“Isto não é um combate do João Lourenço para mudar Angola, é um combate de Angola para mudar os velhos hábitos”

Celso Filipe é jornalista há mais de 30 anos, actualmente é  director- adjunto do Jornal de Negócios, do grupo Cofina, detentor das marcas Correio da Manhã, CM TV, Record, Sábado, Máxima, Flash e Destak.

Celso Filipe acompanha atentamente a economia e a política angolana, é autor dos livros, O Poder Angolano em Portugal – Presença e influência do capital de um país emergente, Escrevo a Dizer Quem Foi ao Meu Funeral, O que Faria Eu se Estivesse no Meu Lugar. Numa conversa descontraída, Celso Filipe falou sobre o rumo de Angola, sobre a governação de João Lourenço, bem como sobre a situação política da Europa.

Que impacto político e económico teve a visita do Presidente João Lourenço a Portugal?

É cedo ainda para fazer uma avaliação. Do ponto de vista económico, algumas questões ficaram parcialmente resolvidas, como o pagamento parcial da dívida que Angola tinha com algumas empresas portuguesas. Há de facto um novo ambiente nas relações a nível diplomático e politico que pode ajudar os empresários a olhar para Angola com outra perspetiva, embora eu não acredito que haja um crescimento muito grande de investimento português em Angola, não é porque as empresas portuguesas não querem, mas pelas dificuldades que encontram em financiarem-se para investir em Angola, tudo por causa das restrições que Banco Central Europeu (BCE) impôs aos bancos europeus, inclusive muitos portugueses, a reduzirem a sua exposição a Angola, portanto para investir em Angola, tornou-se cada vez mais difícil, até porque as empresas portuguesas não estão muito capitalizadas e o recurso ao crédito bancário que poderia financiar este investimento também é muito mais difícil de conseguir.

E as linhas de crédito?

É claro que existe estas hipóteses, mas acredito que não será suficiente, era importante que o Banco Nacional de Angola, conseguisse outra vez, ter o estatuto de banco correspondente junto do Banco Central Europeu, e seria um sinal importante para o relançamento económico de Angola no sentido das empresas sobretudo as portuguesas, olharem para Angola definitivamente como um destino de investimento.

Terminou a crise política que havia entre Portugal e Angola?

Eu espero que tenha terminado, embora tenho sempre a sensação de que, sem retirar as autoridades portuguesas de qualquer responsabilidade, sinto que muitas vezes Portugal é usada para interesses divergentes de Angola e ajustes de conta. “Eu continuo convencido de que o que aconteceu com o Ex vice-presidente de Angola, Manuel Vicente, tenha partido de Portugal”, não tendo acontecido partiu de Angola com interesses que podem ser mais ou menos explicados, mas há uma serie de argumentos e justificações que são plausíveis. Julgo que as relações irão normalizar a partir do momento em que os governos dos dois países, perceberem que têm que se concentrar no que é de facto mais importante entre os dois Estados e minimizar a importância de eventuais casos judiciais que possam voltar acontecer, embora me parece pouco provável, até pela dinâmica de governação que o Presidente João Lourenço tenta transmitir em Angola

Qual é a sua opinião sobre o primeiro ano de governação de João Lourenço?

Acho que ficamos todos surpreendidos.

Porquê?

Quando ele tomou posse existia e existe ainda, no sentido de que um líder para se afirmar e mostrar que tem poder tem que o exercer, e o Presidente João Lourenço fez isso, mas fê-lo numa dose que eu, pessoalmente, não esperava tanto em tão pouco tempo, neste sentido de facto é surpreendente, por tudo que fez no ano passado e o que está a fazer este ano, não só pelos discursos, mas também pelas medidas e acções pelas quais tem dado a cara.

Faz-me crer que este processo de transformação política de Angola vai ser irreversível

Havia muitas dúvidas?

Poderia haver dúvidas, mas agora parece-me que todos estão a espera que ele concretize ainda mais as mudanças e neste sentido, alguém que foi capaz de fazer tanto em tão pouco tempo merece elogios, sabendo que herdou uma situação económica difícil e que vai continuar a ser difícil no próximo ano.
O facto dele ter recebido os representantes da sociedade civil, também tem haver com esta necessidade que o governo de João Lourenço vai ter de ter apoio popular para as mudanças, numa época difícil para Angola, como diz o ditado “ Numa casa em que não tem pão, todos ralham e ninguém tem razão”, Agora julgo que estas audiências também terão servido para esta finalidade, dar suporte e apoio popular ao governo de João Lourenço, sem pôr naturalmente em causa a legitima vontade dele em se abrir a sociedade civil, que acho optimo, ninguém esperaria, mesmo quando ele tomou posse que alguma vez pudesse receber o Luaty Beirão, Alexandra Simeão e Rafael Marques no palácio.

Qual acha que deverá ser o papel de Rafael Marques neste processo, sendo ele uma figura com influência internacional, em meios políticos, diplomáticos, académicos e até económicos?

Acho que todos têm a sua responsabilidade, João Lourenço deverá tê-los desafiado a fazerem parte da mudança e não da oposição. Entretanto, para fazerem parte da mudança têm de colaborar ativamente nela, passando a mensagem, que não é possível fazer tudo de uma só vez e que o processo da diversificação da economia, encontrar novos investidores e a recuperação da credibilidade vai ser demorado. A maior parte das organizações não governamentais que serviram como oposição não declarada no governo de José Eduardo dos Santos, podem servir agora de aliados às mudanças que estão a ser promovidas por João Lourenço, no sentido de fazerem parte da solução e não dos novos problemas que poderão eventualmente surgir, em resultados dos problemas económicos que Angola ainda atravessa.

Sobre a corrupção. Como é acha que Angola deve lidar com este mal?

Há corrupção em todos os países, nunca se acaba totalmente com a corrupção. Agora a corrupção, institucionalizada e ao mais alto nível que é o caso de Angola, essa sim é possível acabar, está corrupção está com poucos, depois delapida de forma brutal o erário do Estado, é essa a corrupção que João Lourenço quer acabar. Agora a pequena corrupção do funcionário público, do papel, é muito mais difícil, não é o exclusivo de Angola, nem de África, acontece em muitas partes do mundo e em outros continentes, agora sendo uma questão do bom nome do Estado e de quem dá a cara pelo Estado, não pode ter este tipo de suspeita. Por exemplo o Ministro da Comunicação Social de Angola, João Melo, disse recentemente que só a corrupção lesou o Estado angolano em mais de dois mil milhões de dólares. “Este é quase o valor que o FMI vai emprestar em Angola”. É brutal, o dinheiro que o FMI vai emprestar à Angola, que são 3,7 mil milhões de dólares, é o total da divida da Sonangol no início do ano, portanto, acho que a boa gestão da coisa pública é fundamental para qualquer país e por esta razão é fundamental também para Angola.

Há quem diz ser este um processo quase impossível. Partilha desta opinião?

É muito difícil de combater a corrupção, mas para se acabar a maratona tem de se começar a corrê-la, e é o que João Lourenço está a afazer. “Não interessa em que lugar se chegue, o importante é que se chegue lá”, agora o que me parece relevante é que numa maratona,  geralmente se vai em grupo,  e João Lourenço não pode correr esta maratona sozinho.

João Lourenço precisa de um grupo que o ajude, isto não é um combate do João Lourenço para mudar Angola, é um combate de Angola para mudar os velhos hábitos de Angola

O Presidente de Angola, João Lourenço, precisa da ajuda de todos, sobretudo daquelas pessoas aquém deu responsabilidade governativas, é preciso que estás pessoas, também demonstrem o mesmo empenho e a mesma convicção na execução das reformas que ele demostra, porque ele sozinho não vai conseguir lá chegar.

João Lourenço na visita que efectuou a Portugal, pediu apoio no processo de repatriamento de capitais, que tipo de apoio Portugal poderá dar?

Eu acho que Portugal não poderá dar muito mais apoio do que aquele que tem, ou das portas que abriu, porque não se pode se não houver suspeita, tem que haver provas, documentação que prove que de facto existem capitais ilícitos em Portugal. Capitais ou outros tipos de bens, acho que havendo provas disso, haverá disponibilidade judiciais para ajudar as autoridades angolanas. A minha convicção, por força da lei, é que para haver um julgamento tem de haver uma acusação, e para haver uma acusação tem de haver provas.

É preciso que as autoridades angolanas forneçam estas provas para que se possa fazer transferência

Este processo de transferência vai ser fácil para Portugal?

Eu acho que os angolanos podem fazer esta transferência, aqueles que têm capitais ilícitos, podem o fazer de forma voluntária, tem aqui bancos que têm correspondência em Angola, como o Millenium BCP, o BPI, BIC, o Atlântico Europa, portanto é fácil fazer transferência de Portugal para Angola, assim essas pessoas que eventualmente têm dinheiro ilícito em Portugal, o queiram fazer. Mas também não tenho dúvidas que se não o fizerem, João Lourenço vai endurecer as suas posições.

E as participações do Estado angolano em algumas empresas portuguesas como a GALP e o Millenium BCP?

São casos complicados sobretudo a da Galp onde o Estado angolano através da Sonangol está como accionista, e a Isabel dos Santos que se transformou em inimiga de João Lourenço, então é preciso saber como é que se resolve estes casos de accionistas. Relativamente aos depósitos, aplicações financeiras e investimentos imobiliários, desde que existam provas de que o dinheiro foi obtido de forma ilícita, Portugal como qualquer outro Estado de direito não colocará oposições a que a realidade seja reposta.

Não me parece que, em volume de dinheiro, Portugal seja o esconderijo de dinheiro ilícito

Há quem diga que Portugal foi conivente?

Há um aspecto relevante, Portugal foi conivente com os 38 anos de regime de José Eduardo dos Santos, e que as empresas portuguesas compactuaram com a corrupção e até promoveram, é admissível que isso tenha acontecido, mas com todas as outras empresas de todos os países que foram para Angola como as petrolíferas,  inclusive as que tiveram relações Estado a Estado,  e com o país que mais emprestou dinheiro à Angola nos últimos 10 anos que é a China.

As pessoas vão para os países conforme as condições que nele encontram; não há inocentes neste show

Não vale a pena estar a procura de culpados porque algumas das mesmas pessoas que hoje acusam Portugal , de ter sido conivente com mãs praticas económicas, foram as mesmas que quando as autoridades portuguesas abriram processo contra Manuel Vicente, disseram que Portugal estaria a se meter nos assuntos internos angolanos. E mas, foram as mesmas que se queixavam cada vez que havia um deposito ou uma transferência superior a cinco mil euros as campainhas do banco tocavam, e elogiavam a Inglaterra porque lá as campainhas não tocavam. Eu acho que na matéria de trocarmos responsabilidades e de acusar, todos os países têm os bolsos cheios, de moedas para troca em relação uns aos outros.

O passado não é aqui chamado?

O passado é importante, o regime de José Eduardo dos Santos, teve 38 anos e não foi reconhecido só por Portugal , foi reconhecido por todo mundo, o governo de José Eduardo dos Santos,  teve na comissão de defesa das Nações Unidas, não vamos fazer aqui uma caça as  bruxas, alias até é muito mais interessante sabermos quais são os problemas que existiam e como foi possível  existir tais problemas, assim, teremos as ferramentas todas para evitar que isso volta acontecer, porque sabemos como é que se fazia, e agora sabemos como é que se deixa de fazer.
“É preciso ter atenção ao passado, mas é preciso construir o futuro”, julgo que da mesma forma que os portugueses, quando ouvem falar de África pensam imediatamente em Angola, Moçambique, Cabo verde ou Guiné e os angolanos quando pensam na Europa, pensam automaticamente em Portugal e só depois é que pensam em França e Inglaterra.

Há uma memória que não se apaga?

“Há esta memória que não se pode apagar, e as memórias são importantes para se construir o futuro, mas o futuro é o que nós queremos construir, e para isso temos que estar empenhados e não procurar culpados do Passado”. Portanto esta questão do repatriamento de capitais, é importante e possa até que seja decisiva para relançar a economia de Angola, agora o decisivo, são os passos que vão ser dados para a diversificação da economia de Angola. Eu não quero ser imodesto, mas quando escrevi o livro O Poder do Governo Angolano em Portugal, há cerca de sete ou oito anos ,  no último capítulo eu escrevi que Angola estava numa encruzilhada e tinha de escolher entre criar ricos ou criar riqueza, parece que aposta foi criar ricos, o desafio continua a ser o mesmo. Angola quer criar ricos ou quer criar e distribuir riqueza?

Qual deverá ser o papel de Isabel dos Santos neste processo?

Acho que as últimas atitudes dela que tem sido observadas através do Twiter, têm sido muito despropositadas, com o peso, com a influência e com os investimentos que ela tem em Angola, ela seria uma das pessoas que ajudaria o João Lourenço a implementar as mudanças,  e não como tem sido vista nas redes sociais, numa oposição de grande antagonização em relação ao Presidente,  presumo que se este clima continuará assim, não antevejo um bom desfecho. Parece-me absolutamente legitimo o direito a opinião e a diferença, mas uma pessoa que tem os conhecimentos e sabe dos aspectos económicos e financeiros como a Isabel dos Santos , deveria saber que a crise não começou quando João Lourenço chegou ao poder e que não vai acabar, se ele sair do poder, há de facto factores como a conjuntura internacional que ele não consegue controlar.
“Há aqui um odioso que não foi esquecido desde que foi demitida da Sonangol”, portanto o que se tem visto é uma escalada de conflitos verbais, em que João Lourenço também tem respondido mas de uma forma bem mais sofisticada porque em nenhuma ocasião sita nomes, nem de José Eduardo dos Santos nem de nenhum familiar, portanto tem sido mais efectivo. Isabel dos Santos é uma empresária angolana e se quer continuar a investir em Angola devia ter boas relações com o governo, com o país onde pertence e onde quer continuar a investir.

Como é que acha que Portugal deveria ajudar Angola a diversificar a sua economia?

Acho que é importante sobretudo no sector das Pequenas e Médias Empresas (PME), no sector agroindustrial e trabalhar nas províncias. Os investidores de outras nacionalidades poderão ter muito mais dificuldades em viver no Lubango, Namibe ou Cunene, para um português será mais fácil, comparando com um alemão, inglês, porque existe esta memória, existe a experiência, a língua que faz toda diferença. Portugal tem uma vantagem grande, vantagem até por força da dimensão do nosso mercado, se os empresários angolanos o quiserem pode-se dividir os investimentos, as nossas empresas não são empresas mandonas, são empresas cujo o poder pode ser repartido.
Em determinados sectores muitos especiais como a agro-industria, a agricultura, até áreas onde Angola mais tarde poderá se desenvolver como a industria têxtil, há uma serie de exemplos em que Portugal pode ajudar Angola e se ajudar a si próprio, essa história de ajuda caridosa deve-se sempre desconfiar “os bons negócios são sempre aqueles em que ganham as duas partes, nenhum empresário em qualquer parte do mundo, vai investir porque é uma alma caridosa”, quando se vai investir, espera-se o retorno, desde que hajam boas praticas empresariais e que as coisas sejam feitas de acordo com as regras.

E…

Outra forma seria na formação de quadros, o ensino, sobretudo nos graus primários do sistema educativo de Angola é um problema, se as pessoas não estiverem formadas, não saberem ler nem escrever a sua base de progressão social vai ser muito mais pequena, entretanto é fundamental que se aposte no ensino e por isso, acredito que Portugal poderia dar um apoio importante na educação e na saúde. Julgo que a educação é uma prioridade, uma sociedade é tanto mais capaz de desenvolver os seus desafios do futuro quanto mais culta, mais evoluída ela fôr, portanto é fundamental que as pessoas aprendam.

João Lourenço quer um novo modelo negócios: não quer comerciantes, quer investidores e pede que Portugal diversifique os seus investimentos em Angola. Concorda?

E faz todo sentido, embora o comércio seja também importante, a importação e a exportação nunca vao deixar de existir, o que se pede é uma balança comercial que seja mais ou menos equilibrada, o que pode é diminuir o impacto das importações na balança comercial. As importações de Angola tem um peso predominante na economia, é preciso equilibrar a balança produzindo mais para consumo interno. É perfeitamente legítimo e faz parte de uma economia saudável que nas suas bases de crescimento, aposta em investimentos produtivos. Eu acho que uma empresa quando é para ir tem que ser para ficar, não pode ser para ir apenas fazer um negócio e voltar, ou como muitas empresas portuguesas que foram para Angola pensando que Angola era um El Dorado e encontraram pedras.

Quem tem problemas cá não vai resolver os seus problemas num outro país. Uma empresa que em Portugal está com dificuldades não vai se salvar em Angola

Angola é só mais um mercado e, portanto, as empresas têm de ir saudáveis daqui para se impor lá, não podem pensar que vão lá para ganhar uma segunda vida.

Recentemente no Fórum Económico Portugal-Angola, os empresários portugueses, mostraram-se preocupados com a questão das garantias jurídicas e o retorno das divisas. É uma preocupação legitima?

É preciso que se dê garantias de que uma parte do capital, os lucros sejam expatriados, mas é preciso ter acesso as divisas, outra parte mais importante neste momento para além da parte politica que também é fundamental é a parte macro-económica, é preciso que Angola tenha  garantias junto a BCE que volte aceitar o BNA como banco correspondente. É preciso também que este acordo com o Fundo Monetário Internacional (FMI), para permitir que Angola tenha um acesso mais facilitado ao crédito externo e em melhores condições, é preciso isso tudo até para que as pessoas ganhem confiança.

A visita da directora-geral do Fundo Monetário Internacional (FMI), Christine Lagarde, pode ser um sinal positivo para Angola?

É mais um sinal que do ponto de vista externo é relevante, eu não sei dizer a última vez que um director do FMI foi a Angola, já há muitos anos que isso não acontecia, tem de facto uma importância internacional, e a importância que as instituições internacionais estão a dar à Angola. É também mais um reconhecimento do trabalho que tem sido feito pelo João Lourenço, todos estes espaços são importantes para construir a imagem de uma Angola. Esta visita é fundamental para Angola, é mais uma vitória política do João Lourenço, que teve a pouca sorte de apanhar uma conjuntura política desfavorável.

E o significado da visita em si?

Não é pelo dinheiro em si, nem pelo volume, é por aquilo que representa, é simbólico, é o gesto de que o FMI acredita em Angola, é um sinal de Angola que vai respeitar imposições feitas pelo FMI, é um sinal de compromisso, portanto, 3,7 mil milhões de dólares é pouco dinheiro em termos gerais, é muito relevante do ponto de vista da afirmação internacional de Angola.

Do ponto de vista interno, acha que o governo angolano está em condições de cumprir com obrigações impostas pelo FMI?

Há uma circunstância que nos joga a favor de João Lourenço que é má conjuntura económica, portanto é muito mais difícil fazer mudanças quando as pessoas estão numa situação de dificuldade, o que fazer é momento de prosperidade. Esta mudança não se faz sozinho, não é uma mudança de João Lourenço é uma mudança dos governados, o governo tem dado sinais de que as pessoas que têm comportamentos desviantes , têm sido afastadas, algumas detidas, agora o que se espera é que este comportamento e este tipo de punição que está a existir também sirva de aviso para os outros.
É uma questão de se mudar de mentalidade, e que é muito difícil, não se faz durante um mandato mas é preciso fazer algumas coisas e manter o rumo na caminhada, só se vai fazer isso se os angolanos assim o quiserem. “Essas mudanças primeiro estão nas mãos dos angolanos com responsabilidades políticas, governativas e depois de todos os cidadãos angolanos e de toda sociedade”.
Quem vai votar, nas próximas eleições já serão jovens que nunca passaram por uma guerra, boa parte deles principalmente aquelas que estão nos grandes centros urbanos, têm telemóvel, Internet, televisão e sabem , os desejos e as aspirações deles é muito por aquilo que vê e já ninguém vai ligar a situação de guerra, a memória passa e as novas gerações exigem outras coisas, exigem outros compromissos, já não há desculpas de que se está a fazer um caminho que iniciamos com o fim da guerra em 2002 , já não faz sentido. Angola teve em 2006 e 2007 condições para crescer, eu sigo os assuntos angolanos há alguns  anos e sempre ouvi a palavra  diversificação da economia, mesmo durante a guerra já se ouvia muito a palavra diversificação da economia, sempre foi o desígnio, a diversificação da economia primeiro não era possível por causa da guerra, depois não era possível, por causa disso ou aquilo , nunca foi possível.

E o petróleo?

Enquanto os receios do petróleo servia para tudo não havia grandes razões para se preocupar, a conjuntura internacional mudou e quando um país  está dependente única e exclusivamente de uma receita, e sem esperar começaram a secar todas as outras fontes nomeadamente o financiamento chinês, que é uma preocupação enorme porque o nível de endividamento a China é brutral, o que se hipotecou ai foram cerca 23 mil milhões, é o Pás de África com maior divida a China, é quase que como se um país fosse refém de um outro país, estou a falar da dependência económica que se cria, nunca deveria ter acontecido. Eu continuo a acreditar muito em Angola, acho que é capaz de sair desta situação difícil, dentro de três anos é capaz de estar numa rota de crescimento económico.

Recentemente, houve a reunião da OPEP, o Presidente dos Estados Unidos, Donald Trump defende preços baixos e o Governo angolano quer preços justos. O que acha que poderá acontecer nos próximos tempos?

Isso é tudo uma guerra conjuntural, agora quando chegar a época do inverno nos EUA, vai haver mais consumo de combustível, portanto o Trump vai tenta baixar para diminuir a factura das famílias, há de chegar uma altura que ele vai puxa-lo para cima com ameaças de uma outra guerra.
Acredito que os 68 dólares que Angola propôs para o Orçamento Geral do Estado , parece-me uma boa previsão, tenho a impressão que o petróleo no próximo ano vai apresentar uma trajetória ascendente, entretanto é fundamental desmantelar a Sonangol, e é o que está a ser feita agora, é preciso que se continua porque a Sonangol que financiou o Estado, foi também a que criou várias empresas que não fazem sentido para o mercado petrolífero. É preciso que a Sonangol se foque no que é essencial do seu negócio que é bussiness, é preciso que mude alguma coisa porque há alguns investimentos, na prospeção em Angola que foram parados porque a Sonangol não tinha dinheiro para investir. Julgo que a Sonangol vai vender algumas posições em blocos petrolíferos, é essencial que o faça, é importante também que a Agência Nacional de Petróleos funcione como regulador e seja efectiva, é necessário que haja mais investimentos no sector da pesquisa para compensar as perdas de produção, é necessário que Angola tenha refinarias e capacidades para abastecer o seu mercado.

Que relação poderá existir entre a Sonangol e a Agência Nacional de Petróleos, uma vez que a Sonangol perdeu o papel de regulador?

Mas cedo ou mais tarde a Sonangol vai ser uma empresa pequena , vai gerir as participações que tem em meia dúzia de blocos, portanto julgo que não faz sentido a Sonangol, ter uma empresa de aviação, imobiliária e outras. A Sonangol deve concentrar-se na sua atividade essencial, e em algumas parcerias com empresas petrolíferas e bloco, cria constrangimento , onde é que vai buscar dinheiro para fazer investimento, na prospecção, vai perder a regulação , faz algum sentido uma empresa não pode ser arbitro e jogador ao mesmo tempo.

Sobre a saída da Sonangol em participações de algumas empresas está de acordo?

É fundamental, a Sonangol para todos os efeitos era o único sítio onde se  produzia dinheiro em Angola, portanto se há capitais ilícitos retirados de Angola, boa parte vieram dali, se não se consegue mudar o melhor é acabar, a única forma de acabar com o poder instituído nas diversas participações da Sonangol, e nos diversos poderes que existiam a volta dela, é desmembrar e criar uma coisa nova, porque julgo que já há demasiados vícios na Sonangol e assumidos,  e que é impossível mudá-los portanto a melhor forma de fazer uma coisa diferente. É como as casas que quando há um tremor de terra, ficam com danos estruturais , já não vale a pena reparar é melhor construir outra, eu julgo que é o que tem de se fazer.

Sobre a Europa. Como é que encara actual situação política no continente?

Encaro com grande apreensão, com o surgimento dos populismos quer sejam da esquerda ou de direita. Temos o BREXIT, é exemplar neste ponto de vista, quem andou a promover o BREXIT, disse que não há problemas e que a saída do Reino Unido seria fácil, mentiram, queriam encontrar uma solução fácil que é sair, afinal não era tão fácil e o problema destes populismos todos, dizem que sempre têm soluções fáceis para as coisas, nós estamos cansados,  as vezes deixamo-nos encantar pelas soluções fáceis, e as soluções fáceis não existem.
Com toda esta situação politica que se vive na europa, o que me custa mais é a perca da qualidade da democracia que isto representa, porque os populismos são sempre riscos para a democracia, porque acabam sempre por legitimar um ponto de vista e a tentar aniquilar todos os outros , a história do ,mundo está cheia disso, de pessoas que dizem que agem em nome do povo , mas que depois se transformam em ditadores , desde o nosso Salazar, passando pelo Hitler e toda a gente diz que age em nome do povo , mas depois quem se lixa sempre é o povo. Se olharmos na história, o povo continua lá e todos estes depois vão as suas vidas, esta ligeireza populista que tem a sua queda encantadora é muito perigosa, por parte da democracia.

Falando da europa a CDU na Alemanha tem nova líder?

É muito cedo para dizer,  a Angela Merkel para o bem ou para o mal vai ficar na história da politica europeia, mas que teve um papel fundamental na atracção dos países do leste e centro europeu para a União Europeia, é importante realçar também que nos países do sul da Europa como Portugal, Espanha, Grécia e Itália, criou alguns problemas porque acabamos por nos tornar cada vez mais periféricos em relação a outros países da Europa. Outro  problema da Europa é que só temos uma Alemanha, depois temos a França com problemas, o Reino Unido que faz muita falta a Europa do ponto de vista estratratégico mas que também nunca está lá, agora esta centralização da Europa no vértice alemão cria problemas.
Sobre a Angela Markel, é engraçado que ela nos últimos dois mandatos, tentou ser mais aberta sobretudo com as grandes coligações, o CDO E SPD, a extrema direita na Alemanha, subiu de percentagem nas votações, independentemente de algumas reservas que olhamos sempre a Alemanha, a verdade é que entre os políticos europeus nos últimos nos últimos 20 anos, a Angela  Markel destacou-se, e tornou-se de facto a única líder indiscutível da Europa, até o Macron que se parecia como um grande lider está bloqueado, feitas as contas eu dou bastante mérito a Angela Markel.

Não o preocupam as novas lideranças europeias?

Claro que me preocupam! Preocupam-me os populismos, a forma como se faz política, a forma como as pessoas manipulam a verdade e como nos transformamos numa sociedade que faz manifestações pelo Facebook, e faz julgamentos dos outros pelas redes sociais, tornamo-nos numa sociedade em que as pessoas julgam e são condenadas de forma instantânea, preocupa-me a capacidade que a Europa tem se revelado e se afirmar como de facto uma super potencia.  Preocupa-me a forma como a comissão europeia e a União europeia como um todo,  não percebeu que é mais forte se tiver junta, mesmo que não estejam de acordo nos acessórios, mais sim no essencial, ao invés de estarem a fazer jogos de poder que só enfraquecem a união europeia, e ajudam a Rússia, China e os EUA.
A Rússia, China e EUA, têm apenas um único propósito.

Quanto mais fraca for a Europa melhor para eles, e a União Europeia tem contribuído alegremente para que isso aconteça, para ser menos poderosa e isso dá vantagem aos três outros blocos económicos

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