nem intrigas entre pessoas ou grupos. Quem quiser falar tudo para o público que use os meios de comunicação social e esteja submetido a perguntas variadas – e não para dar palestras nem escrever comunicados que não respondem a perguntas dos jornalistas! – pois todos têm coisas a explicar ao povo angolano. E os angolanos sabem disso.

 

A segunda nota negativa prende-se com a forma como a TPA e TV Zimbo abordaram o mesmo assunto da Sonangol nos seus jornais no domingo, 4 de Março. O Termómetro da Imprensa já tinha chamado à atenção sobre o perigo de se “plantar” comentadores nos jornais.

 

Não faz sentido haver comentadores residentes no jornal de domingo da TPA, que copiou o errado da TV Zimbo, e nunca haver comentadores (especialistas) que estudaram os temas em análise. Será que um sociólogo pode comentar com rigor o que deve ser a conduta correcta de um gestor numa empresa como a Sonangol? Percebe práticas de gestão de forma profunda? Consegue decifrar variáveis para fazer prognósticos de impactos na macroeconomia a curto, médio e longo prazo?

 

Um jurista vai falar com profundidade sobre uma alegada gestão danosa de uma empresa? Um deputado sabe necessariamente sobre o que representa, em termos práticos, um desfalque de 38 milhões de dólares numa empresa como a Sonangol e o que deve ser feito para se resolver o problema, fora das opiniões óbvias que é preciso investigar e responsabilizar eventualmente o (a) autor (a) do crime? Sabe o que representa, ao fim de um exercício económico, a perda de 200 mil dólares por dia versus discurso optimista do PCA da Sonangol que aponta que a Sonangol vai ter saúde, sem explicar, em termos práticos, onde está a saúde?

 

Vicente Pinto de Andrade, deputado do MPLA, comentador “plantado” no telejornal de domingo, que é economista, também não acrescentou nada no telejornal da TPA. Porquê? Pretende-se que os comentadores falem sobre tudo. O que conta no jornalismo (sério) é o conteúdo do que se veicula e não a cor dos olhos da pessoa que emite uma opinião. Cada opinião vale o que vale. Quem vai avaliar o desempenho da Sonangol é o mesmo que vai falar sobre os problemas na República Democrática do Congo, no Lesotho e na África do Sul, e é o mesmo que vai comentar sobre o problema das construções de residências na linha de água? E onde ficam os que estudaram cada ciência em análise?

 

O mesmo comentador, só por ser deputado ou “residente-contratado”, tem de ser economista, politólogo, jurista, especialista em Relações Internacionais e engenheiro Civil para explicar tudo? Ou não precisa ser especialista de nada, basta que abra a boca para comentar qualquer coisa? É possível fazer-se comentários profundos que possam constituir ideias construtivas para quem tem poder de decisão ou só se está a cobrir o tempo do telejornal, mostrando mais rostos políticos do que conteúdos com alguma profundidade? Para que serve o jornalismo afinal?

 

A terceira nota negativa vai para o Jornal de Angola de quinta-feira, 1 de Março. Para não variar, o JA fez uma manchete com uma informação sobre a Proposta de Lei Penal que ainda vai ao Parlamento para ser analisada e receber outras contribuições, quando no interior da mesma edição tem uma “Grande Reportagem” feita pela jornalista Luísa Rogério.

 

Qualquer jornal (sério) faz uma “Grande Reportagem” para ser destacada no seu órgão de comunicação social. Porque a “Grande Reportagem” é previamente programada e estudada pelo Conselho de Redacção. Não é feita ao acaso. Não faz sentido que a redacção do JA escolha um tema (chuva) para “Grande Reportagem”, supostamente que cumpre o “interesse público”, sem merecer a sua exploração da matéria na manchete. Não foi pensada pela redacção? Não se discutiu a pauta? Não se discutiu a sua pertinência? Não se analisou o peso do interesse público?

 

O Jornal de Angola preferiu fazer manchete, destacando uma particularidade da Proposta de Lei Penal, o que não é notícia, por si só, e, estranhamente, preferiu não destacar o conteúdo de uma Grande Reportagem (a sua notícia exclusiva) com o tíltulo “Chuvas acentuam sofrimento na mudança do ano”. A reportagem mostra o sofrimento de cidadãos angolanos, em vários ângulos de abordagem, sempre que chove. Um trabalho interno pensado com antecedência vale menos que um aspecto da Proposta de Lei Penal, que qualquer pessoa pode ler em qualquer sítio? E é só uma proposta ainda. Ainda nem mereceu o olhar crítico dos deputados. Não faz sentido, Jornal de Angola.

 

A quarta nota negativa vai para o jornal “O País” que destaca, em manchete, na edição de quarta-feira, 28, que a “Seca e fome levam o MPLA a percorrer o Cunene”. No desenvolvimento da matéria, consegue-se ver que a seca e a fome só são abordadas depois da propaganda das jornadas parlamentares do MPLA, que estavam a acontecer em Ondjiva, Cunene. Fala-se um pouco sobre os problemas da seca e da fome no fim da alegada notícia.

 

Por que não se começou a peça com o desenvolvimento do título que faz manchete? O lead da notícia mostra que não há ligação entre o título da manchete e o corpo da notícia. A notícia começa por falar sobre apelos de códigos de ética e decoro parlamentar por parte dos 150 deputados do MPLA. Diz que o “certame visava capacitar, formar e informar os deputados sobre a Constituição da República, os estatutos do MPLA e organização e funcionamento do Grupo Parlamentar do MPLA”. Onde está a ligação com a seca e fome no Cunene? Para o MPLA fazer lembrar sobre a observância dos seus estatutos é preciso ir à seca e à fome do Cunene? É uma falsa notícia. É um falso argumento. Não há nenhuma ligação entre seca e fome e jornadas parlamentares do MPLA naquela província. Inventou-se uma alegada notícia para se fazer propaganda para o MPLA.

 

A quinta nota negativa vai para o apresentador da TPA Ernesto Bartolomeu. Não obstante ter havido algumas boas peças ao longo do telejornal da TPA na semana passada, o referido apresentador produziu “chamadas” que esvaziaram as boas peças de repórteres. A chamada da peça não pode dizer tudo o que a peça vai mostrar. A maior parte das peças que Ernesto Bartolomeu chamou não acrescentou nada, porquanto as chamadas acabaram por responder todos os “Q”.

 

No fundo, o apresentador retirou o impacto das reportagens, pois elaborou chamadas mais explicativas do que jornalísticas. Produziu chamadas que não se recomenda em televisão, pois uma imagem vale mais que mil palavras. E é o repórter que conta a história. Não é o repórter que se ajusta à chamada do apresentador. É precisamente o contrário: é o apresentador que se deve ajustar à peça do repórter. A chamada é para dar a ideia do conteúdo da reportagem a ser mostrada a seguir. Não é para o apresentador ser a estrela de uma reportagem que não lhe pertence. O mérito da história que se pretende contar (reportagem) deve ir para o repórter e não para o apresentador. Ernesto Bartolomeu fez um papel inverso.

 

Por outro lado, deve-se agora questionar se as consequências habituais da chuva, que já não são novidade, devem merecer um tratamento prioritário no alinhamento informativo dos jornais falados. Abrir telejornal com um governador que saiu do gabinete para ver consequências da chuva é prioritário no actual contexto? Não será promover populismo? Pode-se correr o risco de qualquer dirigente chamar a TPA para mostrar que subiu numa carrinha e andou no meio da água para ver as consequências da chuva – com o sentido de pretender mostrar trabalho, mesmo que não esteja efectivamente a fazer nada para dar soluções aos problemas que mostra! – quando podia fazer o mesmo exercício sem chamar necessariamente a imprensa.

 

De realçar também, negativamente, que Ernesto Bartolomeu fez perguntas em estúdio em que ele como entrevistador respondeu às próprias perguntas que fez aos entrevistados. Recomenda-se que se faça perguntas claras, curtas e concisas para se evitar que a resposta já esteja na pergunta. Quando um jornalista já responde à pergunta, o entrevistado só confirma o que o jornalista pretende ouvir. Não é um posicionamento imparcial e profissional.

 

A quinta nota negativa vai para a RNA e TPA que, por serem públicos, têm a responsabilidade de trazer ao público matérias de investigação jornalística de grande interesse público, para além das factuais – como o que se disse em conferência de imprensa, sobre incêndios extintos, sobre consequência de acidentes rodoviários, sobre comunicados de sentimento de pesar a famílias enlutadas, sobre mortes de fiéis, sobre consequências da chuva, sobre troca de nome de instituições, sobre discursos de responsáveis do Executivo –, que contem o que não se mostra diariamente na imprensa: o que as pessoas não sabem, o lado errado de dirigentes desde o topo até à base.

 

Ainda não se faz jornalismo investigativo nos órgãos públicos falados. Reportou-se o que todos reportaram, os mesmos fenómenos, ou o que já era de conhecimento público. Nas redes sociais, muitos se aperceberam de tudo o que o foi factual, antes mesmo de acompanharem os seus jornais. Não se foi buscar más práticas de gestão, que dirigentes eventualmente escondem. Não se foi buscar contradições do Executivo de João Lourenço. Não se foi buscar novidades. Reportou-se o óbvio, com excepção do facto de a TPA ter aberto o telejornal de sábado, 3, positivamente, com um protesto público contra altos preços de bilhetes de passagem, praticados pela Taag, Linhas Aéreas de Angola, na Lunda-Norte.

 

A sexta nota negativa vai para o jornal “O País” de sexta-feira, 2, pelo facto de ter feito manchete com uma notícia que mostra divergências na CASA-CE. O alegado facto negativo na direcção da CASA-CE é, realmente, notícia. Mas este jornal mostrou pouca transparência e inclinação alheia ao jornalismo, porquanto fez, na quarta, propaganda para o MPLA, com um título enganador que mostrava que o MPLA teria realizado as suas jornadas parlamentares no Cunene por causa da seca e a fome, e dois dias depois, na sexta, fez manchete com algo negativo da terceira força política.

 

Mostrou ser um jornal que não prima por princípios consagrados na Constituição e na Lei de Imprensa. Não deu tratamento igual e equidistante a duas forças políticas concorrentes: MPLA e CASA-CE.

 

Fica o desafio para este jornal (O País) a elaboração de uma notícia, que faça manchete, que mostre problemas internos no MPLA, tal como o fez com a CASA-CE, para mostrar que é um jornal que prima pelo rigor, imparcialidade e isenção na elaboração de notícias.

 

Se nunca faz uma manchete que mostre também problemas no partido no poder, com provas documentais, como foi buscar para a elaboração da notícia contra a CASA-CE, mostrará para o público-leitor ser um jornal propagandista a favor do MPLA e menos para o exercício de comunicação social isento. Se não provar que também destaca problemas internos do MPLA, e faz manchetes “contra” o MPLA, mostrará ser um jornal que não merece ser levado a sério. Mostrará ser um jornal inclinado.

 

O Positivo

  • O facto de a TPA ter aberto o telejornal de sábado, 3, com uma reportagem que mostrou o protesto da população da Lunda-Norte contra altos preços de bilhetes de passagem praticados pela Taag. A população manifestou-se também pelo facto de as estradas daquela província não serem uma boa alternativa para se deslocarem para Luanda e vice-versa. Foi uma boa peça. É anormal. É novidade. Tem grande interesse público e, portanto, abre qualquer jornal sério em qualquer parte do mundo. Notícia é o anormal.

 

 

 

A redacção central da TPA interpretou muito bem o sentido de interesse público na referida peça que serviu para abrir o jornal apresentado por Kieza Silvestre. Está de parabéns neste aspecto. Que façam mais vezes isto e que tenham a coragem de fazer também reportagens que mostrem más práticas de governadores provinciais e ministros. Não têm de ficar à espera de manifestações para mostrarem o que aflige os governados. Devem antecipar às manifestações com jornalismo de investigação. Quando as pessoas se manifestam significa que algum jornalista não identificou o nível de descontentamento de um grupo. Alguém ficou distraído. As pessoas só se manifestam quando acumulam insatisfações. O jornalista deve procurar motivos que podem concorrer para a realização de uma eventual manifestação pública e ir à busca das causas. O jornalismo investigativo deve funcionar.

 

  • Reportagem de Emílio José no jornal de quinta-feira, 1, na Rádio Mais, que deu conta de que existem cerca de 30 mil angolanos a beber água da lagoa, que não têm luz eléctrica e nenhum hospital no maior município da capital de Angola: Quiçama. É uma reportagem à dimensão de uma RNA, TPA e Jornal de Angola, que, lamentavelmente, não mostram como muitos angolanos vivem abaixo da linha de pobreza na Quiçama e noutros municípios das províncias de Angola.

 

O apresentador do noticiário, Manuel Milonga, disse ter sido a primeira de cinco reportagens. É uma iniciativa louvável, de grande interesse público, é um contraste anormal, é notícia, embora tecnicamente se pudesse melhorar alguns aspectos na construção da história. Ficou-se muito preso às autoridades da zona na primeira peça. De qualquer forma, o repórter Emílio José está de parabéns pelo sentido de oportunidade de uma série de reportagens sobre os problemas da Quiçama. Será interessante ouvir as outras quatro peças.

 

  • A Grande Reportagem feita por Luísa Rogério no Jornal de Angola, descrevendo várias dimensões sobre causas e consequências da chuva. Não obstante não ser um tema novo, não é normal ver-se o Jornal de Angola a produzir “Grandes Reportagens” com temas sociais. A nota positiva aqui vai também pela profundidade que a repórter deu à matéria. As imagens foram também bem escolhidas. Casaram com o texto. Luísa Rogério está de parabéns pelo bom serviço público que prestou ao país.

 

São os aspectos mais negativos e os mais positivos da semana passada na imprensa angolana. O Termómetro da Imprensa elogia o que estiver bem e critica o que estiver mal. Estaremos juntos na próxima terça-feira para medir mais temperaturas da imprensa angolana! Até lá!

1 comments

Parabéns Carlos Alberto pela forma tão transparente que tens adoptado ao abordar determinadas temáticas.
Se todos os órgãos de comunicação social, sejam eles públicos ou privados tivessem esse senso de responsabilidade para com o público que os vê,os ouvem ou lê os seus conteúdos o país não estaria como está…

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