“Já não se olha para nós como uma terra de cleptomaníacos”

Luís Fernando é secretário de Imprensa no presidente angolano João Lourenço. Durante o primeiro ano escreveu um livro a contar segredos e pormenores de uma presidência em mudança total.

As mudanças eram muitas no Palácio da Cidade Alta, residência oficial do chefe do Estado de Angola. Tantas que levaram o ex-jornalista Luís Fernando, agora empossado secretário de Imprensa do novo presidente, a descrevê-las. Notícias do Palácio – O Primeiro Ano do Mandato do Presidente João Lourenço é um relato pormenorizado desses primeiros tempos de João Lourenço no poder. O livro é lançado na próxima terça-feira em Portugal.

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Pode dizer-se que Adis Abeba foi o berço deste livro – é o primeiro episódio. Porque optou por relatar no livro o episódio em que se deixou dormir, durante uma visita oficial, após uma noite inteira a escrever?

Para ser fiel aos factos, unicamente. Aconteceu assim e teve de ser relatado assim, tal e qual.

Como surgiu a ideia de escrever este livro?

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Entendi que valia a pena escrever um livro como este à medida que, integrado na equipa do Palácio Presidencial, fui descobrindo que havia algo de extraordinário e verdadeiramente diferente no modo de fazer política do presidente João Lourenço. Disse a mim mesmo: “Tenho o dever moral de partilhar isto que estou a testemunhar com os angolanos.”

A dada altura deve ter falado com o presidente João Lourenço dando-lhe conta da ideia. Ainda se lembra de como foi esse momento? Qual a reação?

Partilhei-a apenas com o diretor de gabinete do presidente João Lourenço [Edeltrudes Costa], a quem fiz chegar o manuscrito quando faltavam três ou quatro capítulos. Evidentemente que a ideia era que o Dr. Edeltrudes Costa se familiarizasse com o conteúdo do livro que eu andava a escrever e o comentasse com o presidente João Lourenço.

Esta era uma obra possível com o presidente José Eduardo dos Santos?

Não faço ideia. Talvez sim, talvez não…

“Não havia pachorra para um país mergulhado na corrupção e no clientelismo até ao tutano.” Este desabafo seu que surge no livro, e a utilização do tempo verbal no passado, quer dizer que Angola já é mesmo um país novo e diferente?

Basta perguntar ao homem da rua. Se o disser eu, os patrulheiros dos “bons costumes” verão elogios nisso e, ato contínuo, entro logo para a interminável legião de bajuladores… Agora a sério: mudou profundamente a perceção, dentro e fora das fronteiras de Angola, que se tem do país. Não se olha mais para nós como uma terra de cleptomaníacos que se instalaram no poder. É ali que está a mudança, o que não quer dizer que não continuem a existir pessoas que vejam no peculato uma forma de melhorar a vida. O que mudou é a convicção de que não existe mais a impunidade de outros tempos. Quem envereda pelo caminho da dilapidação do erário público arrisca-se a ir para a cadeia e não há mais a conversinha das “costas largas”, ou seja, os poderes de cima que protegiam os ladrões e os livraram da punição da justiça.

Notícias do Palácio pode ser visto como um instrumento na construção da imagem pública do presidente João Lourenço. Foi esse o objetivo?

Não, muito longe disso! O presidente João Lourenço tem uma imagem pública tão bem construída, tão definida e tão bem firmada que dispensa olimpicamente esses empurrões de fora, tenham eles a forma que tiverem: panfletos, dísticos, livros ou spots de áudio ou televisivos. O modo como desde a primeira hora se posicionou como um político com dimensão nitidamente republicana, preocupado com o bem-estar dos humildes e dos desfavorecidos, defensor de políticas de inclusão ao contrário da prática anterior de favorecimentos de uns poucos, tornou a sua imagem pública muito nítida. É pelos humildes e ponto final. O meu livro tinha (e tem) um único propósito: deixar o registo deste momento de transformação que Angola vive. Uma crónica de um tempo histórico específico, nada mais do que isso.

O presidente João Lourenço leu o livro antes de ser editado? Pediu-lhe alguns ajustes ou reserva em alguns dos detalhadíssimos relatos que faz?

Não, não o leu porque nunca me pareceu que esse exercício fosse necessário. O livro é constituído por atos quase exclusivamente de natureza pública, sem informação reservada, e não vi, na verdade, onde repousava a razão que obrigasse o presidente a prestar-lhe uma atenção específica. O livro não é uma biografia do presidente João Lourenço, é um mero relato jornalístico de factos informativos que ocorreram nos 12 primeiros meses do seu mandato: viagens, reuniões, decisões públicas como nomeações e exonerações, atos de posse, etc…

Com a publicação do livro já fez mais amigos ou inimigos?

Naturalmente, o livro fez crescer o número de amigos e admiradores… Inimigo não fiz nenhum. Aliás, o modo despojado como passo pela vida não me permite fazer inimigos. É um desperdício de tempo e energias. Os que se atiraram contra o livro fizeram-no de má-fé e para a má-fé temos de nos elevar, de nos superiorizar. Nem sequer o tinham lido, pelo que… está tudo dito quanto aos propósitos. Há que deixar sempre que os factos, o tempo e a verdade lancem os seus autores para o lamaçal da vergonha. Até hoje, ninguém me veio dizer: “Ena pá, Luís, mas que grande bajulação foi a tua, olha isto o que escreveste na página X ou Y!” Continuo à espera de que me venham apontar isso. Claro que poderemos esperar meses, anos, séculos, isso nunca surgirá. Um livro que se limita a descrever viagens, a relatar a experiência do trabalhador mais antigo do Palácio Presidencial ou a contar a vida quase cinematográfica dos homens que cuidam dos jardins, limpam os corredores e distribuem os jornais do dia pelos gabinetes, só numa idílica ficção e muito rebuscada pode conter narrativas laudatórias, encerrar no seu conteúdo bajulação a um presidente que ainda por cima não precisa disso para nada!

Já está a tomar notas para um segundo volume, correspondente ao segundo ano de mandato?

Não, a minha planificação não passa por aí. O que tenho como propósito, cumprido já em 50%, é isto: escrever o livro que relatasse a profunda mudança que estava a ocorrer nesta fase e, quando um dia eu já não estiver no Palácio, fazer então as memórias do tempo que ali passei, como sucede com muitos profissionais na minha função ao redor do mundo. Não já um livro limitado a relatar factos vividos, como é o Notícias do Palácio, mas com considerações minhas, com opiniões, com uma avaliação dos eventos e das situações, mantendo sempre, obviamente, o dever de reserva para as os factos que o exijam. Sou um profissional e um cidadão responsável, não um aventureiro dos que disparam enormidades nas redes sociais para se notabilizarem.

Por que razão apenas na edição portuguesa está incluída a visita do primeiro-ministro António Costa a Luanda?

Razões de tempo apenas. Quando decidimos encerrar a edição para o mercado angolano, a visita do primeiro-ministro António Costa a Luanda não tinha acontecido ainda.

Um homem de uma simplicidade a toda a prova, pontual, pragmático, que tanto se preocupa com as grandes questões macroeconómicas do desenvolvimento económico e social do país como com o caso de uma adolescente anónima que por contrariedades do destino viu as duas mãos amputadas. Estas são características do presidente João Lourenço que evidencia no livro. Que outras acrescentaria como as mais marcantes do presidente angolano, passado mais de um ano de intenso trabalho direto com João Lourenço?

A qualidade que mais ressalto no presidente João Lourenço – e assinalo-a em muitos momentos do livro – é o seu profundo e explícito comprometimento com o bem-estar dos angolanos, o modo como lhe interessam as inquietações do povo. É a partir desta que parecem emanar todas as outras e é, confesso-o, aquela para a qual me viro mais amiúde no esforço por conhecer melhor, a cada dia, o líder a quem sirvo.

João Lourenço nunca perde a calma mesmo, como escreve no livro?

Ao menos que eu tenha testemunhado…

A lista inicial que elaborou logo após o convite, na sua agenda cor de cinza, como guião para as suas novas funções como secretário de Imprensa, revelou-se ajustada à realidade que foi encontrar ou a função é muito diferente do que inicialmente pensou? Mantém a ideia de o país vir a ter um canal de televisão exclusivamente dedicado à atualidade informativa?

Claro que não houve uma coincidência a cem por cento do que previamente entendi como o meu provável pacote de tarefas no interior do Palácio com aquilo que me foi efetivamente exigido como missões a cumprir. Estamos integrados numa equipa que desenvolve um trabalho de um grande dinamismo, que obriga a ajustes constantes, de tal maneira que temos de nos sentir capazes de acompanhar o ritmo quando ele acelera.

Na sala do Conselho de Ministros no Palácio da Cidade Alta ainda se mantém o desnível que coloca o presidente num plano mais elevado em relação aos restantes membros do executivo?

Ainda lá está o desnível, mas com a intervenção arquitetónica que o edifício está a sofrer neste momento em 2019 a nova sala de sessões do Conselho de Ministros haverá de mostrar-nos uma nova realidade, certamente.

Em algum momento se arrependeu de ter reservado “o período da tarde de segunda-feira [25 de setembro de 2017] para uma reunião com uma pessoa muito importante”, como conta no livro?

Evidentemente que não. Não sou hipócrita que deixe de assumir que o ter tido o grande privilégio de ser convidado pelo presidente João Lourenço para fazer parte do seu gabinete foi um grande momento, porque me tem permitido acompanhar, de perto e a partir de dentro, a normalização da vida de um país onde a esperança no amanhã parecia morta.

De que forma a experiência de 40 anos de jornalismo o tem ajudado nos desafios que lhe surgiram ao longo dos primeiros 12 meses de trabalho na equipa do presidente João Lourenço?

O que faço na equipa do presidente João Lourenço é, essencialmente, pôr em prática o que constituiu o meu longo treino de quatro décadas a lidar com o complexo e entusiasmante mundo da comunicação, agora com o pormenor da comunicação institucional. Evidentemente que aprendo coisas novas, porque em todos os atos está presente a delicadeza da política no seu estágio extremo, o Palácio. Os erros, nesse lugar, pagam-se com o despedimento, e essa espada que pende sobre a nossa cabeça lembra-nos dia e noite de que temos de ser extraordinariamente bons no que fazemos.

Já está com saudades de fazer “o que mais prazer me dá”, como escreve no livro? Ou seja, escrever notícias?

Um jornalista com o meu percurso, forjado no frenesi da redação, só deixa de querer fazer notícias e de sentir-lhes o néctar e o prazer “orgásmico” se estiver morto…

A segunda tentativa de plantação de maracujá gigante no jardim do Palácio da Cidade Alta correu melhor?

Muito melhor [risos]. Agora o Palácio tem 24 pés de maracujá gigante e não falta muito que a fruta aparecerá como sobremesa num qualquer banquete presidencial. Aí será a consagração da minha veia de agricultor que não se rende.

Fonte: DN

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